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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro sugere que ajudou a imunizar o país ao agir como irresponsável!

Frame da conversa que Bolsonaro manteve com Ratinho, apresentador do SBT, que foi ao na sexta-feira. Presidente afirmou uma coleção de coisas assombrosas e não apontou uma única alternativa às medidas implementadas por governadores. E a maioria delas está correta - Reprodução/Youtube
Frame da conversa que Bolsonaro manteve com Ratinho, apresentador do SBT, que foi ao na sexta-feira. Presidente afirmou uma coleção de coisas assombrosas e não apontou uma única alternativa às medidas implementadas por governadores. E a maioria delas está correta Imagem: Reprodução/Youtube
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/03/2020 23h17

A disposição de Bolsonaro de afrontar o bom senso não encontra paralelo no mundo. Não se tem notícia de chefe de Estado que diga as coisas que diz.

Na quinta-feira, ele concedeu uma entrevista ao apresentador Ratinho, do SBT, que foi ao ar na sexta. Disse coisas verdadeiramente assombrosas, às vezes com um ligeiro esgar de riso irônico, sabe-se lá por quê.

O vídeo está aqui para os interessados. Transcrevo um trecho que me parece bem significativo e característico de que, despreparado intelectual e politicamente para governar o país em circunstâncias normais, Bolsonaro atola-se na indigência moral e ética durante a crise. Entre as enormidades que disse, afirmou, com todas as letras, que, ainda que ele tenha estado com o coronavírus, contribuiu para imunizar os brasileiros.

Leiam trechos que transcrevi.

"Se chegar lá [em idosos] uma gripe qualquer... Então o que acontece em parte da imprensa, né? O cara entrou em óbito. E tinha dado positivo para o vírus. E tinha dado lá diabetes, não sei o quê... [Vão dizer] 'É disso que morreu, do coronavírus!' O que é que eu faço? Eu não quero levar o pânico para a população brasileira. A minha missão como chefe de Estado é levar a verdade e dizer para eles que isso vai chegar. Vai passar. Vai passar, não tem como... Você vai viver isso daí. Essa onda vai passar por cima de você. Talvez eu tenha adquirido antes, como eu disse agora há pouco, e você também, há um mês atrás, vinte dias atrás, já acabou, já estamos imunes. Estamos ajudando a imunizar o Brasil. Porque o vírus bate em nós e não passa para terceiros. Você vai passar por isso. Agora, o pânico é terrível. Tem uma história até que eu estava vendo esses dias aí... Não sei quem, antigamente, um cara prometeu pro outro: 'Vou matar 10 mil pessoas naquela cidade'. Daí ele foi lá, voltou, o [outro] cara falou: 'Mentiroso! Você não matou 10 mil. Você matou 100 mil. Ele [o assassino em massa falou: 'Não! Os outros 90 [mil] foi de pânico, foi de histeria..."

Ratinho interrompe: "É verdade!"

Bolsonaro segue:
"Não adianta eu falar: 'Fiquem calmos, extremamente calmos!' Ou então: 'Esperem uma guerra!' Primeiro que eu estou me violentando. Alguns dizem que eu deveria pedir desculpa por isso, por aquilo. Dizer, alertar da verdade... Eu não quero é histeria. Porque isso atrapalha. Tem certos chefes de Estado por aí, até prefeito, já falando ele em decretar por aí interdição de aeroporto, fechando shopping, fechando estradas federais. É inadmissível isso! Quando você fala em fechar aeroporto, Ratinho, você pode ter um parente, um amigo nosso, um ser humano, aguardando um fígado que viria lá de Fortaleza aqui para Brasília. Não vem mais. Vai morrer esse cara porque fecharam aeroporto. Então é uma histeria."

Ratinho interrompe de novo: "Acaba morrendo muito mais gente nessa histeria do que..."

Bolsonaro reassume a palavra:
"Vão morrer alguns do vírus? Sim, vão morrer. Alguns por estar com deficiência. Outro que vai (sic) acontecer. Vai pegar o cara... Pegou o cara no contrapé. Vai acontecer, lamento! A minha mãe tá com 92 anos de idade, magrinha... Se pegar nela qualquer coisa, coitada da minha mãe. Eu acho que ela nos deixa. Agora não podemos criar esse clima todo que está aí. Prejudica a economia! Uma pessoa que vive da informalidade, geralmente, é uma pessoa que não ganha bem e leva seus alimentos para a casa, para a família, com muita dificuldade. Se ele perde esse emprego, vai ficar pior. Alguém da família no estado de inanição, chegando o vírus, vai ficar pior. E tem mais chance de entrar em óbito do que se estivesse praticando a informalidade. E, agora, o que é que eu vejo no Brasil aqui? Não sou todos, mas muita gente? Para dar uma satisfação para o seu eleitorado, toma providências absurdas, como te falei agora há pouco, fechando shoppings. Tem gente que quer fechar igreja, último refúgio das pessoas, né? Lógico que o pastor vai saber conduzir lá o seu culto. Ele vai ter consciência, ou pastor ou padre, se a igreja está muito cheia, falar alguma coisa... Ele vai decidir lá. Até porque, a garantia de culto e proteção ao ambiente do mesmo (sic) é garantido pela Constituição. Não pode um prefeito, um governador chegar: 'Não vai mais ter culto' Ou: 'Não vai mais ter missa'. Isso é o que nós temos de dizer para a sociedade: 'Olhe, vamos passar por isso. A onda, a chuva tá vindo aí. Você vai se molhar. Agora, se você botar uma capinha aqui, tudo bem, passa! Agora, se você entrar em parafuso, tu vai (sic) morrer afogado embaixo da chuva, pô!"

Destaco alguns aspectos. Trata-se de uma coleção assombrosa de asneiras até para o padrão Bolsonaro.

IMUNIDADE DO REBANHO
Prestem atenção ao que diz Bolsonaro a Ratinho:
"Talvez eu tenha adquirido antes, como eu disse agora há pouco, e você também, há um mês atrás, vinte dias atrás, já acabou, já estamos imunes. Estamos ajudando a imunizar o Brasil. Porque o vírus bate em nós e não passa para terceiros".

Alguém deve ter tentando lhe explicar a tese conhecida como "imunidade do grupo" ou 'imunidade do rebanho". Qual o conceito? Havendo indivíduos vacinados numa determinada comunidade, eles colaboram para proteger os não-vacinados à medida que não desenvolvem uma determinada doença. Muito bem. Há uma ilação possível aí: o vírus poderia circular, os mais resistentes desenvolveriam anticorpos, e isso teria o efeito de uma vacina...

Epa! No caso em questão, quantos morreriam entre os mais frágeis? Outra pergunta: a contaminação deveria atingir quantos indivíduos para que se colhesse um suposto efeito positivo? Contaram a Boris Johnson, primeiro-ministro da Grã-Bretanha, que dezenas de milhares morreriam. E se decidiu mudar de prosa.

Mais: ainda não se tem a certeza da imunização mesmo para quem desenvolveu a doença. Outro empecilho para essa hipótese alucinada: como ela dispensaria o isolamento social, mesmo pessoas com anticorpos poderiam levar o vírus nas mãos, nas roupas, em objetos pessoais. Em vez de contribuírem para "imunizar o rebanho", estariam concorrendo para contaminá-lo.

O que Bolsonaro tentou, e isto é assombroso, é dizer que, se ele estava infectado quando caiu nos braços do seu "povo", estava prestando um favor ao Brasil.

FECHAMENTO DE IGREJAS
Comecemos pela suposta interdição constitucional do fechamento de igrejas. É mentira. Bolsonaro desconhece a Constituição. Sim, a liberdade de culto (Inciso VI) é uma das garantias do Artigo 5º da Carta, que traz, em seus 78 incisos, os direitos individuais. Parágrafo 2º do mesmo Artigo define: "Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte."

Um direito individual que afronte, por exemplo, o direito à saúde, garantido pelo Artigo 6º da Carta, não se exercerá em prejuízo deste. Foi com base nesse fundamento que o ministro Sergio Moro autorizou a internação compulsória de quem, estando contaminado, nega-se a se tratar ou concorre para espalhar o vírus, com a possibilidade até de prisão. O ministro destacou essa medida naquela coletiva dos mascarados. Não existe arbitrariedade constitucional nenhuma em se proibirem cultos. Prevalece o interesse da saúde pública.

SEM MEDIDAS ALTERNATIVAS
Faria, sim, sentido Bolsonaro reclamar de medidas adotadas por governadores e prefeitos descolados de uma estratégia nacional. Mas aí vem a pergunta: qual é a sua? Ninguém sabe! Até agora, ele não disse. Tampouco o fez na conversa com Ratinho.

Bolsonaro está em pânico, ele sim, com o que pode acontecer com a economia. Mas não é o único. Estamos todos temerosos. A melhor ideia, até agora, apontada por epidemiologistas e pessoas que lidam com modelos matemáticos complexos — e podemos renunciar à ciência para ficar nas crendices — está na necessidade de achatar a curva para evitar um pico gigantesco de doenças, colapsando o sistema público e também o privado de saúde.

EMPATIA
Mais uma vez, o que se vê é um governante que lida com o desastre e com a morte sem evidenciar empatia ou compaixão. Vai morrer gente? Vai. Fazer o quê? Para ele, é do jogo. Sim, mas essas devem ser a fala e a entonação de um governante? Para ele, tudo se resolve citando o risco que corre a sua própria mãe... A mensagem: se até ela está nessa, por que não a mãe dos outros?

A propósito: por razões de segurança justificáveis, devemos intuir e podemos ter a certeza de que a mãe do presidente está mais protegida do que as nossas respectivas...

É fato que o Brasil não poderá ficar parado até que as contaminações comecem a declinar. Até que as medidas preventivas não tenham, no entanto, ganhado corpo para atender a milhares de futuro doentes — algumas estão em curso nos Estados, mas em fase inicial —, é preciso alongar o Eixo X da contaminação, O TEMPO, para que o Eixo Y, O NÚMERO DE DOENTES, não dispare de repente, nos empurrando para o caos.

E é para o caos que as ideias do presidente nos conduziriam.

O homem está cercado de militares que burros não são. A questão é saber se ele faz ou que faz e diz o que diz por burrice ou por método. Em qualquer caso, tornou-se um perigo público.