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Bilhete Único: quem ganha e quem perde com as mudanças em São Paulo

Bilhete comum continua oferecendo 4 embarques com 1 tarifa; para Vale-Transporte, agora só é possível pegar 2 ônibus - VINICIUS PEREIRA/Folhapress
Bilhete comum continua oferecendo 4 embarques com 1 tarifa; para Vale-Transporte, agora só é possível pegar 2 ônibus Imagem: VINICIUS PEREIRA/Folhapress

Marcela Leite

Do UOL, em São Paulo

28/02/2019 04h01Atualizada em 28/02/2019 13h36

Sob o argumento de diminuir gastos públicos e conter fraudes, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, instituiu mudanças que tornam o Bilhete Único menos vantajoso para quem trabalha longe de casa e para quem visita a cidade.

É essa a análise de especialistas em mobilidade urbana ouvidos pelo UOL a respeito das novas regras - as principais entram em vigor amanhã.

Para quem tem Bilhete Único comum, pouca coisa muda: o tempo de validade da passagem continua sendo de três horas, com quatro embarques pagando uma passagem. 

Mas para quem tem Vale-Transporte, o Bilhete Único passa a valer apenas para duas viagens, em um período de três horas. Entenda as mudanças:

Vale-Transporte dá direito a 2 embarques, e não 4

  • O que mudou: antes, os portadores de Vale-Transporte podiam embarcar em até quatro ônibus durante duas horas. A partir da sexta-feira (1º), o tempo aumenta para três horas, mas o número de ônibus autorizados com a mesma passagem caiu para dois.
  • O que diz a Prefeitura: essa mudança foi implementada porque a Prefeitura não repassará mais dinheiro público com o Vale-Transporte. Ele será todo bancado pelos empregadores. Com isso, serão economizados R$ 419 milhões.
  • O que dizem os especialistas: a medida vai prejudicar quem mora longe do trabalho e utiliza três ou quatro ônibus -- normalmente, pessoas de menor renda. Com o fim da integração gratuita para quem pega três ou quatro ônibus, o gasto cairá sobre o trabalhador, ou sobre o empregador. E isso pode ter um efeito até sobre a empregabilidade dessa população:

Parte das empresas vão começar a selecionar mais ainda os funcionários, excluindo quem mora longe. Horácio Augusto Figueira, Consultor em engenharia de transporte

Além disso, a mudança é incoerente com uma decisão da própria prefeitura, que pretende reduzir o número de linhas e diminuir os trajetos dos ônibus. Em outras palavras, o usuário terá que fazer mais baldeações (4% a mais, segundo cálculos preliminares), mas não terá estímulo financeiro para isso.

"Isso não é decisão de engenharia, é decisão política. Precisamos de técnica, que os engenheiros possam definir com técnica para que as mudanças façam sentido para o usuário", segundo Ejzenberg. 

É preciso apresentar RG para comprar Bilhete Único

  • O que mudou: desde junho de 2018, a Prefeitura vinha restringindo o chamado "Bilhete Único anônimo" - comercializado em qualquer ponto de venda, sem apresentação de identidade. Agora, o decreto oficializou: todo Bilhete Único está vinculado a um número de documento oficial. A pessoa pode escolher estampar nome e foto no cartão - ou não.
  • O que diz a Prefeitura: o objetivo é coibir fraudadores, que utilizavam a integração do Bilhete Único para vender passagens mais baratas para outros usuários.
  • O que dizem os especialistas: a medida tem pontos positivos e negativos.

Pontos positivos:

Com o registro do usuário, você consegue controlar a fraude. Também permite que o usuário recupere os créditos, caso perca o bilhete, já que agora o cartão está vinculado a seu nome. Sergio Ejzenberg, engenheiro e mestre em Transportes pela USP.

Pontos negativos:

No caso de turistas, como eles vão fazer? Terão de enfrentar fila para comprar bilhete toda vez? Essa cidade tem milhares de eventos, como é que vem de fora vai se locomover? Horácio Augusto Figueira.

Outros pontos criticados da medida são:

  • Maior burocracia desestimula o uso do bilhete único. Com mais gente usando dinheiro, o embarque se torna mais lento e o trânsito piora
  • Bilhete único menos atrativo também torna ônibus mais caro e estimula o uso do carro
  • Prefeitura terá dados de locomoção dos cidadãos e abre preocupação quanto à privacidade: poderá ser criado um banco de dados com trajetos de todos os usuários do bilhete

Outras mudanças

  • Período de baldeação para Vale-Transporte passa para três horas - tempo já previsto para Bilhete Único comum. Eram duas. Para estudantes com meia-tarifa, continuam sendo duas horas.
  • Quem tem Bilhete Único sem cadastro terá limite de recarga de R$ 43 num primeiro momento. Mais para frente, precisará comprar Bilhete Único vinculado ao RG e transferir os créditos.
  • O cartão do Bilhete Único terá validade de cinco anos - não havia prazo de validade antes.
  • Daqui a 90 dias, os créditos comprados terão validade de um ano. Os créditos já comprados terão validade de cinco anos. Não havia prazo. 
  • Possibilidade de emissão de bilhetes virtuais ou em mídias que não sejam o atual cartão de plástico.
  • O bilhete poderá ser usado em modais não motorizados (como aluguel de bicicletas) ou mesmo no transporte individual.
Errata: o texto foi atualizado
A passagem adquirida com o Bilhete Único comum já tinha validade de 3 horas - e não de 2 horas, como havia sido escrito. Dessa maneira, o usuário não terá ganhos com as novas regras.

Cotidiano