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Polícia prende membros de milícia no RJ e apura suposta extorsão ao Comperj

Polícia prendeu suspeitos de integrarem milícia na região metropolitana do  - Jose Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo
Polícia prendeu suspeitos de integrarem milícia na região metropolitana do Imagem: Jose Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo

Marcela Lemos e Nathan Lopes

Colaboração para o UOL, no Rio, e do UOL, em São Paulo

04/07/2019 07h19Atualizada em 04/07/2019 13h16

Policiais militares e advogados estão entre os alvos de uma operação da Polícia Civil hoje contra uma milícia que atua em Itaboraí, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Além de mandados de prisão preventiva, há ordens de busca e apreensão contra 77 integrantes da organização criminosa. Até o meio-dia de hoje, 42 pessoas já haviam sido presas. A operação, batizada como Salvator, é realizada em conjunto com o MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) e a Corregedoria da Polícia Militar.

A milícia começou a atuar em Itaboraí entre o final de 2017 e começo de 2018, de acordo com a Promotoria. Nesse período, o grupo criminoso começou a cobrar "taxas de segurança" e serviços ilegais de televisão por assinatura.

Segundo o delegado Gabriel Goiaba, a polícia investiga se o grupo efetuou cobranças até do Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro), que tiveram as obras retomadas no ano passado. A polícia investiga se os milicianos cobravam taxas. Um dos alvos era o transporte de funcionários ao Complexo.

"A gente acredita que Curicica tenha vislumbrado implementar milícia aqui [em Itaboraí] por causa do Comperj. Isso pode ter despertado o interesse dele, pois com maior número de moradores haveria uma arrecadação maior [com as extorsões]", comentou.

A arrecadação do grupo é estimada em R$ 500 mil por mês. Alguns comerciantes chegavam a pagar R$ 1.500 por mês ao grupo.

Mulheres que integravam a quadrilha eram responsáveis por tarefas como cobranças de moradores e lojistas. Algumas delas também ocupavam cargos de liderança no grupo.

Entre os presos, está Fábio de Souza Costa, policial militar que trabalha na UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do morro do Borel, na Tijuca, zorte norte do Rio. De acordo com a Polícia Civil, a milícia é comandada de dentro do presídio federal de Mossoró por Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, que chegou a ser acusado de envolvimento na morte da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL)

Namorada de traficante foi presa durante a Operação Salvator - Betinho Casas Novas/Futura Press/Estadão Conteúdo
Namorada de traficante foi presa durante a Operação Salvator
Imagem: Betinho Casas Novas/Futura Press/Estadão Conteúdo

Ação após o tráfico

Segundo a Polícia Civil, o grupo passou a atuar na região após a expulsão de traficantes de drogas. O aumento no número de mortes na localidade chamou a atenção dos investigadores, que perceberam a expansão do grupo paramilitar através do assassinato de moradores e traficantes. Os investigadores apontam que a organização criminosa é responsável por "inúmeros casos de homicídios, torturas, extorsões, desaparecimento de pessoas e cemitérios clandestinos".

O promotor Rômulo Simões explicou que os corpos dos rivais eram abandonados nas ruas como forma de demonstrar poderio. Posteriormente, para não chamar mais atenção da polícia, eles passaram a esconder os corpos em um cemitério clandestino.

"Eles mudaram a dinâmica de atuação. Passaram a não mais atacar e demonstrar poderio. Queriam dificultar as identificações [dos corpos] e a partir disso o número de homicídios passou a cair e a aumentar o de pessoas desaparecidas. Aí observamos que havia um cemitério clandestino. Eles matavam rivais para dominar o território. Quem não se enquadrava nas normas era torturado, moradores chegaram a ser expulsos de casa", complementou Simões. O delegado, por sua vez, diz acreditar que mais de 50 corpos ainda estejam no local.

Entre os presos de hoje estão os autores da chacina que deixou dez mortos no dia 20 de janeiro na cidade.

De acordo com o promotor, foi através de uma prisão em flagrante e da apreensão de um celular que foi possível identificar integrantes a quadrilha. Ele destacou a brutalidade que o grupo agia. "Teve um integrante morto em abril deste ano que foi fuzilado por traficantes. Eles identificaram um mototaxista que passou informações para o tráfico sobre esse miliciano e o capturaram. Além de espancar, a vítima foi torturada. Há detalhes de membros arrancados, com imagens feitas pelo celular, inclusive".

Os 93 mandados de busca e apreensão expedidos são para ter acesso a aparelhos eletrônicos e anotações dos integrantes da milícia. A Justiça também autorizou a quebra de sigilo de dados dos alvos, além do bloqueio de contas bancárias.

"Enquanto todos os seus integrantes não forem retirados de circulação, suas atividades permanecerão a pleno vapor", diz o MP ao justificar o pedido pela operação de hoje. "Com a prisão dos milicianos e, inclusive, das lideranças, acredita-se que a organização será desmantelada", comenta a Promotoria.

Grupo tem relação com Orlando Curicica

De acordo com as investigações do MP, o grupo miliciano foi constituído e implementado, inicialmente, como espécie de "franquia do grupo criminoso de Curicica", com atuação na capital fluminense e liderada por Curicica. Ele fornecia armamento e "soldados" para a milícia local que era comandada por "Renatinho Problema", que retribuía os serviços com repasse de percentual dos valores arrecadados em Itaboraí com as práticas criminosas.

Curicica foi preso em outubro de 2017 por promover confrontos contra grupos rivais que disputavam pontos de caça-níqueis em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, além de estar envolvido em várias mortes na região por disputa de território. Na ocasião, ele tinha quatro mandados de prisão pendentes.

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