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"O corredor cheira a IML", diz irmã de paciente em hospital no RJ

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

06/01/2016 14h16

Com anemia e necessidade de ser submetido a sessões de hemodiálise, Afonso, 48, irmão de Cristiane Pereira, 33, aguarda há dois dias no corredor do HGNI (Hospital Geral de Nova Iguaçu), na Baixada Fluminense.

Segundo a família, ele está sem banho e em condições que "parecem o Titanic". "É a lei da sobrevivência. Meu irmão está em um corredor que parece um inferno", afirmou Cristiane, que voltou ao hospital nesta quarta-feira (6) na tentativa de retirá-lo da unidade, à revelia.

"Quero levá-lo para outro lugar. Não quero que ele morra sem atendimento, sem emergência, sem os cuidados que ele está precisando no momento."

A irmã do paciente afirma ironicamente que, durante a visita, teve a sensação de que estava, na verdade, entrando no IML (Instituto Médico-Legal). Ela declarou que outros pacientes também estão possivelmente sem banho. O odor é descrito como insuportável.

"O corredor cheira a IML. Parecia o IML. (...) Questionei uma enfermeira sobre a falta de banho, mas ela respondeu: 'Já que ele esperou desde segunda, que espere mais, pois estou atendendo outra pessoa'. Só não a culpo porque estou vendo realmente que está um inferno lá dentro", disse Cristiane.

O Rio de Janeiro vive uma grave crise na saúde pública, em virtude do atraso no pagamento de salários e da falta de materiais e condições adequadas de atendimento. Nos últimos dias, houve relatos de pessoas que receberam alta mesmo com problemas sérios de saúde, além de exames de imagem não serem realizados.

As unidades do Estado são as mais afetadas pela crise. Com isso, as redes municipais também estão apresentando problemas como superlotação e falta de pessoal, em razão do aumento de demanda. O HGNI é de responsabilidade da Prefeitura de Nova Iguaçu. A instituição informou, no entanto, que "a superlotação é uma realidade" e está diretamente relacionada com a crise na saúde pública fluminense, motivada pelo atraso no pagamento de salários e pela falta de materiais e condições adequadas de atendimento.

Angústia da família

Na versão da família, com quadro de anemia profunda agravado por outros problemas de saúde, Afonso terá que passar por pelo menos duas sessões de hemodiálise (método de filtração do sangue por meio de um rim artificial). Apesar de querer a alta à revelia do irmão, ela ainda não sabe onde buscar atendimento.

"Ele é cadeirante e precisa de cuidados especiais. Desde segunda, a única coisa que fizeram com ele foi dar soro e medicamentos para aliviar a dor, pelo menos até que eles tenham um suporte para atendê-lo", disse.

"Perguntei se ele tinha prioridade, mas a resposta foi: não, só se ele estiver morrendo. Só em caso de morte. O que eu vou fazer ou falar? Realmente, isso é visível. Tem pacientes idosos, pessoas de 90 anos, quase cem, e não tem muito isso de prioridade não. (...) Eu não sei nem o que dizer. Me sinto uma palhaça."?