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Reinaldo Azevedo

Plano Marshall? General lança PAC de Bolsonaro. Guedes cheira a queimado

General Braga Neto: caso Jair Bolsonaro não mude de ideia, ele comandará os esforços de recuperação da economia depois da crise do cornavírus. Será o chefe do PAC bolsanariano - Foto: Sérgio Lima/Brasil 360
General Braga Neto: caso Jair Bolsonaro não mude de ideia, ele comandará os esforços de recuperação da economia depois da crise do cornavírus. Será o chefe do PAC bolsanariano Imagem: Foto: Sérgio Lima/Brasil 360
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

23/04/2020 08h33

Eis que, de repente, surge no cenário um tal "Plano Marshall" de Jair Bolsonaro para a economia, que ficará sob a coordenação do general Braga Netto, chefe da Casa Civil.

Em que ele consiste? Do que deu para entender até agora, trata-se de uma iniciativa inspirada no "Plano de Aceleração do Crescimento", origem de alguns dissabores para o Brasil, para Dilma Rousseff e para o PT, uma vez que, sob o seu manto, deu-se também o "PAIF", o Plano de Aceleração da Irresponsabilidade Fiscal. Mas eram outros tempos.

A exemplo do PAC petista, também essa proposta vai além do mandato de Jair Bolsonaro e alcançaria 2030. A ex-presidente tem o direito de acusar o plágio.

Informa o Estadão:

A ala militar do Palácio do Planalto impôs à equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, um revés com o lançamento do programa de recuperação econômica pós-covid 19 que prevê aumento dos gastos com investimentos públicos para os próximos anos.

O anúncio oficial foi feito nesta quarta-feira, 22, pelo ministro da Casa Civil, general Walter Braga Netto, sem a presença de nenhum integrante do Ministério da Economia na coletiva de imprensa no Palácio do Planalto e depois do alerta de dois secretários do time de Guedes, ao longo do dia, de que a recuperação terá que vir pela mão do setor privado.

Chamado de pró-Brasil, o programa, que chegou a ser apelidado inicialmente de Plano Marshall brasileiro, prevê um incremento de R$ 300 bilhões - R$ 250 bilhões em concessões e parceria público privada e outros R$ 50 bilhões de investimento públicos. A coordenação será do ministro Braga Netto.

Na reunião de ministros antes do lançamento do plano, Guedes avisou que a recuperação terá que ser feita com investimento privado e que as âncoras fiscais do governo, como o teto de gastos (regra que proíbe que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação), serão mantidas.

Entre os integrantes da equipe econômica, o descontentamento com as bases do programa não é de hoje. O programa está sendo discutido há mais de 30 dias com Braga Netto e ministros que atuam nas áreas finalísticas, sem a participação do Ministério da Economia - até então envolvido com a elaboração das medidas emergências de combate à pandemia.

Braga Netto negou divergências com a equipe de Guedes e afirmou que a aceitação do programa foi unânime em todos os ministérios. A primeira reunião de trabalho será na próxima sexta-feira, quando cada ministro vai levar as suas propostas.
(...)

RETOMO
Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica, avalia, segundo informa o Estadão, "que o verdadeiro 'Plano Marshall' brasileiro de reconstrução nacional será não gastar mais na fase pós-pandemia da covid-19, mas aumentar a velocidade das privatizações, concessões e a facilitação do investimento privado em infraestrutura. Defendeu que o Estado não é bom guia para a recuperação econômica."

Será mesmo assim? Nada contra as concessões — aliás, o tal Pró-Brasil vê a possibilidade de arrecadar R$ 250 bilhões nessa área —, mas será mesmo o pós-Covid-19 um bom momento para as privatizações? Não há o risco de vender patrimônio público na bacia das almas para um setor privado que também não estará nadando em dinheiro? A propósito: quando será esse tal período pós-coronavírus?

Essa é uma das angústias dos militares com o paulo-guedismo. Avaliavam que a resposta da economia já era muito mais lenta do que anteviu a antevia o "Posto Ipiranga". A avaliação é a de que que seu cacife diminuiu na crise porque ele continuaria apegado a um modelo anterior ao desastre provocado pelo vírus.

Convenham: a coisa não começa direito. Um plano com essa importância deveria ter sido anunciado pelo ministro da Economia. Se não foi, é porque ele não está no comando da operação. Ademais, a sua execução requer entendimento com o Congresso — daí que Bolsonaro esteja mandando piscadelas para parte do Centrão. Mas se pretende levar a coisa adiante em guerra com o Congresso?

Há quem queira que Guedes está de acordo com tudo porque: 1) nada tem a oferecer no curto prazo; 2) não saberia como explicar a proposta sem ser submetido a uma espécie de humilhação intelectual.

Uma coisa é certa: por enquanto ao menos, quem quiser falar sobre a economia pós-coronavírus deve procurar o general Braga Netto, não o ministro da Economia.

É assim hoje. Pode mudar amanhã.

PS: Sei lá quem primeiro chamou esse troço, seja lá o que for, de "Plano Marshall". Este foi um programa de ajuda dos EUA às economias europeias combalidas pela Segunda Guerra. O que se quer fazer no Brasil, como se nota, tem mais semelhanças é com o PAC da Dilma.