Doações, manta "Tony Ramos" e bebida amenizam frio de quem dorme nas ruas em SP

Gabriela Fujita

Do UOL, em São Paulo

  • Nelson Antoine/UOL

    Morador de rua dorme no Pátio do Colégio, na região central de São Paulo

    Morador de rua dorme no Pátio do Colégio, na região central de São Paulo

O termômetro do relógio marcava 10°C no centro de São Paulo às 5h30 desta quarta-feira (19), e Anderson Sampaio de Jesus, 46, era um dos poucos já acordados na praça da igreja São José de Anchieta. Cerca de 60 pessoas passaram a madrugada neste conhecido ponto turístico da capital paulista, o Pátio do Colégio. Enroladas em mantas cinzas, imóveis, elas formavam uma fileira silenciosa sob a fachada do prédio.

Assim como elas, Anderson também transforma papelão, cobertas e lona plástica em cama. Há cinco anos, ele dorme na rua São Bento, a 500 metros de distância, e passa pela praça todos os dias, bem cedo. É uma das pessoas em situação de rua que a reportagem do UOL entrevistou nesta noite gelada, na área central da cidade. A tarde da véspera (18) fora a mais fria do ano.

"Senti muito frio, bastante frio mesmo", ele diz sobre dormir ao relento. "Se não fosse a comunidade, as ONGs que vêm ajudar a gente, trazer comida e coberta, muitos iriam perecer."

Na sua rotina diária, depois de se levantar, Anderson caminha até uma igreja católica, fica lá por um tempo e consegue o café da manhã. Em seguida, vai até a avenida Nove de Julho, onde toma banho. Naquela região, no bairro da Bela Vista, recebe o almoço. À tarde, ele vai até o Poupatempo para usar computador e procurar emprego. Por volta de 20h, já está se ajeitando para dormir, de volta ao centro da cidade.

"A gente só cochila, aqui ninguém dorme. Além do frio, o chão é duro, os ossos começam a doer. Aí você dorme de lado, daqui a pouco começa a doer de novo, você acorda, vira para o outro lado, ninguém dorme, só cochila..."

Hoje, porém, antes de fazer qualquer coisa, Anderson passou pelo Pátio do Colégio para deixar algumas das mantas que tinha recebido poucas horas atrás. Elas são chamadas de "Tony Ramos" pelos moradores de rua, "porque soltam muito pelo".

"As 'Tony Ramos' que sobram, como é limpinho o que a gente ganha na noite, eu procuro alguém que não tem. Um rapaz aqui [na praça] estava sem coberta, e eu tinha quatro. Deixei duas para uma outra pessoa que estava sem, ali mais para frente, e coloquei mais duas para ele", diz.

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Anderson Sampaio de Jesus, 46, morador de rua há dez anos

"Angústia é o sentimento que representa estar na rua"

Mesmo com formação em cinco áreas diferentes --químico, agente de portaria, controlador de acesso, pastor de igreja evangélica e bombeiro civil--, Anderson está sem trabalho há dez anos. Veio para a rua porque faltou o dinheiro do aluguel e foi obrigado a desocupar a casa onde vivia. Sem lugar para deixar seus objetos pessoais, ele doou tudo: móveis, cama, televisor, geladeira... e nunca mais teve um lar.

"Eu gostaria muito de sair da rua, de ter um emprego registrado. A classe média alta se afasta da gente, eles sentem medo. Alguns chegam até a cuspir no chão, de nojo. A gente quer conversar, expor algumas das nossas qualidades. Aqui [na rua] tem muito profissional."

Anderson é pai de três filhos (21, 15 e 13 anos de idade) e já foi casado. Fala com eles somente pela internet, porque "não querem saber de mim pelo fato de eu ser pobre, não querem me ver".

"Para quem um dia esteve embaixo de um teto e hoje não tem mais nada, é muito humilhante. Angústia é o sentimento que representa estar na rua. A gente é muito rejeitado pelas pessoas", lamenta.

"Aqui é a maloca das bichas, onde a gente está protegido"

Entre 9h da manhã de terça-feira e 9h desta quarta, a temperatura mais baixa na região do centro ficou em 7,8°C, registrada às 21h pelo CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências), da prefeitura. Nesse mesmo horário, entre oito e dez pessoas se agrupavam em frente à estação de metrô Marechal Deodoro, no bairro de Santa Cecília, deitadas em colchões e pedaços de papelão.

"Aqui é a maloca das bichas", disse Paulo Alberto Hermenegildo, 34, um dos integrantes do grupo.

Na rua, a palavra "maloca" quer dizer "família", ele explica. "É um convívio entre os homossexuais e onde a gente se encontra protegido. Rua é terra de ninguém. Com a homofobia, tem sempre alguém para fazer o mal. Aqui, a gente acolhe e é acolhido, chega a ter 23, 24 pessoas no grupo."

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Paulo Alberto Hermenegildo, 34, morador de rua, no centro de São Paulo

O rapaz de Juiz de Fora (MG) saiu da casa da família em novembro de 2016 e se mudou para São Paulo por causa da dependência do crack. Mora na rua há nove meses. Sem um ponto fixo de permanência, transita entre a cracolândia e o viaduto do Minhocão (elevado Presidente João Goulart).

"Não estamos na rua por acaso. A gente não é daqui e não veio para ficar. O que nos traz a essa vida é a dependência química. A maioria dos meus colegas e companheiros está na rua justamente por isso. Não somos coitados, mas lidar com essa doença é muito difícil."

Foi em uma clínica para recuperação que ele conheceu a transexual Andreia da Silva Alves, 31, que também faz parte da "maloca".

"Temos uma amiga que dormiu [na rua] separada da gente e uns 'filhinhos de papai' agrediram ela, está com o rosto todo deformado", ela conta sobre a importância de o grupo ficar unido.

Carioca e portadora de HIV, Andreia começou a se prostituir aos 12 anos, quando foi expulsa de casa pela família, por sua orientação sexual. Dos ouvidos pela reportagem, foi a única pessoa a responder que não quer sair da rua. Dependente de cocaína, migrou para o crack e abandonou a medicação que deveria tomar.

"Para mim, a vida já não tem mais graça. Se eu não acordar hoje, seria lucro. Não sou a única dependente química da minha família, mas pelo fato de eu ser transexual, não estou dentro de casa, com meus irmãos", ela comenta.

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Andreia da Silva Alves, 31, moradora de rua, perto do metrô Marechal Deodoro

"Eu não bebia álcool, mas na rua eu sou obrigado"

Na noite em que a equipe do UOL percorreu as ruas do centro da capital paulista, muitos moradores de rua tinham recebido cobertores, gorros, luvas e alimentos, entregues por voluntários e missionários de igrejas. Todos os entrevistados estavam sóbrios.

O mineiro Paulo Alberto e a carioca Andreia disseram que tinham passado o dia consumindo crack. Após as 18h, a preocupação com o frio superou o vício. No ponto onde eles costumam dormir, debaixo do viaduto, venta bastante e, para eles, é impossível pegar no sono sem beber.

"A gente vai dormir com uma garrafinha de cachaça do lado. Eu não bebia álcool, mas na rua eu sou obrigado a beber", diz Paulo. "Não esquenta, mas você fica tonto e não sente [o frio]. Você apaga, como se estivesse anestesiado. Tem que beber para acalentar a dor, o sofrimento e o frio."

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Moradores de rua passam a madrugada no Pátio do Colégio, no centro de São Paulo

"Caí em uma depressão e fui regredindo"

Em algumas horas de conversa, é possível perceber que, em comum, essas pessoas enfrentaram situações muito difíceis antes de chegar às ruas.

Paulo, por exemplo, se formou como chef de cozinha. Tinha emprego, era casado e viveu por 12 anos na Europa com o marido, em uma boa situação financeira. Em janeiro de 2014, seu companheiro morreu em um acidente de carro. Ele perdeu a estabilidade econômica e emocional, retornou à casa dos pais e cedeu às drogas.

"Caí em uma depressão e fui regredindo", afirma.

Ao lado do marido, conheceu países como França e Portugal, enfrentou clima abaixo de 0°C, mas nunca tinha passado pela "frieza" que hoje sente na rua.

"Tem pessoas que nem 'bom dia' falam com a gente, elas nos menosprezam mesmo. Eu já tive um bom colchão, uma boa coberta, mas não é isso que me deixa triste. É a falta de compaixão do ser humano para com o próximo."

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Marmita entregue por voluntários a moradores de rua sob o Minhocão

"Barba e cabelos feitos; família não sabe que estou na rua"

De cabeça branca e olhos transparentes, de tão claros, Luciano, 56, é o entrevistado mais velho. Veio do Recife para São Paulo há três anos e, desde então, vive embaixo do viaduto Nove de Julho.

"O que me levou a estar aqui foi uma melhora, a procura por um emprego. Eu estava desempregado no Recife, vim em busca de um sonho que não foi realizado. Não tive oportunidade de um trabalho digno", explica sobre o motivo de estar na rua.

Num primeiro momento, respondeu à nossa tentativa de contato porque pensou que estávamos ali para entregar comida. Logo em seguida, perguntou: "É site nacional? Não quero que me vejam em Pernambuco".

Ele permitiu fotografias do canto onde dorme, mas nada que pudesse identificá-lo, como informar seu sobrenome, a não ser as próprias mãos. As unhas estão bem cortadas, assim como os cabelos, a barba e o bigode.

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Luciano, 56, mostra as unhas, que procura manter bem aparadas

"Quando pego algo de dinheiro, procuro me manter", ele diz. "Manter um pouco do perfil para não chegar perto das pessoas com um tipo de mau cheiro. Um banho particular custa R$ 10 e precisa ter um desodorante."

Luciano trabalha vendendo mercadorias nas ruas, como garrafinhas plásticas de água, guarda-chuvas, capas, balas e chocolate. Reclama muito do "rapa" (a polícia): os produtos que ele vende, afirma, são recolhidos quando está na rua 25 de Março, assim como os cobertores e outros materiais mantidos em seu canto na rua.

"O subprefeito sabe o que acontece com os moradores de rua?", ele indaga.

O dinheiro que consegue juntar, ele manda para os três filhos e a mulher. De acordo com Luciano, a família não tem ideia das condições em que vive aqui, e ele ainda não desistiu de realizar um sonho: voltar para o Recife com um carrinho para fazer churrasco grego e assim ganhar algum dinheiro.

Nelson Antoine/UOL
Canto sob o viaduto Nove de Julho onde Luciano dorme há três anos

"Tenho uma casa, um carro e depressão"

A morte da mãe, vítima de câncer, levou o pedreiro Leandro Santos Silva, 36, a uma recaída. Usuário de crack, ele vive na rua há quatro anos.

"Eu tenho casa, tenho meu carro, meus dois filhos, faz cinco anos que tenho a guarda dos dois. Entrei em depressão quando minha mãe morreu de câncer. Voltei a fumar droga e estou na rua. Enquanto eu estiver assim, eu prefiro não estar ao lado dos meus filhos", ele diz.

Os dois meninos, com dez e oito anos de idade, são criados por uma irmã dele. Para sobreviver na rua, Leandro, que pediu para não ter o rosto fotografado, cata latinhas. Dorme embaixo do Minhocão ou na avenida Paulista.

Sentado em um sofá que serve de cama, ele brinca com um cachorro e desabafa. Diz que está há três dias "sólido", sem usar drogas.

"Procurei uma clínica e, quando cheguei lá, me disseram: 'A biqueira [ponto de venda e consumo de drogas] é ali atrás'. Não era um lugar para eu estar, prefiro ficar na rua. Eu não sirvo para estar com meus filhos dessa forma. Eu não nasci com o crack, não nasci com a rua, nasci sem nada disso e vou procurar minha melhora."

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Leandro, morador de rua há quatro anos, brinca com o cachorro Bob, em Santa Cecília

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