Chuvas

Moradores do Alemão criticam demora de reação da prefeitura do Rio após temporal e pedem doação

Marina Lang

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Arquivo Pessoal

    15.fev.2018 - A força das águas do rio Faria Timbó abriu buracos em casas no Alemão

    15.fev.2018 - A força das águas do rio Faria Timbó abriu buracos em casas no Alemão

Em meio ao desastre provocado pelo forte temporal no Rio de Janeiro na madrugada desta quinta-feira (15) e com a ausência do prefeito Marcelo Crivella (PRB) na cidade, a Defesa Civil Municipal é alvo de críticas por parte de moradores do Complexo do Alemão (zona norte), onde casas foram destruídas. As casas foram alagadas no começo da madrugada, mas moradores relataram demora na atuação dos agentes. Até mesmo uma manifestação chegou a acontecer por volta das 10h.

Ao menos quatro pessoas morreram em decorrência das chuvas. A cidade amanheceu com ruas alagadas, árvores caídas, problemas no transporte público e regiões sem energia elétrica. Parte da ciclovia Tim Maia desabou. As regiões oeste e norte foram as mais atingidas. Em viagem na Europa, o prefeito Marcelo Crivella (PRB) disse que acompanha a situação à distância.

Já pela manhã, moradores da Favelinha da Skol, nas imediações do Parque Everest, no Alemão, pediam a ajuda da Defesa Civil Municipal. Cerca de 50 casas desabaram, segundo a presidente da associação de moradores, Regina Dantas.

Arquivo Pessoal
15.fev.2018 - Famílias perderam pertences na favela da Skol, no Alemão

Segundo relatos de moradores, por volta de 1h o rio Faria Timbó começou a transbordar nas imediações do Parque Everest. Casas que estão nas margens do rio tiveram seus muros, portas e janelas completamente destruídos pela correnteza. A força das águas invadiu casas no interior da comunidade e destruiu pertences e eletrodomésticos dos moradores, como uma máquina de lavar roupas que ficou completamente amassada.

Segundo Regina, que é presidente da Associação de Moradores da comunidade, a Defesa Civil chegou na região apenas no final da manhã.

"A situação está muito crítica, há famílias totalmente desabrigadas. Estamos sem luz na comunidade, precisando de água e alimento. Há muitos voluntários ajudando, mas precisamos principalmente que a Light venha até aqui. Há cabos no chão dando choques nas famílias", afirmou.

Ninguém da Defesa Civil veio me ajudar. Tinha um salãozinho que abri em dezembro. A escova de cabelo, a prancha, todos os meus produtos estão na lama. Não tenho comida, nem água, nem luz, nem como dar alimento para a minha filha.

Alana Gomes, 27, cabeleireira

Chorando muito, ela disse que o cenário da favela é de terra arrasada. "Todo ano dá problema, mas nunca vi como desse jeito. Estamos implorando por ajuda", continuou.

"Demorou bastante para a Defesa Civil aparecer. Fizemos uma manifestação, vieram os policiais, eles acionaram a Defesa Civil e, mesmo assim, demorou um bom tempo para virem", declarou a secretária Juliana Nascimento, 21. "Ainda estamos sem luz. A Light até agora não apareceu. A única coisa que mudou foi que a Cedae esteve aqui", continuou.

Já a maquiadora Rafaela França, 35, chegou a constatar a presença da Defesa Civil na madrugada desta quinta na comunidade. "Mas não sei como ficou na parte da manhã. Agora estão cadastrando as pessoas que tiveram as casas destruídas, mas passaram reto pelas palafitas aqui", disse.

"A minha impressão é a pior possível. Todo ano a favela sofre com as mesmas coisas. A prefeitura deveria ter feito um trabalho ao longo do ano, é uma comunidade extremamente carente em cima de um rio. Está tudo extremamente crítico por aqui. O rio levou água, botijão de gás, fogão. A comunidade ainda está sem luz", observou.

Por meio de sua assessoria de imprensa a Defesa Civil Municipal informou que agentes do órgão chegaram à favela por volta das 9h.

Doações para famílias desabrigadas

A associação de moradores está arrecadando doações. "[Os moradores] Perderam tudo. Desde lençóis, roupas, itens de limpeza, comida, água. Estamos aceitando qualquer coisa", disse Regina.

Os pontos de doação são na própria sede da associação de moradores, na Igreja do João ou por meio do telefone (21) 96871-4039. Outra moradora diz que os itens prioritários são roupas de cama, fraldas, água e produtos de higiene, para doações (21) 99179-8251 (Rafaela). 

Em balanço parcial divulgado às 17h, a Defesa Civil informou que os técnicos interditaram 41 residências no Alemão. Em Cascadura, onde um menino de 12 anos morreu, dez residências também estão isoladas. O órgão informou que 77 sirenes foram acionadas em 44 comunidades em razão das chuvas.

"A Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos está com as coordenadorias de atendimento nas ruas para realizar o acolhimento ou encaminhamento necessário. Até o momento, as pessoas estão preferindo ir para a casa de parentes", disse a pasta.

Temporal provocou alagamentos e destruição no Rio

Interdição de ciclovia leva quase 2 horas

A interdição da ciclovia Tim Maia, cujo trecho próximo a São Conrado desabou no início da manhã de hoje, levou cerca de duas horas. A ciclovia liga o Leblon, na zona sul, à Barra da Tijuca, zona oeste. Não houve feridos.

Por volta das 7h, o COR (Centro de Operações do Rio) informou o desabamento da pista e que a Defesa Civil Municipal, órgão subordinado à Seop (Secretaria Municipal de Ordem Pública), estava a caminho. Entretanto, somente às 8h42 o local foi fechado. A reportagem do UOL esteve na região e, por volta das 11h, uma das faixas usadas na interdição estava amarrada a um galho.

É a segunda vez que a ciclovia desaba. Em abril de 2016, um trecho próximo à avenida Niemeyer cedeu devido a uma ressaca. Duas pessoas morreram no local após caírem no mar. A ciclovia, que custou R$ 44 milhões, ficou interditada por 17 meses. Sua reabertura completa ocorreu em outubro passado.

Procurada, a Secretaria da Casa Civil, que está à frente da comunicação no dia de hoje, informou que repassou internamente as questões sobre a ciclovia Tim Maia e sobre o Complexo do Alemão. O UOL aguarda uma manifestação do COR e da Seop. Já a Defesa Civil informou que está no Alemão desde a manhã de hoje.

Falta de luz

Por volta das 15h, ainda havia locais sem luz por todo o Rio de Janeiro.

A zona oeste é uma das mais afetadas. Moradores de Bangu reclamam da falta de energia elétrica há cerca de 14 horas --no atendimento prestado pela Light, foi informado que a energia deve voltar até as 18h. Recreio dos Bandeirantes, Freguesia, Taquara, Praça Seca, Guaratiba e Realengo também registraram queda de energia.

A zona norte também sofre com a interrupção no fornecimento de luz. Em Vicente de Carvalho, uma moradora relata que está sem energia desde 0h30. Moradores dos bairros da Tijuca, Madureira, Bonsucesso, Higienópolis, Ramos, Olaria e Ilha do Governador relatam que ainda estão sem energia.

Na zona sul, os bairros do Leblon, Copacabana, Jardim Botânico, Humaitá e Gávea ficaram sem luz devido a uma sobrecarga na subestação do Grajaú (zona norte). Segundo a Light, a energia já começou a ser normalizada nesses bairros.

Nas redes sociais, a companhia diz que "por conta do forte temporal estamos com um volume atípico de atendimento. Reafirmamos que todas as nossas equipes estão nas ruas atuando para recompor a rede e restabelecer a energia nas regiões que foram mais afetadas".

Em nota emitida à tarde, a empresa afirmou que "atua desde o começo da madrugada de hoje (15) para restabelecer a energia interrompida em áreas afetadas pelo intenso temporal desta quarta-feira (14). A chuva provocou a queda de árvores, galhos e objetos sobre a rede elétrica. O acesso das equipes tem sido dificultado por bolsões d'água e pela grande quantidade de árvore caídas. A companhia ressalta que cada caso tem sua peculiaridade e, por isso, os prazos para a normalização dos serviços dependem da complexidade de cada situação".

A Light não informou, contudo, quando atenderá as casas que foram destruídas pela enchente no Complexo do Alemão.

Crivella em viagem à Europa

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), está em viagem na Europa nesta quinta. Ele postou mensagem em sua rede social dizendo que acompanha a situação do temporal que afetou diversos pontos da cidade e matou ao menos quatro pessoas entre a noite de quarta-feira (14) e a madrugada de quinta-feira (15).

"Caros amigos, estou acompanhando a situação. O alerta de crise para a chuva intensa foi dada [sic] e a Defesa Civil foi colocada em prontidão para atuar prontamente em caso de acidentes graves", escreveu o prefeito.

"Em poucos minutos o estágio de crise será rebaixado para alerta, mas continuaremos atentos para qualquer emergência", continuou em mensagem postada na madrugada. A capital fluminense ficou em estágio de crise por cerca de cinco horas.

Nas redes sociais, internautas criticam a ausência de Crivella durante a principal festa do calendário do Rio, mas também há quem o defenda, alegando que a chuva foi uma das mais intensas já registradas.

Questionado pela reportagem se a viagem faz parte da agenda oficial do prefeito, a assessoria de Crivella não se manifestou até o fechamento da reportagem.

Crivella disse ainda que enviou os secretários Jorge Felippe Neto (Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente) e Paulo Messina (Secretaria da Casa Civil) ao COR para coordenar as equipes que atendem as emergências na cidade. Nas redes sociais, o COR pediu aos moradores que se desloquem pela cidade apenas no período da tarde.

Crivella, que é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, viajou para a Europa durante o Carnaval. Em vídeo postado no domingo (11), o prefeito disse que aproveitou a "folguinha" para viajar no Carnaval.

O objetivo da viagem, de acordo com Crivella, foi conhecer a ESA (Agência Espacial Europeia) e empresas que fornecem tecnologia de segurança na Alemanha, na Áustria e na Suécia. O UOL procurou a ESA, mas nenhum representante foi localizado para comentar oficialmente a visita de Crivella à agência espacial.

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