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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Risco nuclear, lições de "Sob a Névoa da Guerra" e óbvia pornografia moral

Robert McNamara, que era secretário de Defesa dos EUA durante a crise dos mísseis e parte da guerra do Vietnã. Deixou as lições dos seus erros. Quem quer aprender? - Reprodução
Robert McNamara, que era secretário de Defesa dos EUA durante a crise dos mísseis e parte da guerra do Vietnã. Deixou as lições dos seus erros. Quem quer aprender? Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

07/03/2022 07h27

O mundo chegou muito perto de um confronto nuclear em 1962. Foi o momento mais dramático e perigoso da Guerra Fria. Querem saber? Acho que estamos correndo mais perigo hoje, em 2022, do que há 60 anos. E vou dizer por quê.

Em 1961, havia acontecido a malfadada invasão da Baía dos Porcos. Forças contrarrevolucionárias e mercenários, financiados e organizados pelos EUA, tentaram entrar em Cuba para depor o governo que chegara ao poder com a revolução de 1959. Fidel Castro convencera Krushev, o líder soviético de então, de que a ilha precisava de um fator dissuasório muito convincente para manter os americanos distantes. E mísseis balísticos, que poderiam ser carregados com ogivas atômicas, começaram a ser instalados em Cuba.

Avião espião fotografou a planta de instalação dos mísseis. Washington determinou um bloqueio militar contra Cuba, impediu que novas peças chegassem e exigiu que as já instaladas fossem desmontadas. Estabeleceu-se um diálogo direto entre Kennedy e Krushev. Para consumo público, o líder soviético desistiu dos mísseis — contra a vontade de Fidel, note-se —, e os americanos se comprometeram a não patrocinar novas agressões a Cuba. Secretamente, fez-se mais do que isso: os americanos retiraram da Turquia e da Itália os mísseis que estavam voltados para Moscou. E não se deu a guerra nuclear.

Bastidores nessa negociação são contados em detalhes no filme "Sob a Nevoa da Guerra", de 2003, dirigido por Errol Morris. Traz o impressionante depoimento de Robert McNamara (1916-2009), que foi secretário de Defesa dos EUA entre 1961 e 1968 — nos governos, pois, de John Kennedy e Lyndon Johnson. Ele testemunhou a quase hecatombe nuclear e assistiu à escalada da guerra contra o Vietnã, ajudando a promovê-la, que viria a considerar depois um "erro terrível".

O filme tem como antecedente o livro que havia publicado em 1995: "In Retrospect - The Tragedy and Lessons of Vietname", que expõe 11 lições aprendidas com a derrota no Vietnã. No documentário, ele expõe outras 11 lições, que vão além daquele conflito. A imprensa do Brasil e a do mundo deveria recuperar livro e filme para orientar seu trabalho.

POR QUE PERIGO É MAIOR
Em 1962, a crise dos mísseis não se deu em meio a uma guerra. O número de atores que poderiam cometer deslizes era muito pequeno. Ainda assim, quase deu tudo errado!

A Otan, então, se resumia à aliança dos Estados Unidos com os países da Europa capitalista que buscavam estabelecer limites à expansão da União Soviética, que tinha os comunistas do Leste do Continente sob sua esfera de influência, liderando o Pacto de Varsóvia, a que pertenciam Hungria, Romênia, Alemanha Oriental, Albânia, Bulgária, Tchecoslováquia e Polônia.

Unificada, a Alemanha pertence hoje à Otan, assim como a República Tcheca e a Eslováquia, que se separaram. Destino idêntico tiveram as outras repúblicas socialistas citadas, além de três que pertenciam à URSS: Lituânia, Letônia e Estônia. Com a dissolução da Iugoslávia, também houve a adesão de Eslovênia, Macedônia do Norte e Montenegro.

O Pacto de Varsóvia, por óbvio, se dissolveu com a derrocada soviética, mas a Otan dobrou de tamanho em número de adesões e chegou à fronteira russa. A crise atual nasce quando o governo pró-Moscou da Ucrânia é derrubado e o establishment político do país passa a ser abertamente anti-Rússia.

A invasão de um país soberano é inaceitável — e, portanto, não há como condescender com a agressão promovida por Vladimir Putin. Ainda que a Rússia tenha questões de segurança que são legítimas — e é claro que as tem; basta olhar o mapa —, a reação é estupidamente desproporcional.

O teatro de operações na região é muito delicado. Zelensky, o comediante da Ucrânia alçado à condição de estadista, pede que a Otan determine a zona de exclusão aérea, o que corresponderia a uma declaração de guerra porque isso, necessariamente, oporia as forças da aliança militar às russas. Há quatro países da aliança que fazem fronteira com a Ucrânia: Polônia, Eslováquia, Hungria e Romênia. Estônia está na divisa com a própria Rússia, assim como a Letônia, que é, por sua vez, vizinha de Belarus (fiel a Putin), que também divide a cerca com os poloneses.

A chance de um evento besta dar numa tragédia e gigantesca existe. A história está cheia de exemplos.

Qual seria o ideal? Que Putin decidisse voltar para casa, arcasse com as reparações da guerra e fosse deposto por um forte movimento democrático em seu país. Mas nada disso vai acontecer. Não acontecendo, é preciso saber quantos mortos a falta de um acordo pode suportar, com o risco, que se eleva a cada dia, de escalada nuclear.

AS LIÇÕES DO FILME
Algumas das 11 lições expressas por McNamara no filme deveriam merecer a reflexão dos contemporâneos. É provável que Putin não tenha por elas grande simpatia. A questão é saber se será o presidente da Rússia a ditar, ainda que pelo caminho do desastre em que ele mesmo afunda seu país, as escolhas de Estados Unidos, Europa e de quantos se oponham à guerra. Lembro as mais importantes:

- É preciso ter empatia com o inimigo; desumanizá-lo é um bom caminho para o desastre;

- a pura racionalidade não salvará a humanidade; guerras são também irracionais e podem apelar a pretextos que não fazem sentido. Ele lembra que três homens racionais — Kennedy, Krushev e Fidel — chegaram perto de destruir o mundo que conhecemos. E alerta que o risco persiste;

- a proporcionalidade deveria ser uma regra na guerra. Não é. A do Vietnã matou 58 mil americanos e três milhões de vietnamitas. Ele lembra o que os EUA fizeram com o Japão antes ainda de Hiroshima e Nagasaki. Bombas incendiárias destruíram metade de Tóquio, 99% de Toyama, 40% de Nagoya, 35% de Osaka, 55% de Kobe. Foram ataques indiscriminados. Mais de um milhão de japoneses morreram. Ele cita o general Curtis LeMay, da Força Aérea americana, que comandou os massacres entre 1944 e 1945: "se os EUA tivessem perdido, teriam sido julgados por crimes de guerra";

- com frequência, aquilo em que se acredita e mesmo aquilo que se vê estão errados — ou induzem ao erro. Ou na sua expressão: "Vemos aquilo em que queremos acreditar". E cita o caso do "Incidente do Golfo de Tonquim" (pesquisem a respeito). O que era um evento sem importância levou os EUA a entrar oficialmente na Guerra do Vietnã. O resto é conhecido;

- esteja pronto para mudar de ideia: ele observa que os EUA são a maior máquina de guerra do mundo e devem estar preparados para reexaminar seus pontos de vista se não conseguem persuadir outras nações a segui-los;

- em tom algo pessimista, diz ser impossível mudar a natureza humana, razão por que só se percebem muito depois as verdades cobertas pela névoa da guerra.

AS LIÇÕES DO LIVRO SOBRE O VIETNÃ
No livro, as suas lições se referem ao Vietnã propriamente. Afirma, entre outras coisas (segue em primeira pessoa).
- "Julgamos mal as intenções dos nossos inimigos, superestimando os riscos aos EUA, e continuamos a fazê-lo";

- "vimos o Vietnã segundo os nossos olhos apenas";

- "nossos erros de julgamento de amigos e inimigos refletiam nossa profunda ignorância da história, cultura e política do povo da região, as personalidades e os hábitos de seus líderes';

- "Não reconhecemos que nem nosso povo nem nossos líderes são oniscientes. Nosso julgamento sobre o que é do interesse de outro povo ou país deve ser debatido em fóruns internacionais. Não temos o direito dado por Deus de moldar cada nação à nossa imagem ou como escolhermos";

- "não reconhecemos que nos assuntos internacionais, como em outros aspectos da vida, pode haver problemas para os quais não há soluções imediatas... Às vezes, podemos ter de conviver com um mundo imperfeito e desordenado".

RETOMO E CONCLUO
Os EUA e McNamara cometeram erros brutais naqueles dias. Viam apenas aquilo em que queriam acreditar.

Sim, a Ucrânia é a vítima, e Putin o agressor. A questão é saber o que se fará dessas duas verdades. Ameaçar o mundo com uma guerra nuclear parece ser a resposta errada: para o país invadido, para o país invasor e para quem não se meteu naquele conflito.

PS: Setores da imprensa brasileira estarem cobrindo com óbvia simpatia e ida de estrangeiros para lutar na Ucrânia; a ampla distribuição de armas naquele país; a convocação feita por Zelensky para que a população civil enfrente forças de guerra com coquetéis Molotov e sua absurda defesa da zona de exclusão aérea... Bem, tudo isso é um espetáculo explícito de pornografia moral e de burrice.

Mais um pouco, e esses monstros estarão repetindo Bolsonaro: "A nossa liberdade é mais importante do que a nossa vida".

No caso, a vida de ucranianos, claro!