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Toque de recolher 'voluntário': insegurança no RN esvazia ruas, fecha bar e abrevia papo no portão

Beto Macário/UOL
4.jan.2018 - "A criminalidade em Natal está demais, é uma vergonha", diz a vendedora Maria Concebida que mora no bairro do Alecrim, região central de Natal Imagem: Beto Macário/UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Natal

06/01/2018 04h00

Eram 19h35 de quinta-feira (4) no bairro do Alecrim, área central de Natal. Na avenida Presidente Bandeira, apenas um catador de lixo e sua carroça. Um carro passa em alta velocidade, seguido por um veículo com militares do Exército. O cenário de ruas vazias em um dos mais tradicionais locais da capital potiguar ocorre em quase toda a cidade onde não há movimentação de turistas.

A reportagem do UOL percorreu na noite de quinta alguns dos principais bairros de Natal. Apesar de muitos estabelecimentos estarem abertos e até movimentados, o fluxo de pedestres verificado nas ruas era sempre bem pequeno --conforme relatos, menor do que há algum tempo. Isso acontece não só em razão do aquartelamento de PMs e bombeiros, mas porque a capital do Rio Grande do Norte vive uma onda de violência sem precedentes, que resultou em 2.408 mortes em 2017 (20% a mais que em 2016).

Em meio à crise de segurança pública, com policiais civis e militares em atividades reduzidas em protesto pelos salários atrasados e falta de condição de trabalho, os moradores não escondem o clima de medo que tomou conta da cidade.

Na mesma avenida Presidente Bandeira, a comerciante Paula Sales, 38, lamenta a queda no fluxo de pessoas no bairro da região central de Natal. Dona de um pequeno bar, ela optou por reduzir o horário de funcionamento após a paralisação parcial dos policiais. Atualmente, o estabelecimento que funcionava até a noite, baixa as portas às 18h.

Se tivesse em um dia normal, [o bar] estaria aberto, [eu estaria] ganhando meu dinheiro. Mas nessa insegurança, quem vai abrir? O Exército até passa aqui, mas não está toda hora para evitar crimes. Cansei de ver assalto, prefiro não arriscar.

Paula Sales, comerciante

Nas ruas adjacentes, repletas de moradias, pouca gente se aventura a ficar na rua. "O movimento na rua caiu demais. Até os caixas do Banco do Brasil, que ficavam abertos até as 20h, agora só ficam até as 18h", completa Paula.

Beto Macário/UOL
4.jan.2018 - "É como um estado de sítio", compara a pedagoga Dalvaneide Costa Imagem: Beto Macário/UOL

Na travessa Presidente Bandeira, apenas em uma residência três mulheres conversavam na porta.

A pedagoga Dalvaneide Costa, 49, comentou o clima de insegurança na área. "Aqui ficou perigoso de uns tempos pra cá Já teve assalto aqui nas duas entradas na rua. Quando vem alguém que não sabemos quem é, sempre entramos em casa com medo. Ladrão hoje não tem cara, né?", afirma. O bate papo ao fim do dia foi encurtado. 

A gente não tem mais direito de ficar na porta de casa até tarde. E só pode ficar em grupo grande, só ninguém fica. É como um estado de sítio.

Dalvaneide Costa, pedagoga

No Alecrim, com o aquartelamento dos policiais e antes da chegada das Forças Armadas, foram muitos assaltos e arrombamentos. O comércio chegou a fechar as portas com medo da violência.

A vendedora Maria Concebida, 48, conta que no dia 27 de dezembro, homens armados roubaram o carro do irmão dela na porta da casa onde mora. "Ele foi estacionar e aí chegaram dois vagabundos e tomaram o carro. Até hoje não acharam", lembra. "A criminalidade em Natal está demais, é uma vergonha", completa.

Em frente à sua casa, na rua Presidente Bento, o casal Rozangela Cabral, 52, e Reginaldo Gomes, 58, ouviam música e tomavam cerveja, mas com medo de serem assaltados. "A insegurança é total. Fico pensando o que era Natal há 20 anos, uma paz total. Agora a gente é assim, fica com medo", disse.

Beto Macário/UOL
4.jan.2018 - Apenas um catador transitava em avenida do Alecrim, na região central de Natal Imagem: Beto Macário/UOL

"Caprichamos na distribuição de tropas", diz general

Segundo o coordenador operacional da Segurança Pública do Estado durante o período de presença de Forças Armadas, general Ridauto Lúcio Fernandes, todo o patrulhamento de forças federais e polícias, hoje, é definido de acordo com os riscos apontados por cada área.

"Foi feito um levantamento das áreas e horários da mancha criminal e caprichamos na distribuição de tropas, inclusive com aqueles blindados. No caso de Natal, a região norte é uma região bastante castigada. Os bairros da região oeste também são, onde moram pessoas mais carentes. Outra coisa é a hora. Não pense que estamos com o mesmo número de policiamento: Tem momentos que temos até duas vezes mais, a depender do horário em que ocorre o crime", disse.