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Paulo Sampaio


Estilista de SP cria "máscaras" de até R$ 600: "Vírus não gosta de brilho"

A blogueira Caroline Haddad posa no ateliê do estilista, em Campinas - Arquivo Pessoal
A blogueira Caroline Haddad posa no ateliê do estilista, em Campinas Imagem: Arquivo Pessoal
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

21/04/2020 07h00

O estilista Luddy Ferreira, de Campinas, está exultante com sua última criação. Ele elaborou peças temáticas para ajudar a enfrentar a pandemia de covid-19. Os modelos são confeccionados com pedrarias, bordados, fios de ouro e prata. Apesar de muito inventivos, não tiveram aceitação unânime nas redes sociais. Luddy atribui a reação à "falta do que fazer":

"Como está todo mundo em casa, com tempo de sobra, teve gente que não entendeu a ideia e falou muito mal. Mas acabou sendo bom porque meu produto foi divulgado rapidamente. Então, quem quis fazer maldade não conseguiu", informa ele.

Luddy reconhece que uma parte do mal-entendido aconteceu por culpa dele, que a princípio chamou de "máscara" o que na verdade é apenas um suporte para ser usado por cima do modelo cirúrgico.

Luddy Ferreira - Arquivo Pessoal/Instagram - Arquivo Pessoal/Instagram
Luddy Ferreira
Imagem: Arquivo Pessoal/Instagram

Casual e conceitual

Disponíveis em 12 modelos, oito cores, as peças custam entre R$ 120 ("a coleção casual, carro-chefe") e R$ 600 ("as peças-conceito").

"Na verdade, ainda estou desenvolvendo os modelos. Quando você cria, a cabeça não para, as ideias fervilham. Como esse mundo do 'feito a mão', de prender pedrinha por pedrinha, é o meu, eu não vejo dificuldade em ficar criando, criando, criando", diz o estilista, que desde 1993 se dedica à criação de vestidos de noiva e de festa.

"Tracei minha carreira com o propósito da exclusividade, trabalhando com mercado feminino", explica Luddy, que diz ter recebido encomendas dos suportes de máscaras de todo o Brasil, "do Rio Grande do Sul ao meio da floresta Amazônica".

Enxergando o belo

Os maiores consumidores do produto, segundo ele, são os médicos.

A doutora Juliana Saab, 32 anos, que trabalha com "medicina estética" e usou em sua festa de debutante um vestido pink assinado por Luddy, já adquiriu cinco modelos - com fios dourados, prateados, aplicação de pérolas fantasia, e nas cores vinho e cinza.

A médica Juliana Saab: "A gente tem de enxergar o belo nos momentos difíceis" - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A médica Juliana Saab: "A gente tem de enxergar o belo nos momentos difíceis"
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu acho que, em momentos difíceis, a gente precisa enxergar o belo. Em 2018, quando eu morava na Califórnia, tive de deixar Santa Bárbara e ir para Los Angeles por causa das cinzas deixadas pelo maior incêndio de que se teve notícia na região [atingiu especialmente a cidade de Paradise]. Na ocasião, precisamos usar máscaras, e minha mãe, lembrando disso, me presenteou com essas que o Luddy fez", explica.

Por sua vez, a obstetra Karla Rocha, 49 anos, conta que soube da novidade pelo "whatsapp". "Sou cliente do Luddy há muito tempo. Ele fez o vestido com que eu fui na formatura da minha filha e o do meu aniversário de 27 anos de casamento. A princípio, achei que não daria para usar a 'máscara' nos partos, mas então ele me explicou que é preciso colocar o modelo cirúrgico por baixo. Aí eu vi que tudo bem."

A obstetra Karla Rocha, com um modelo dourado: o estilista diz que os médicos deram "uma resposta imediata de gratidão" - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A obstetra Karla Rocha, com um modelo dourado: o estilista diz que os médicos deram "uma resposta imediata de gratidão"
Imagem: Arquivo Pessoal

Como surgiu a ideia de fazer os suportes para máscaras?

Há quatro anos, eu tive uma doença autoimune e precisei usar máscara o tempo todo, porque minhas defesas foram a zero. Se eu pegasse um resfriado, poderia vir a óbito. Desenvolvi um trauma muito grande, e comecei a observar que as pessoas que precisam estar com máscaras, como médicos, passam para a gente uma sensação de dó, de tristeza.

Um dia, pensei: "Nossa, vou criar algo diferente para resgatar a vaidade das mulheres que usam máscaras. Eu quero ver a dentista atendendo uma criança com uma máscara cor-de-rosa da Barbie."

Atitudes assim têm o poder de reverter essa situação do medo da máscara. Eu falo disso em relação à criancinha, mas também ao que está acontecendo atualmente. Todo mundo de máscara, vem aquele pânico de morrer.

Desta vez [pandemia], eu imaginei fazer uma coisa bem alegre, pra cima, com brilho. O olhinho de todo mundo brilha quando vê uma joia. Brilho atrai brilho. Bolei até uma frase: "Vírus não gosta de brilho", só para ficar com um ar mais engraçado. Claro, reconhecendo o devido valor desse vírus.

Acho que pode dar uma leveza, até para os profissionais de saúde, de quem eu estou recebendo uma resposta muito imediata de gratidão. São eles os maiores consumidores do meu produto.

Criatividade à toda prova: "Nunca desista de seus sonhos! Eu sempre quis ter um leão!" - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Criatividade à toda prova: "Nunca desista de seus sonhos! Eu sempre quis ter um leão!"
Imagem: Arquivo Pessoal

Algumas pessoas o atacaram nas redes sociais.

É que a história foi compartilhada pela metade. Nos primeiros vídeos, eu chamei erradamente de "máscara" o que na verdade é apenas um suporte para usar por cima do modelo cirúrgico. Mas mesmo depois que eu expliquei teve gente que falou muito mal, o que, no fim, foi bom porque houve uma divulgação muito rápida do meu produto.

As pessoas estão começando a entender a ideia, e acredito que mais uns dois dias elas vão saber do que se trata. Reverteu para o bem.

Quantas pessoas trabalham no seu ateliê?

Hoje, 12 pessoas, direta e indiretamente.

Elas estão trabalhando em casa?

As senhoras mais velhas e pessoas de grupo de risco, sim. Eu tenho aqui uma equipe que corta, higieniza a peça e, no final do dia, alguém leva para elas. Atualmente, são quatro pessoas trabalhando no ateliê.

E você?

Meu ateliê é em casa. Estou super na moda, faço home office.

O preço da peças é sempre R$ 120?

Enquanto eu conseguir encontrar matéria-prima para executar os modelos casuais, o preço será esse. Acontece que, querendo ou não, toda matéria-prima vem da China. Então, quando eu não encontrar mais, o preço vai subir.

As "peças conceito" são mais caras, podem chegar a R$ 600, porque a gente leva até dois dias para confeccionar. Eu uso pedras de zircônia, swarovski, fio de prata, e as senhoras que trabalham comigo bordam à mão em cima de placas de silicone, ou crinol, que é uma tela plástica própria para armar saia de vestido de festa. Quanto mais exclusiva a peça, maior o valor agregado.

Já teve encomendas?

Sim! Do Rio Grande do Sul ao meio da floresta Amazônica. Xingu! Já foi a caixa.

Recebi mensagens inclusive de clientes que moram fora do país, lá nos Estados Unidos. Também da França, teve um whatsapp de uma francesa. Até Nova York está me mandando mensagens! Foi uma coisa muito veloz, que no princípio me assustou bastante.

Então está vendendo bem?

As primeiras peças eu nem consegui fotografar. Foi tudo, e tem fila de espera, glória a Deus! Agora, estou programando as entregas das pessoas que compraram no começo da semana só para sexta-feira.

É um trabalho muito artesanal. Para produzir oito peças casuais, eu gasto 9 horas. Não é como uma camiseta, que eu sento na máquina de overlock e zump, produzo em escala industrial. Tem de fazer o pontinho, passar a linha no buraquinho da agulha...

Atualmente, muita gente tem se dedicado a fazer máscaras domésticas, para uso pessoal. Os modelos recomendados a pessoas que precisam sair de casa estão em falta. Até as cirúrgicas, usadas por profissionais de saúde, passaram a ser racionadas nos hospitais.

Algumas pessoas estão me crucificando, dizendo que eu deveria fazer máscaras para doar, mas, gente, eu sou um empresário, tenho de me reinventar, ajudar as pessoas que precisam trabalhar.

Em menos de quatro dias, empreguei mais quatro pessoas. Isso, pra mim, não tem preço.

Paulo Sampaio