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Cotidiano

Em Nova Friburgo (RJ), sobrevivente extrai poesia de tragédia

Janaina Garcia

Do UOL, em Nova Friburgo (RJ)

14/01/2012 06h00

Esperança sobre a vida

No ano 2011 no
dia 12 de janeiro
Duas horas mais ó menos
Um grande estrondo deu
Muita chuva que caía
Muitas barreiras que desceu

Aqui na região serrana
Triste fato aconteceu
Muitas casa soterrada
E muita gente morreu
E muito sairão vivo
Por um mistério de Deus

E muitos perderam tudo
Sem saber onde ficar
E aqueles que morreram
Com Deus espero que está
Mas nós que ficamos vivo
Devemos se a prepará

Ó senhor meu pai interno
Mim perdoa meu senhor
O senhor sabe o que fez
Nós que não damo valor
Pensado que sabe tudo
Não sei nada meu senhor

Hemídio Botelho, em 30/04/2011

Na praça do Suspiro, ponto turístico mais conhecido de Nova Friburgo (RJ), na serra fluminense, as obras de recuperação ante os estragos da chuva de um ano atrás ainda não foram concluídas e deixam comerciantes e moradores com um sentimento que mescla revolta e desolação.

Mas é em meio a tapumes de construção, a paralelepípedos que ainda não foram utilizados nas ruas destruídas do entorno da praça e ao morro onde são vistas as marcas das terras e pedras que desabaram que um personagem chama a atenção: de chapéu e com um jeito simples e cheio de reverência, o produtor rural Hermínio Botelho, 77, mostra --em folhas de sulfite que ele faz questão de carregar de um lugar a outro-- os versos que criou a partir da tragédia.

Com pouco mais de 180 mil habitantes, Nova Friburgo foi o município serrano do Rio mais castigado pelas fortes chuvas e deslizamentos de 2011, em decorrência dos quais cerca de 500 pessoas, segundo as estatísticas oficiais, morreram na madrugada do dia 12 de janeiro do ano passado. Em toda a serra, aponta a Defesa Civil, foram quase mil mortos na tragédia que devastou sete cidades. Teresópolis, a segunda mais afetada, perdeu quase 400 vidas.

Ao contrário de vários outros moradores com os quais a reportagem do UOL conversou na cidade, Hermínio não perdeu parentes na chuva. “Mas perdi muito amigo, muito vizinho, e ainda é triste demais lembrar do que aconteceu”, diz ele, que mora na região do Terceiro Distrito, onde se concentraram boa parte das mortes e dos estragos --muitos, ainda visíveis e que mantêm a vulnerabilidade de algumas localidades.


Passados três meses da tragédia, o produtor decidiu colocar em versos aquilo de que se lembrava para tentar expurgar o que ainda causava dor. Afinal, explica, a produção de 30 mil trutas da filha mais velha pode até ter se perdido em um primeiro momento, mas a família estava sã e salva.

“Acompanhei a chuva, lembro que deu um grande estrondo de madrugada antes de tudo começar. Hoje é triste saber que tanta gente morreu, mas ver que tem tanta coisa ainda para fazer e deixar a cidade bonita de novo também não é fácil”, ele observa, ao lado do teleférico que segue sem funcionar desde o episódio.

No poema escrito por Hermínio, batizado de “Esperança sobre a vida”, o friburguense usa um vocabulário nada rebuscado para homenagear os que morreram e para agradecer pelos que foram poupados --"por um mistério de Deus", sublinha, em uma das passagens.

O poeta põe o chapéu no chão para declamar verso por verso e, tantos meses depois, ainda se emociona. E aconselha, passado o instante:  “A gente tem que esperar no Pai, porque, se esperar dos homens, está perdido”.

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