Igrejas renovam mensagens e apostam em tecnologia para amplificar discurso com fiéis

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Reinaldo Canato/UOL

    Celebração da missa do padre Marcelo Rossi no Santuário Mãe de Deus, em São Paulo

    Celebração da missa do padre Marcelo Rossi no Santuário Mãe de Deus, em São Paulo

"Olá, GUILHERME FERNANDES DE AZEVEDO, gostaria de orar por alguém hoje?" A mensagem, por e-mail, convida logo pela manhã. Basta um clique.

No Facebook, postagem avisa que o Pastor Online está à minha disposição, a qualquer hora: "O conselho de um amigo pode transformar o seu dia! Entre em contato com o pastoronline.com e receba uma orientação".

Outra mensagem lembra que à noite vai ter culto, com transmissão ao vivo por ali mesmo. É possível acompanhar, comentar e interagir.

Pelo WhatsApp, uma mensagem bíblica chega para elevar a alma e o moral, complementando a experiência de não se sentir sozinho no mundo, para além dos templos: "Jesus te ama".

Ainda tem canais oficiais no YouTube, com orações e celebrações para ver e rever, e aplicativos para baixar de graça, com rádios, hinos, louvores, orações, vídeos e muito mais, para a fé a qualquer hora e em qualquer lugar, diretamente no celular: "O que trabalha com mão displicente empobrece, mas a mão dos diligentes enriquece, Provérbios 10.4", diz a primeira das mensagens.

As transformações são também verificadas na realidade imediata, na relação presencial de fiéis nas igrejas. A experiência de participar da missa e do culto fisicamente, nos templos, é hoje, em grande medida, um show de alta tecnologia, de luz, som, câmera e ação.

A reportagem do UOL observou essas mudanças em visitas a cultos, missas, portais e redes sociais na internet de igrejas pentecostais, neopentecostais e católicas, como o Templo de Salomão (Igreja Universal do Reino de Deus), a Assembleia de Deus do Brás (Ministério de Madureira), a Igreja Pentecostal Deus É Amor (sede), a Igreja do Evangelho Pleno em Cristo e o Santuário Mãe de Deus, em São Paulo. Mas é um fenômeno nacional e capilarizado, que se verifica também em cidades de menor porte do interior, em todas as regiões do país.

Faz parte do esforço de renovação e modernização da forma de engajamento e distribuição das mensagens religiosas visando um novo tipo de fiel, apontam estudiosos da religião, que creditam o fenômeno à própria evolução do mundo. "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", na expressão do poeta Luís Vaz de Camões, um pensador numa época de grandes transformações com o início das grandes navegações, no século 16.

Guilherme Azevedo/UOL
Culto da Assembleia de Deus do Brás passa no telão e é transmitido ao vivo pelo site

Mudanças vieram com medo de igrejas vazias

As igrejas das mais variadas denominações se adaptam aos novos tempos, como já fizeram em outras épocas, por exemplo com a adoção de Bíblias e de celebrações em línguas nacionais, abandonando o latim. Na base do movimento está um temor: o de ficarem para trás, falando sozinhas, com igrejas vazias, sem nenhuma curtida.

"A modernização das igrejas é um processo natural. São avanços na sociedade como um todo, na relação entre as pessoas e também nos templos, cultos ou na comunicação entre os adeptos", contextualiza o professor de sociologia André Ricardo de Souza, que é coordenador do Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Política da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).

"No passado, o protestantismo revolucionou, quando começou a publicar Bíblias na língua vernácula. Grupos religiosos historicamente buscam inovações e é isso o que vem ocorrendo. Já foram discos, rádios, canais de TV e agora é a internet", complementa o estudioso.

Fatima Regina Machado, do Laboratório de Psicologia Social da Religião, da USP (Universidade de São Paulo), frisa que desde tempos remotos o ser humano utiliza os recursos disponíveis para "expressar sua religiosidade e transmitir às próximas gerações conhecimentos ligados ao campo do que é considerado sagrado".

Entre esses recursos, estiveram (e estão) a própria fala e representações pictóricas, desde o interior das cavernas do homem pré-histórico.

"Com as novas tecnologias de comunicação, não é diferente. Fazem parte do cotidiano e se estendem aos momentos considerados dedicados ao sagrado --que não deixam de ser parte do cotidiano também", avalia. "Assim, naturalmente, esses recursos são incorporados nos cultos e práticas de diferentes formas e em diferentes extensões, dependendo das doutrinas e dos sentidos das práticas religiosas em particular."

Concorda a professora de antropologia Carly Machado, do departamento de ciências sociais da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro): "As práticas religiosas sempre foram muito mediadas por técnicas e tecnologias". Para a estudiosa, a relação contemporânea entre fé e tecnologia pode ser entendida como meio que amplifica o envolvimento da igreja e da celebração com seu fiel.

"Onde há mais mediação, há mais imersão", sublinha. "O fiel é menos passivo. Vê, ouve muita coisa e é mais participante. Canta, se movimenta, se relaciona com as coisas e pessoas que ele está vendo, é muito mais intenso. É exatamente a participação do público que traz um sabor a mais. E confere uma energia diferente às instituições que usam mais mídia", afirma.

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Celebração na Igreja do Evangelho Pleno em Cristo, no Brás, em São Paulo

Na igreja evangélica Assembleia de Deus do Brás (Ministério de Madureira), no bairro do Brás, região central da capital paulista, a banda completa (bateria, guitarra, baixo, teclado etc.) e o coro feminino e masculino afinado animam o culto. Os fiéis se distribuem junto do palco/altar e pelo templo alto, formado por anéis semicirculares com dois pavimentos.

Canta-se com gosto, batendo palmas, nesta noite quente de terça-feira, acompanhando as imagens do culto captadas por quatro câmeras e a letra exibida verso a verso no telão triplo de LED: "Solta o cabo da nau / Toma os remos na mão / E navega com fé em Jesus / E então tu verás que bonança se faz / Pois com Ele seguro serás". 

No Santuário Mãe de Deus, da Igreja Católica, em Interlagos, zona sul da capital paulista, a emoção será semelhante, embora menos gospel e menos ruidosa, cantada pelo padre Marcelo Rossi.

Na noite fria daquela quinta-feira, sua figura esguia e alta comanda lá no alto a celebração, acompanhada de banda completa e "backing vocal". Move-se tendo como fundo pinturas nas paredes de temas da vida de Maria e de Jesus Cristo. O templo é amplo e aberto: uma cobertura metálica em formato de onda, projetada pelo arquiteto Ruy Ohtake. A capacidade é para 25 mil pessoas.

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Fiéis gravam, fotogravam e compartilham a missa no Santuário Mãe de Deus

O show da fé é bom, em uníssono, todos conhecem as canções, balançam os braços no ritmo, apesar de não haver telão no local: "Espírito, Espírito que desce como fogo / Vem como em Pentecostes e enche-me de novo".

O padre interrompe a emoção, chamando para assunto terreno: "Quem é dona de casa aí? Levante as mãos!", e uma profusão de braços se alteia. O padre lembra que podem ser donos de casa também. Outros braços se erguem. "Parabéns às donas de casa, que hoje é dia de Santa Marta, a santa de vocês", diz Marcelo Rossi. "Vocês são gestoras, vocês serão abençoadíssimas", afirma o religioso.

Tanto no alto de uma torre metálica quanto no altar, há câmeras captando todos os detalhes.

Durante a celebração, transmitida ao vivo pelo site do padre, Marcelo Rossi convida o fiel para rezar, mais tarde, com ele na sua página pessoal no Facebook. Há também um vídeo especial por lá. 

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Missas do padre Marcelo Rossi são gravadas em vídeo e transmitidas ao vivo pelo site

"Luz do novo milênio"

Na celebração final, quando se apagam as luzes do templo e o padre caminha pela igreja com imagem religiosa em punho, Marcelo Rossi pede que as pessoas acendam suas velas de cera (disponíveis no local) ou acendam as lanternas dos seus telefones celulares, que chama de "a luz do novo milênio".

"Partam em silêncio, não digam nada, experimentem o silêncio", pede.

Guilherme Azevedo/UOL
Parte final da celebração no Santuário Mãe de Deus: velas e celulares 'acesos'

"O padre Marcelo Rossi é o limite do que é integrado à Igreja Católica", sublinha Carly Machado, da UFRRJ.

Recorda a perseguição que ele sofreu da própria igreja ao ousar renovar a missa com a introdução de música, algo mais corporal, mais festivo e menos falado, em meados dos anos de 1990. A modernização muitas vezes sofre resistências, a tradição pode pesar, diz a professora.

Machado também considera como exemplo a música gospel, originária nos cultos protestantes e hoje um mercado fonográfico à parte, que movimenta milhões de reais. "A profissionalização do segmento atingiu níveis muito altos. Uma espetacularização que extrapola até mesmo o universo religioso."

Para Ismael Rocha Júnior, pesquisador de marketing e religião e diretor de extensão acadêmica da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), a questão é que as pessoas vão hoje à igreja com outros objetivos e, por isso, as igrejas precisam estar preparadas para absorver essa demanda.

"As celebrações são grandes eventos de massa. Perdeu-se aquele espaço mais intimista, algo contrito, como inspiração e devoção, e tornou-se muito mais um espaço de emoção."

Reinaldo Canato/UOL
Mesa de comando de vídeo e som no Santuário Mãe de Deus

Modernização do templo chega a custar R$ 1 milhão

Aldo Soares, da ARS Tecnologia, uma das empresas de engenharia especializadas em projetos de modernização tecnológica de templos, ressalta que a oferta de bons serviços durante as celebrações é também uma exigência do próprio fiel.

"A igreja como instituição só tem sentido quando a comunicação funciona. Você quer entender o que é dito e visualizar o que é projetado. Isso passa a fazer parte do dia a dia. Algumas tecnologias são adotadas porque a comunidade reclama, não consegue ver nem ouvir. De forma geral, a modernização é em função da necessidade da comunidade."

Soares cita o modo corrente de expansão das igrejas neopentecostais, que abrem novos templos em salões sem nenhuma preparação, para, só tempos depois, reformá-los adequadamente. O trabalho de modernização de um templo é normalmente dividido em etapas, até pelos valores necessários para a conclusão do trabalho. "Uma igreja modernizada, com tecnologias modernas, vai gastar R$ 1 milhão em cinco anos", calcula.

Devido às novas tecnologias de difusão das mensagens, incluindo a possibilidade de transmitir as missas e cultos ao vivo pelas redes sociais e pelo site da igreja, altera-se a própria disposição do interior dos templos.

"Agora, já não é mais só questão de design de interiores, já passa a ser de estrutura técnica e parte cênica para o cara que vai ver de casa", explica o técnico. "O pastor não vai só olhar para o fiel que está ali na frente, na igreja, mas também para a câmera, porque parte de seu rebanho está acompanhando por ali."

Outra inovação midiática recentemente adotada por algumas igrejas, observa Soares, tem sido a exploração do recurso do "video mapping", que é a projeção de vídeo nas paredes internas e externas dos templos, com imagens impactantes e narrativas bíblicas.

A técnica tem sido empregada normalmente em grandes datas comemorativas, como na inauguração de templos, a exemplo do que foi feito na fachada do Templo de Salomão, em julho de 2014.

Leandro Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo
"Video mapping" na fachada do Templo de Salomão, durante a inauguração
 

Vantagens e desvantagens do virtual

Para a professora Carly Machado, da UFRRJ, as transmissões televisivas e a oferta de produtos, como CDs e DVDs, multiplicaram a própria capacidade de fazer circular a expressão religiosa. "[A congregação] Não acontece mais só na igreja, mas também em casa, no ônibus, em qualquer espaço. E, com a internet, isso aumentou mais."

Por isso, segundo a estudiosa, a ideia de comunidade religiosa está sendo redefinida. "Aqueles que participam não são necessariamente aqueles que vão à igreja, ao culto. Quebra-se a ideia de paróquia e local perto de casa", analisa.

Reinaldo Canato/UOL
Produtos religiosos da Igreja do Evangelho Pleno em Cristo

Essa nova experiência, afirma, entretanto, não tira o caráter comunitário que a presença propicia, ao contrário. "A internet possibilita viver isso junto. Ouvir, comentar, falar com outras pessoas, como nas transmissões ao vivo, pelo Facebook."

Para Fatima Machado, da USP, o uso da TV e da internet pelas igrejas de diversas denominações contorna a dificuldade de deslocamento do fiel em grandes centros urbanos ou em remotos vilarejos, amplia a possibilidade de divulgação daquele sistema religioso e inclui, agregando mais pessoas àquela comunidade.

É o que também nota André Souza, da UFSCar, apontando vantagem: "Forma-se uma comunidade física e virtual. Há uma circulação maior de ideias e opiniões, com reflexos sobre possíveis campanhas assistenciais, do tipo de alguém que precisa de uma cadeira de rodas. A sociedade como um todo se racionalizou tanto do ponto de vista da organização quanto da veiculação da mensagem".

Oração do padre Marcelo Rossi transmitida ao vivo exclusivamente pelo Facebook:

André Souza confirma: "Os grupos que recorrem à tecnologia têm maior visibilidade e acabam tendo mais apelo com o público mais jovem. Isso acaba se tornando uma vantagem".

Carly Machado, da UFRRJ, pondera: "O uso da tecnologia pela igreja é um fator de diferenciação e distinção para o bem e para o mal. Tem gente que gosta dos recursos, mas tem gente que julga isso como superficialidade. Querem uma igreja mais séria, mais profunda. Vejo esses dois movimentos".

No movimento que prega por igrejas sem templos, fiéis combinam encontros por grupos de WhatsApp e páginas no Facebook e reúnem-se em espaços públicos para trocar ideias e celebrar Deus e a vida sem ostentação. Para esses grupos, a tecnologia é o meio, mas não é a mensagem. 

Guilherme Azevedo/UOL
Oração noturna na sede central da Igreja Pentecostal Deus É Amor

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