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3 meses

PMs matam jovem negro em SP; testemunhas dizem que ele estava desarmado

Wenny Sabino Costa Martin, 18, foi baleado e morto em São Mateus, zona leste de São Paulo - Arquivo pessoal
Wenny Sabino Costa Martin, 18, foi baleado e morto em São Mateus, zona leste de São Paulo Imagem: Arquivo pessoal

Henrique Santiago

Colaboração para o UOL, em São Paulo

29/11/2020 13h27

Um jovem negro de 18 anos, Wenny Sabino Costa Martin, foi morto por tiros disparados por policiais militares, no bairro de São Mateus, zona leste de São Paulo. A Polícia Militar diz que o jovem trocou tiros com policiais. Testemunhas dão outra versão, afirmando que não houve troca de tiros e que os agentes atiraram à queima-roupa. Nenhum policial foi ferido.

O caso ocorreu na manhã de quarta-feira (25). Na sexta, moradores da região realizaram um protesto, incendiando pneus em um trecho da avenida Sapopemba.

A SSP (Secretaria de Segurança Pública) disse que a PM que recebeu uma denúncia de roubo de carro e suspeitou quando viu o carro dirigido por Wenny. O jovem não teria atendido a ordem para parar, e houve perseguição. Ainda segundo a PM, Wenny em determinado momento teria descido do carro, entrado em uma casa e trocado tiros com os policiais, antes de ser atingido.

A cabeleireira Elis Regina de Jesus, 29 anos, moradora da casa onde Wenny entrou e foi morto, porém, diz que o jovem não estava armado. Ela relata que havia quatro pessoas no local quando tudo aconteceu, seus sobrinhos, de três e quatro anos, uma irmã, de 13 anos, e o filho de Elis, também de 13 anos. Elis diz ter chegado logo depois do ocorrido.

Wenny era amigo dos irmãos de Elis. Segundo ela, Wenny bateu à porta e entrou. Na sequência, dois policiais militares teriam estacionado a viatura e invadido o local armados. Wenny teria tirado a blusa e a camiseta para mostrar que não estava armado.

Ainda segundo Elis, enquanto um PM subiu as escadas para verificar se havia alguém na parte superior, o outro fez Wenny entrar em um banheiro aos gritos de "perdeu, perdeu!" e atirou quatro vezes, atingindo o jovem na barriga, no peito e no braço direito. Os agentes, de acordo com ela, colocaram uma arma na mão direita do jovem.

"Como ele trocou tiros dentro de um banheiro, se não há nenhuma marca de bala nas paredes? Como eles [os policiais] podem entrar na casa de alguém sem mandado de prisão?", falou Elis.

"Conheço o Wenny desde pequeno, o considerava como um irmão. Ele jamais colocaria a vida das crianças em risco', disse. "Se ele fosse preso, iria servir de exemplo para outras pessoas. Não precisava matar."

Elis afirma que ouviu relatos de vizinhos, segundo os quais os policiais deixaram a casa e retornaram depois com coletes marcados com furos. Testemunhas também disseram que os PMs depois entraram em outra casa para pegar imagens gravadas por uma câmera de segurança.

Depois do ocorrido, Elis diz que policiais à paisana visitaram sua casa, dizendo "querer ajudar no caso".

A PM informou que instaurou um IPM (Inquérito Policial Militar) para investigar a ocorrência, "como é feito em todo caso em que haja morte ou lesão corporal em decorrência de intervenção policial-militar" e inquérito policial, pela Polícia Civil. "Por força de lei, ambos os inquéritos correm em segredo de Justiça. Caso haja informações que possam ajudar nas investigações, aquele que as detiver pode levar ao conhecimento da Corregedoria da Polícia Militar ou ao DHPP", diz a corporação em nota.

Procurada pelo UOL, a SSP informou que "o caso é investigado pelo DHPP [Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa], que instaurou inquérito policial. Todas as circunstâncias da ocorrência são apuradas. A equipe também procura por testemunhas e câmeras de segurança".

Mãe diz que foi impedida de acompanhar filho na ambulância

Gislaine Sabino dos Santos e seu filho, Wenny Sabino Costa Martin - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gislaine Sabino dos Santos e seu filho, Wenny Sabino Costa Martin
Imagem: Arquivo pessoal

A mãe de Wenny, Gislaine Sabino dos Santos, 34, diz que estava em casa quando soube que o filho havia sido baleado e que foi imediatamente à casa de Elis. Segundo a ajudante de serralheria, policiais impediram que ela entrasse, mas uma agente teria garantido que Wenny estava "vivo, bem e falando".

Gislaine diz que policiais também impediram que ela acompanhasse o filho dentro da ambulância, até o Hospital Sapopemba. De acordo com ela, ele foi levado ao hospital ainda com vida, acompanhado por cinco policiais. Ao chegar lá, Gislaine soube que Wenny tinha morrido.

O atestado de óbito diz que a causa foi hemorragia aguda, mas não informa o horário da morte. O médico que atendeu o caso afirmou que ele já chegou "sem vida" ao hospital.

"Reconheci o corpo do meu filho três vezes"

Gislaine acusa a PM de negligência no atendimento a Wenny, pois o jovem teria chegado ao IML (Instituto Médico Legal) como indigente.

Ao UOL, ela afirma ter passado toda a documentação dela e do filho no hospital. Em seguida, ela diz que passou mal e que seu cunhado, que a acompanhava, assinou uma ficha em branco entregue por um policial.

"Eles [policiais militares] não tiveram a capacidade de informar que ele era filho da Gislaine ou algo assim. Meu filho chegou ao necrotério como alguém sem documentação registrada. Eles [PMs] não foram leais. Eu reconheci o corpo do meu filho três vezes, uma no hospital e duas vezes no necrotério."

Após a morte de Wenny, Gislaine tentou registrar um boletim de ocorrência no 55º Distrito Policial do Parque São Rafael, na zona leste. Ao chegar lá, relata ter sido informada que não havia nada a ser feito e que o DHPP e a Corregedoria da Polícia Militar entrariam em contato com ela. Até o momento, nenhum representante dessas instituições a procuraram.

A ajudante de serralheria questiona a versão da PM, de que Wenny era suspeito de roubo, mas diz que "não passaria pano" para o filho se ele cometesse algum crime. Ela contesta, entretanto, a versão de que Wenny estaria armado e acusa os policiais de colocarem a arma em sua mão.

"Eles [PMs] colocaram uma arma na mão direita dele. Mas meu filho era canhoto, ele não conseguia lavar um copo com a mão a direita. Não faz sentido", disse.

Wenny planejava estudar radiologia, diz mãe

A SSP não informou ao UOL se Wenny tinha passagens pela polícia. Gislaine diz que não.

Segundo ela, Wenny, o mais velho de três irmãos, completou 18 anos há um mês e terminou o ensino médio recentemente. Ele planejava fazer um curso de radiologia no ano que vem e trabalhar em um hospital, além de ajudar o pai no serviço de manutenção de elevadores, aos finais de semana.

"Meu filho estava com a vida encaminhada, com praticamente dois empregos. Ele queria um bom emprego, gostava de moto e carro. Era um menino educado, não falava palavrão para ninguém."

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