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Nível do Cantareira mais que triplica em 6 meses, mas continua negativo

21.mai.2015 - Leito da represa Jaguari aparece ressecado em Joanópolis, interior de São Paulo. A represa faz parte do sistema Cantareira, que opera com volume de água da reserva técnica desde julho de 2014 - Paulo Whitaker/Reuters
21.mai.2015 - Leito da represa Jaguari aparece ressecado em Joanópolis, interior de São Paulo. A represa faz parte do sistema Cantareira, que opera com volume de água da reserva técnica desde julho de 2014 Imagem: Paulo Whitaker/Reuters

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

27/07/2015 20h17Atualizada em 28/07/2015 10h13

O volume de água do sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de 5,4 milhões de habitantes da Grande São Paulo, multiplicou-se mais de três vezes em seis meses, de acordo com boletins divulgados pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) em janeiro e julho deste ano. No entanto, ainda não é tempo dos paulistas que moram nessa região celebrar, pois os mananciais ainda mantêm índices negativos por conta do uso dos dois lotes de reserva técnica de água, em 2014.

O boletim divulgado nesta segunda-feira (27) no site da Sabesp mostra que Cantareira atualmente acumula 185,1 milhões de metros cúbicos. Há seis meses, no dia 27 de janeiro deste ano, o boletim diário da companhia apontava 50,2 milhões de metros cúbicos. Isso representa um crescimento de 268,7% no período. Desde 15 de janeiro, a Sabesp passou a divulgar boletins diários no seu site oficial para informar a população sobre a crise hídrica no Estado.

O problema é que os reflexos desta crise vêm desde o ano passado, e ainda estão longe de serem completamente resolvidos. Como medida emergencial, a Sabesp decidiu utilizar água da chamada reserva técnica, ou "volume morto", em dois momentos: em 16 de maio e 24 de outubro de 2014.

De acordo com um dos três índices divulgados diariamente, o sistema Cantareira ainda "deve" 102,4 milhões de metros cúbicos de água da reserva técnica --o equivalente a 10,4% a menos na cota do "volume morto". Só quando completar essa meta é que Cantareira voltará a seu volume útil. 

O "volume morto", como é chamada a água que fica no fundo das represas, fica abaixo do nível de captação das comportas. Há certa discussão sobre se a qualidade desta água é viável para consumo. Enquanto o governo garante que a água é a mesma da que vem sendo retirada dos reservatórios, especialistas alertam para os riscos à saúde.

Os longos períodos de estiagem nos mananciais são considerados a principal causa da crise hídrica enfrentada por São Paulo desde 2014. Profissionais ouvidos pelo UOL também apontam decisões equivocadas e falta de planejamento como fatores.

Em 2015 as chuvas do primeiro semestre --principalmente de abril a junho-- ajudaram a segurar a crise. Em julho, já choveu 43,5 mm no Cantareira, faltando apenas 6,5 mm para atingir a média histórica (50 mm). Ou seja, o manancial atingiu 87% da média prevista para o mês. A Sabesp também adota outras medidas como redução da pressão da água em determinados horários e bairros de São Paulo, distribuição de descontos a consumidores que economizaram, multas de 40% a 100% sobre o valor da tarifa para quem gastar mais, e campanhas de conscientização.

Duas obras de transposição foram planejadas pelo governo paulista. Uma delas ainda está em andamento. Em março, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) suspendeu o processo de licitação do projeto de transposição de água da Bacia do Rio Paraíba do Sul para o Cantareira. Em junho, foi finalmente escolhida a empresa para executar a obra, com prazo de 18 meses para sua conclusão. Já a transposição do rio Guaió, na Grande São Paulo, para a bacia do Alto Tietê, foi inaugurada em junho.

Dois reajustes tarifários na conta de água já aconteceram desde dezembro de 2014. Um terceiro reajuste já está sendo estudado.

Medições

Por conta de decisões da Justiça, a Sabesp teve que incorporar mais dois tipos de metodologias para medir o nível do sistema Cantareira. O objetivo é dar detalhes sobre as perdas sofridas nos últimos meses, pois o único método até então empregado considerava o uso das cotas da reserva técnica e dessa forma se manteve sempre com índices positivos, mesmo após o volume útil do sistema --982 milhões de metros cúbicos-- já ter zerado há mais de um ano.

O primeiro índice empregado calcula a proporção do volume armazenado em relação ao volume útil. Para atender a recomendação do Ministério Público para que fossem detalhados os volumes existentes, a Sabesp inaugurou em 17 de março um segundo índice, que mostra o volume útil e o volume constando as duas reservas técnicas. Por conta de seu cálculo, esse segundo índice tende a mostrar percentuais de água um pouco menores que o primeiro.

Nesta segunda-feira, Cantareira registrou 18,9% de água pelo índice 1 (em função do volume útil) e 14,6% pelo índice 2 (em função do volume total). No índice 1, o mais adotado pela Sabesp, foi a primeira alta depois de 32 dias entre queda e estabilidade no volume.

O terceiro índice veio a partir de 17 de abril por conta de decisão liminar concedida pelo juiz Evandro Carlos de Oliveira, da 7ª Vara de Fazenda Pública, com base em uma ação civil pública do MPE (Ministério Público Estadual).

O cálculo se faz assim: conta-se o volume armazenado naquele dia em Cantareira menos o volume total da reserva técnica (287,5 milhões de metros cúbicos). O resultado obtido é dividido pelo volume útil (982 milhões de metros cúbicos) e daí multiplica-se o resultado por 100.

Neste caso, toda água do volume morto usada e ainda não recuperada é considerada negativa, porque fica abaixo do nível zero operacional. Por esse método, o nível do Cantareira nesta segunda-feira (17) é de - 10,4% (185,1 milhões de m³ registrados no dia - 287,5 milhões de m³ / 982 milhões de m³ x 100).

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