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Reinaldo Azevedo

Massacre do RJ é oferecimento a canibais de carne preta em ano eleitoral

Corpos eleitorais numa caçamba da PM. Não se respeitam os vivos. Dessacraliza-se a morte. Investe-se na barbárie - Eduardo Anizelli/Folha
Corpos eleitorais numa caçamba da PM. Não se respeitam os vivos. Dessacraliza-se a morte. Investe-se na barbárie Imagem: Eduardo Anizelli/Folha
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

24/05/2022 16h49

A barbárie está em todo canto, mas no Rio de Janeiro ela é mais sanguinolenta, mais cruel — literalmente, porque embebida no sangue dos pobres —, mais escandalosa, mais despudorada.

Algo de muito grave está em curso por ali e não é de hoje. Enquanto escrevo, já se fala em 21 mortos no massacre da Vila Cruzeiro. E pouco importa quantas evidências serão apresentadas sobre o que todo mundo sabe: há áreas no Rio que são dominadas pelo narcotráfico, como há aquelas que estão sob o comando das milícias, sempre tão amigas e próximas do poder oficial. Esse domínio, que é real, resultado de disfuncionalidades do Poder Público — em sentido amplo e em todas as esferas — serve de pretexto para a entrega da remessa de carne preta e pobre aos canibais.

Há também o escancarado cinismo. Cláudio Castro, por intermédio de sua Polícia, já tem os culpados na ponta da língua. Em consonância com Jair Bolsonaro, seu aliado no Palácio do Planalto, volta o dedo acusador contra o Supremo Tribunal Federal. O secretário da Polícia Militar -- este estranho cargo que existe no Rio --, coronel Luiz Henrique Marinho Pires, fez uma afirmação que costeia a delinquência institucional:
"A gente começou a reparar essa movimentação, essa tendência deles [dos criminosos] de migração para o RJ, a partir da decisão do STF [que limitou operações policiais em favelas durante a pandemia de Covid-19]". Isso vem acentuando nos últimos meses. Esse esconderijo deles nas nossas comunidades é fruto basicamente dessa decisão do STF. É o que a gente entende, a gente está estudando isso, mas provavelmente deve ser fruto dessa decisão do STF".

A operação engendrada pela Polícia de Castro entrega 21 corpos pretos, e o tal secretário avalia que, "provavelmente", isso se deva ao tribunal. Errado. Não é o massacre que decorre da decisão do STF; é a decisão do STF que decorreu dos massacres.

A propósito: as mortes não são justamente o desdobramento de uma operação? Mas Pires tem a resposta na ponta da língua. O massacre não seria resultado de uma incursão, mas de uma ação "de Inteligência". Os criminosos teriam se imposto à suposta sagacidade de Pires, atacando os policiais, e o resto se conta como sempre, como se hábito, como é tradição, como é corriqueiro, como é normal... em pretos mortos. Quem liga? Qualquer contratempo, basta despejar uma nova chuva de balas na pobrada. Mania que tem essa gente de estragar a paisagem do Rio e de outros cartões postais.

É uma das falas mais asquerosas de uma autoridade no país. No dia 13 de maio, em formatura de policiais militares em São Paulo, Bolsonaro, ele mesmo!, afirmou, à moda Martin Luther King, ter "um sonho". Na frase histórica do líder pelos direitos civis nos Estados Unidos: "Eu tenho um sonho: que meus quatro filhos viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas por suas qualidades". O de Bolsonaro, ele revelou, é a excludente de ilicitude, de modo que agentes de segurança não precisem prestar contas pelos mortos que fazem, como se atuassem em campos de batalha — e até nas guerras existe um código de ética.

O sonho de Martin Luther King era que seus filhos e os filhos de outros negros não fossem julgados pela cor da pele. O sonho que está nas palavras de Bolsonaro é que a cor da pele sirva à execução sumária, já que tal expediente contribuiria certamente para elevar o número de pretos e pobres mortos pela Polícia. A propósito: não está na lei, mas está na prática: a excludente de ilicitude já existe no Rio e em toda parte, mas especialmente nesse ali. O Ministério Público Estadual pedir arquivamento da investigação é outra triste rotina. Ah, sim: o presidente expressou a sua utopia num 13 de Maio, dia que marca a Abolição da Escravatura. Justamente porque o simbolismo de uma abolição precária merece todos os reparos, não se deve ignorar a coincidência como mais uma evidência de que, nas palavras de Joaquim Nabuco, "a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil".

CORPOS ELEITORAIS
Estamos em ano eleitoral, e os canibais precisam de corpos ensanguentados porque estão com sede.

A mais recente pesquisa Ipec — um dos institutos que fazem trabalho sério no Brasil; não é obra a soldo de pistoleiros dos números — aponta um triplo empate no primeiro turno para o governo do Estado: Cláudio Castro (PL) e Marcelo Crivella (Republicanos) aparecem com 16%; Marcelo Freixo (PSB), com 15%. Sem o ex-prefeito, Castro fica com 18%, e Freixo, com 17%. A margem de erro é de três pontos percentuais.

O cenário está indefinido, como é evidente, até porque, na pesquisa espontânea, 62% não mencionam nome nenhum. Ocorre que o Ipec quis saber também como votam os fluminenses para a Presidência da República. Lula (PJ) lidera com 46% na estimulada. Bolsonaro aparece com 31%. Se, para governador, 62% não citam nome nenhum quando não lhes são apresentadas as alternativas, para presidente, a coisa muda de figura: 37% citam Lula, e 27% Bolsonaro. Não é exatamente um cenário auspicioso para a continuidade do... "regime".

Dada a realidade, oferecem-se corpos pretos ensanguentados em nome do combate ao crime e se volta o dedo acusador para o STF. O prêmio, como se sabe, é bom o bastante para justificar o sacrifício da carne mais barata do mercado, que é a carne negra.

Até quando?