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Após série de incêndios, motorista de ônibus no Rio já desconfia de passageiros

Marcos Fernandes de Oliveira, motorista de ônibus no Rio, teme novos incêndios - Arthur Guimarães/UOL
Marcos Fernandes de Oliveira, motorista de ônibus no Rio, teme novos incêndios Imagem: Arthur Guimarães/UOL

Arthur Guimarães <br>Enviado Especial do UOL Notícias

No Rio de Janeiro

26/11/2010 09h49

Motorista de ônibus desde 1991, o paraense Marcos Fernandes de Oliveira, 40 anos, ganhou uma nova mania nos últimos dias ao rodar pelas ruas e avenidas do Rio de Janeiro. “Se vejo que o passageiro é jovem e está com uma garrafinha na mão, fico logo desconfiado”, diz ele. Com temor de novos incêndios, as empresas de ônibus retiraram 95% da frota de circulação à noite e durante a madrugada.

Funcionário da Viação Vila Real que comanda um dos coletivos que faz o trajeto Onório/Praça XV, ele e sua família estão bem atentos ao que está acontecendo no Rio de Janeiro, cidade em que, somente ontem, foram queimados 15 coletivos - muitos incendiados com "garrafinhas" de refrigerante, usadas para preparar coquetéis Molotov caseiros. “Minha esposa passa o dia vendo televisão. Fica preocupada.”

Entre outros trechos “quentes” que é obrigado a cruzar, ele passa diariamente, várias vezes ao dia, na avenida Brasil. “O pessoal [criminosos em fuga das favelas] sempre corre para lá. É complicado.”

Oliveira faz parte de uma categoria cujo piso salarial gira em torno dos R$ 1.300. Mesmo assim, avalia que vale a pena correr tanto risco. “Não tenho medo, tenho pavor de acontecer algo. Mas é meu sustento. Não temos outra opção”, afirma ele, que minimiza a situação. “Lá no Pará é pior. Tem muito mais assalto em ônibus”, diz, sorrindo, antes de partir.

Assim como ele, vários outros motoristas estavam na manhã desta sexta-feira (26) no batente na região da Praça XV, movimentado ponto de passageiros e de pontos de ônibus.

Seu colega José Carlos Soares, 42 anos, é outro que atravessa todo dia pedaços da cidade dominados pelo tráfico. “Passo em Manguinhos, Bom Sucesso”, enumera, quando perguntado sobre os trechos mais perigosos.

Há seis anos na profissão, ele contou que ganhou uma nova companhia ultimamente no serviço. “Minha filha me liga o dia inteiro, para saber onde eu estou. Ela vê a televisão e me liga para ver se está tudo bem”, conta.

Comendo um pão com manteiga e tomando um copo de café enquanto aguardava o embarque, o motorista estava prestes a partir pela linha 267 Barra da Tijuca/Praça XV, mas não parecia tão preocupado. “Se eles [bandidos] me deixarem descer, pode incendiar que não tem problema.”

Seu companheiro de profissão Paulo Sérgio do Sacramento, que faz a linha Gardênia Azul/Praça XV, é outro que tenta encarar os riscos de forma tranquila. “Dá receio, mas não medo. Se tivesse medo mesmo, tinha ficado em casa.” Ensaiando o que faria em um eventual ataque, ele diz: “Se mandar todo mundo descer, eu desço e pronto.”
 
Assalto, arrastão e enchente
Ronaldo Gomes, 38 anos, trabalha para a viação Ideal e está no volante de ônibus há 12 anos. Perguntado pelo medo de trabalhar com tantos ataques a colegas de frota, ele é direto. “Estou mais do que acostumado”, disse ele, antes de mostrar seu “currículo”.

“Já fui assaltado, afundei em enchente, passei em arrastão, já mandaram mudar itinerário e tudo o mais que você possa imaginar. Só tacar fogo que não”, contou ele, que dirige um ônibus especial da linha 1143, Castelo/Ilha do Governador.

Cotidiano