Número de acidentes aéreos no país cresce 41% em 2011 e bate recorde da década

Carlos Madeiro

Do UOL, em Maceió

O ano de 2011 fechou com recorde de acidentes aéreos no Brasil. É o que informa relatório do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), divulgado esta semana. Segundo o documento, foram registradas 156 ocorrências no ano passado, 41% a mais que os 110 casos apontados em 2010 e o maior registro desde 2001 –segundo números disponibilizados pelo órgão. Dos acidentes em 2011, 130 foram com aviões e 26, com helicópteros. 

Os dados do Cenipa apontam que 90 pessoas morreram em acidentes aéreos no ano passado, maior número registrado desde 2007, quando 271 passageiros e tripulantes morreram –199 deles só na colisão do avião da TAM com um galpão da própria empresa, no aeroporto de Congonhas (SP). 

Em 2006, quando um avião da Gol caiu após chocar-se com uma aeronave modelo Legacy, matando as 154 pessoas do voo 1907, foram registradas 210 mortes. Desde o início do século, em 2001, 1.060 pessoas morreram em acidentes aéreos no Brasil. 

Dos 156 acidentes de 2011, 30 tiveram vítimas fatais –o segundo maior número desde 2007, quando 32 acidentes fatais ocorreram. Pela média, um em cada cinco acidentes resultaram em morte em 2011.

Das 90 mortes, 16 ocorreram num único e maior acidente do ano, no Recife. No dia 13 de julho, uma aeronave modelo LET-410, da companhia No Ar Linhas Aéreas, caiu em Boa Viagem três minutos após a decolagem. As causas do acidente ainda são investigadas.

Ao todo, 34 aeronaves tiveram perda total com os acidentes –maior índice dos últimos três anos. Os números, porém, ficaram atrás dos maiores já registrados, em 2001 e 2009, quando 46 aeronaves foram perdidas nas ocorrências.

Queda de avião da Noar, no Recife, em julho
Veja Álbum de fotos

Acidentes segundo a Anac

A Agência Nacional de Agência Civil (Anac) informou que avalia o número de ocorrências por uma fórmula que leva em conta a quantidade de acidentes aéreos para cada 100 milhões de litros consumidos pelo setor.

“O valor atual deste índice está em torno de 0,39 e no ano passado nesta época estava em torno de 0,32”, disse a Anac, evidenciando um aumento de 21%. Os dados levam em conta apenas os acidentes registrados até agosto.

A Anac informou ao UOL, nesta quarta-feira (29), que os dados completos de 2011 serão inclusos no anuário do órgão, que não tem data específica para ser lançado, mas deve ser publicado “ainda no primeiro semestre".

A Anac informou ainda que o aumento em número de ocorrências precisa ser analisado levando em conta o crescimento da frota e os percursos percorridos. “É preciso considerar a variação do volume [de voos], ou seja, a exposição ao risco.”

“Um aumento na quantidade de acidentes não significa, necessariamente, uma redução no nível de segurança das operações”, diz a agência, exemplificando: “Se o volume de operações crescer 50% enquanto o número de acidentes aumentar em 10, haverá um aumento absoluto do número de acidentes, porém uma melhoria no nível de segurança das operações.”

Análise

Para o coordenador do Departamento de Treinamento de Voo da Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio Grande do Sul, Guido César Carim Júnior, o aumento no número de acidentes tem pelo menos duas possíveis explicações: o crescimento da fiscalização e a consequente alta nas notificações e as falhas no sistema de prevenção.

“Há a possibilidade de estarmos conseguindo investigar mais acidentes do que no passado. Imagine uma aeronave agrícola ou um avião particular realizando voos em um aeródromo de pequeno porte, no meio do nada, sem a presença de órgãos de fiscalização. Havia uma grande tendência de esconder o acidente e contratar mecânicos para ‘montar’ o avião novamente. Atualmente, a fiscalização sobre as condições da aeronave são maiores, o que tem diminuído essa possibilidade”, afirmou.

Ainda segundo o especialista, os índices também “podem nos sugerir que há falhas no nosso sistema de prevenção de acidentes.” Segundo Guido, a Anac sofre atualmente de carência de pessoal. “Como resultado, a Anac não consegue dar conta do trabalho, reduzindo a fiscalização, principalmente dos aviões particulares, aviação de instrução, táxi aéreo, serviços aéreos especializados e agrícola.”

De acordo com Carim Júnior, hoje, em vez de realizar um voo de verificação com um funcionário da Anac, um aluno que quer sua licença de piloto comercial realiza o voo com um avaliador da própria escola ou aeroclube. “Como saber se realmente ele está apto?”

Segundo o professor, os dados usados pelos órgãos brasileiros são diferentes dos utilizados no resto do mundo, o que dificulta comparações internacionais. “O Cenipa considera somente os acidentes nos quais, entre outros, houve dano severo à aeronave e/ou morte.A Anac pega os dados do Cenipa e pondera por algum valor para mostrar a exposição. No resto do mundo, os índices somente consideram os acidentes, com pelo menos perda total, ocorridos com aeronaves de grande porte realizando voos no transporte aéreo regular por milhões de pousos e decolagem”, finaliza.

Veja a evolução do número de acidentes aéreos no país

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