PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

Conteúdo publicado há
3 meses

MS: Vídeo mostra PM agredindo mulher algemada dentro de quartel

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, em Florianópolis

22/11/2020 22h38

Uma empresária de 44 anos foi agredida com tapas e socos por um oficial da Polícia Militar (PM) de Mato Grosso do Sul, em Bonito. O caso ocorreu dentro do batalhão da cidade em 24 de setembro e veio à tona neste fim de semana após o vídeo que mostra as agressões circular nas redes sociais. Tudo aconteceu na frente dos três filhos menores de idade que acompanhavam a mulher, entre eles uma criança autista de três anos.

O vídeo mostra um PM empurrando a mulher e depois desferindo socos e tapas. Outros três homens, sendo um fardado, olham passivamente as agressões, que param somente quando uma mulher com a farda da PM retira o colega de cima da vítima.

A PM de Mato Grosso do Sul informou que identificou os envolvidos na ocorrência e abriu Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar as circunstâncias que resultaram no fato.

Ao UOL, a vítima contou que mora em Corumbá (MS) e estava em Bonito para um passeio em família com três dos quatro filhos para comemorar o aniversário de 44 anos. Um deles é uma menina autista de três anos. A confusão que a fez ser conduzida à delegacia de Polícia Civil começou no restaurante em frente à pousada onde estava hospedada.

Ao realizar o pedido, segundo a vítima, a comida teria demorado para ficar pronta, o que causou desconforto na filha autista.

"Minha bebê se divertiu muito, e ficou com fome, pois ela ama comer arroz e feijão. Fui até ao restaurante com ela no colo e perguntei se já estava pronto. Ela [funcionária do restaurante] disse para sentar um pouco. Passou mais de uma hora e meia e minha bebê surtou, claro, pois estava com fome. Fui questionar o motivo de tanta demora e se podiam dar algo para dar bebê, que estava aos prantos", relatou a empresária, que preferiu não se identificar.

A vítima acrescenta que teria sido empurrada pela funcionária do restaurante com a criança de três anos no colo.

"Ela não gostou [da cobrança pela refeição], me empurrou e xingou a minha bebê de 'verme de sociedade'. Eu caí ao chão com a bebê, a deixei no chão e fui para cima dela. Foi assim que tudo começou."

As duas teriam sido separadas pela filha mais velha da vítima, uma adolescente de 17 anos. Além dela, um filho de seis anos também estava no passeio.

A mulher ainda conta que a família retornou à pousada após a confusão. A Polícia Militar, então, teria batido na porta do quarto minutos depois. Ela narra que foi puxada pelos cabelos para fora do estabelecimento por um segundo-tenente da PM e conduzida algemada em uma viatura sob alegação de desacato após tentar explicar o que aconteceu.

"Tentei explicar o ocorrido. Esse tenente me obrigou a sair do quarto me levando pelos cabelos para fora do hotel", completa.

Agressões aconteceram na frente dos filhos

Os PMs levaram a empresária para o batalhão da cidade antes de ser conduzida à Delegacia de Polícia Civil. No local, o oficial que a teria puxado pelos cabelos na pousada a agrediu com socos e tapas, conforme mostram as imagens registradas pelas câmeras de segurança.

As agressões teriam sido provocadas, segundo a vítima, após ela se desesperar ao saber que os filhos seriam levados pelo Conselho Tutelar para um abrigo.

"O tenente deu ordem para me deixar presa porque eu tinha desacatado. Ninguém estava no batalhão e o tenente que mandava. [A agressão] foi quando o conselho chegou e levou meus filhos. Eu entrei em desespero. Não me ouviram. Nem me deixaram ao menos ligar para alguém. Me senti indefesa", conta.

A mulher ficou presa por 48 horas pelo suposto crime de desacato. Neste período, o marido ficou sabendo da ocorrência, pois é cabo da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul. Ele se dirigiu a Bonito, resgatou os filhos do abrigo e deu assistência à mulher.

De acordo com a vítima, não foi possível registrar boletim de ocorrências nem ser ouvida pelo delegado. Ela também alega que não realizou exame de corpo de delito das agressões sofridas, pois o serviço não estava disponível no momento, o que a forçou a não denunciar o caso à Corregedoria da PM. Agora, com as imagens em mãos, a intenção é dar andamento no registro.

"Não fiz a denúncia na ocasião porque não tinha provas. Pedi a imagens e os policiais me disseram que não funcionavam as câmeras. Hoje, quando soube da repercussão, agradeci a Deus, pois essa impunidade não ficará somente na minha mente", diz.

PM investiga fatos; OAB repudia

A PM do Mato Grosso do Sul diz que a empresária foi presa por "desacato, danos ao patrimônio, ameaça, resistência à prisão e embriaguez".

A ocorrência, diz a PM, teria se originado "após uma equipe policial militar ser acionada para contê-la, em um restaurante daquele município, após a mesma, supostamente, ter ameaçado atear fogo no local, ameaçado de morte os proprietários e quebrado garrafas dentro do estabelecimento comercial".

"Ocorre que durante a confecção do boletim de ocorrência, a pessoa detida teria se exaltado contra os PMs que atenderam a ocorrência, sendo necessário o uso de algemas e mantê-la dentro do compartimento para condução de detidos, considerando o avançado estado de embriaguez da mesma", acrescenta a nota.

A vítima nega as acusações da PM. "Eles não sabem o que falar. Sabem que erraram. Eu só queria um prato de comida que, aliás, já havia pagado para dar a minha filha", diz. A PM prometeu investigar o caso.

Já a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do estado afirmou em nota que repudia "o ato perpetrado pelo agente público, que teria o dever de zelar pela segurança das pessoas, inclusive custodiadas", e não "partir para uma violenta agressão, sob qualquer pretexto que se possa alegar".

"As imagens são estarrecedoras, fortes e somente corroboram, infelizmente, que a violência advinda de onde se espera justamente a proteção, se traduz em banalização e o despreparo do agente para o exercício de uma das funções mais relevantes de Estado, que é garantir a proteção e segurança das pessoas, reforce-se, inclusive detidas, sempre com respeito à dignidade da pessoa humana, o que não condiz com aquilo que se espera de um Policial Militar", afirma a entidade.

Cotidiano