Violência em São Paulo

Furtos crescem 19% no centro de SP; analistas culpam crise e ação na cracolândia

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

  • Getty Images/iStockphoto

    Roubo de celular é uma das principais queixas no centro, segundo policiais civis de SP

    Roubo de celular é uma das principais queixas no centro, segundo policiais civis de SP

O número de furtos na região central da cidade de São Paulo cresceu 19% nos primeiros seis meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 23.975 casos em 2017 - 3.824 a mais que em 2016. O número corresponde a quase 30% de todos os furtos registrados na capital no período (80.724), excluindo o de veículos. 

Os dados analisados pelo UOL se referem às nove delegacias que compõem a região central de São Paulo e se baseiam nas estatísticas divulgadas pela SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo). No mesmo período, a capital paulista registrou alta de 9% nesse tipo de crime; no Estado, o aumento foi de 2,7%. Quando a comparação é entre o mês de junho de 2017 com o mesmo mês do ano anterior, a alta na região central é de 11%. 

Segundo policiais civis e especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem, a alta pode ser justificada, sobretudo, pela crise econômica e pela ação conjunta da prefeitura e do governo estadual na região da cracolândia, em maio deste ano, que teria dispersado para toda a região central da capital os dependentes químicos que antes ficavam concentrados.

O governo e a prefeitura dizem que não é possível associar a alta nos crimes às ações na cracolândia. A Secretaria da Segurança Pública afirmou que "a atuação das polícias Civil e Militar (na região) resultou na prisão de mais de 2.400 criminosos na área das nove delegacias do centro no primeiro semestre."

A pasta disse ainda que a polícia apreendeu 1.676 celulares no período e que uma operação em andamento resultou em mais de 70 prisões em flagrante.

De acordo com três policiais civis do 4º DP (Distrito Policial) entrevistados pela reportagem sob a condição do anonimato, cerca de 70% dos casos de furto e de roubo registrados nos últimos seis meses na delegacia da Consolação, na zona oeste da cidade, têm como acusados pessoas em situação de rua. "Os outros 30% acontecem nas baladas da [rua] Augusta ou por menores que passam em bicicletas e tomam o celular das pessoas", estimou um deles.

Para o especialista Rafael Alcadipani, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a operação conjunta de Estado e prefeitura no dia 22 de maio na cracolândia desfez o vínculo entre os usuários de droga, dispersando-os pela região central.

"Na cracolândia, o usuário tinha um vínculo social. Uma coisa é eu estar lá e me organizar com os outros usuários como manter o vício. Outra, é estar só. Cada um por cada um, espalhado pelo centro, e na crise econômica, a tendência é de aumentar mesmo o número (de furtos)", disse.

Para Alcadipani, faltou à operação de maio se precaver para essa possível expansão dos dependentes pela cidade. "Dispersaram os usuários no meio do centro, sem nenhum apoio social efetivo. Era óbvio que não ia dar certo", argumentou Alcadipani.

O coordenador de saúde e porta-voz do projeto Redenção (programa da prefeitura para frequentadores da cracolândia), Arthur Guerra de Andrade, afirmou que é precoce fazer a associação entre a alta nos furtos no centro com a ação na cracolândia. As ações mais recentes do poder público no local começaram no dia 22 de maio - e por isso não poderiam ser responsabilizadas por uma alta de 19%.

No 3º DP, em Campos Elíseos, próximo de onde está a maior concentração de usuários de crack da cracolândia, o número de furtos passou de 4.114 para 4.666 - alta de 13,4%. O local é o segundo no ranking dos furtos no centro. Já no 4º DP, os furtos no mesmo período dispararam 85,5% - em 2016, 2.428 crimes do tipo foram registrados na delegacia, enquanto 4.505 aconteceram este ano.

Segundo o delegado titular do 3º DP, Osvany Zanetta Barbosa, a expansão dos dependentes de drogas estava prevista na estratégia elaborada pela polícia e pelos governos municipal e estadual quando ocorreu a operação no local. De acordo com ele, "a tendência é o número aumentar" por "culpa do sistema que temos: prendemos hoje, horas depois o bandido é solto. Qual o recado que estamos passando a eles?", disse Barbosa.

"Nos reunimos por meses para discutir como acabar com o tráfico de drogas ali. Antes (da ação), polícia, repórter, ninguém podia entrar ali", afirmou Barbosa. Ainda segundo o delegado, o maior número de casos de furtos na região é de celulares, tendo dependentes químicos como principais agentes e também por jovens em bicicletas. 

Dependentes se espalharam após ação policial

Para Bruno Paes Manso, pesquisador do NEV (Núcleo de Estudos da Violência), da USP (Universidade de São Paulo), há uma relação de causa e efeito entre crise econômica e criminalidade.

"Historicamente, sempre que há crise, o número de crimes contra o patrimônio sobe. Mais recentemente, os de celulares, que passaram a ser um bem de valor importante, tanto como moeda de troca, como para manutenção e articulação do crime organizado", afirmou. Segundo o pesquisador, há uma série de hipóteses para tentar explicar o aumento do número de furtos no centro. A da dispersão da cracolândia é uma delas. "A inteligência da polícia tem de estudar, se aprofundar e, a partir de então, se precaver e agir da maneira correta para que o índice baixe". 

Um agente do 4º DP que trabalha na polícia há 30 anos afirma que cenários de crise desencadeiam um ciclo vicioso. "É um roteiro padrão: o cara não é criminoso. Ele fica desempregado, perde a mulher, começa a usar drogas, vende as coisas de casa para sustentar o vício até ir para rua. Na rua, ele fica concentrado com seus semelhantes. Sem condições de sustentar o vício, passa a ser criminoso, e rouba, furta", disse.

André Lucas/UOL
Dependentes ocuparam a praça Princesa Isabel após ação no "fluxo" da cracolândia

"O problema da cracolândia é multifacetado: não é só o consumo e a dependência de drogas, ele está ligado também ao desenvolvimento social, à condição de pobreza, à condição urbanística, aos direitos humanos", diz Andrade, coordenador do projeto Redenção. "O tráfico ainda tem uma penetração importante, mas os policiais estão mais presentes".

Andrade afirmou, ainda, que o projeto da prefeitura está em uma fase inicial, mas que já é possível notar algum avanço. "Há uma integração maior das secretarias de Saúde, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social. E os programas Redenção (municipal) e Recomeço (estadual) estão se falando, a bola está passando de um lado para o outro", afirmou Andrade.

A Secretaria da Segurança Pública afirmou que acompanha a movimentação dos usuários de drogas e apoia as ações dos agentes de saúde. Segundo a pasta, de 21 de maio até o último dia 20, a polícia prendeu 265 pessoas por envolvimento com o tráfico na região, apreendeu 270 quilos de drogas e R$ 116 mil em dinheiro.

"O policiamento continua reforçado para combater o tráfico e impedir que se instale um novo fluxo de comercialização de drogas. A área conta com 212 policiais", disse em nota divulgada na noite de quinta-feira.

Para Bruno Paes Manso, é fato que o centro sempre foi mais visado para a prática de furtos e roubos. "O criminoso vê o centro como o shopping do crime: são milhões de pessoas flutuantes. E não corre o risco de ser cobrado pelo crime organizado caso roube nos bairros", disse. 

 

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