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"O que a gente vai ter amanhã?", questiona agricultor à beira do rio Doce

Gustavo Maia e Marcela Sevilla

Do UOL, em Tumiritinga (MG)

21/11/2015 06h00

O agricultor José Pavuna Neto, 51, não esconde o orgulho que sente do seu pedaço de terra. Assentado da reforma agrária há 22 anos, ele é dono de um dos 33 lotes de 2,7 hectares do assentamento Cachoeirinha, na zona rural de Tumiritinga (MG), município às margens do rio Doce.

"Nós pegamos isso aqui um deserto e transformamos no que é hoje. Tudo graças a esse rio", contou o trabalhador rural, que produz hortaliças, frutas, milho, feijão, abóbora e café, além de criar vacas e peixes no local. Até a onda de lama de rejeitos de minérios das barragens da mineradora Samarco chegar até a região na semana passada, o solo do terreno era irrigado exclusivamente com a água do manancial.

"Mataram o que dava vida ao nosso vale", resumiu. "A nossa preocupação hoje, o que emociona e faz a gente chorar, é saber qual é o nosso futuro. O que a gente vai ter amanhã?", questionou o agricultor. "A nossa situação hoje é uma situação de morte."

Pavuna é presidente da associação de moradores do assentamento. Na manhã de sexta-feira (20), o seu terreno foi visitado pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias. O agricultor aproveitou para falar dos receios sobre o futuro da comunidade.

"A gente não sabe se aquele barro vai dar condição de gerar vida e alimento. Imagina se a gente usar aquela água suja na nossa terra e depois descobrir que tinha algum metal pesado, como estão falando, um produto que causa câncer. É melhor passar fome ou viver de outra forma", afirmou o agricultor.

A nossa terra é muito fértil para a gente matar ela. Já mataram o nosso rio. A gente não quer que matem o nosso solo

José Pavuna Neto, agricultor

22 assentamentos na região

O ministro, por sua vez, disse que estão sendo estudadas medidas do governo federal para auxiliar os produtores rurais e assentados. "Aqui na região (afetada pelo desastre ambiental) nós temos 22 assentamentos com 833 famílias muito vinculadas, todas elas, ao rio Doce, e vivendo, portanto, esse problema dramático", declarou Ananias.

"É fundamental que nós acertemos logo a situação do rio, porque muitas famílias vivem em função dele", disse o ministro, sem explicar como a bacia hidrográfica será recuperada.

O desastre já afetou a renda de Antônio Carlos Gonçalves Filho, 38. "A gente tira um leitinho das vacas para sobreviver. Antigamente eu colocava água do rio Doce para elas beberem. Agora eu tive que tirar elas e colocar no morro, mas lá o pasto secou, porque a chuva foi pouca. Ninguém sabe o que fazer. A gente espera para ver quem vai pagar o nosso prejuízo", disse o produtor rural.

"Água horrível"

Segundo os moradores do assentamento, a contaminação das águas do rio pela lama provocou outro transtorno. Impossibilitada de captar água no manancial, a Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) está fornecendo água de um poço artesiano. Os moradores reclamam da qualidade do líquido.

"Está horrível. Você vai dar uma água a uma pessoa em um copo e fica com vergonha. Está parecendo barro, muito gordurosa, não tem como consumir", disse Neidemar Cândido Germano, 39.

A agricultora contou que ela e a filha de três anos tiveram diarreia na última quarta (18). "Foi depois que a gente começou a tomar essa água", contou.

A água que nós estamos bebendo do poço fede e faz mal para o estômago da gente

Ramiro Germano dos Reis, agricultor

Procurada pela reportagem para comentar as queixas dos usuários, a Copasa se limitou a informar, em nota, que "a água distribuída em Tumiritinga é monitorada diariamente e se encontra dentro dos padrões de potabilidade estabelecidos pela Portaria 2914 do Ministério da Saúde".

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