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'Gente humilde pode ter esperança', diz mãe de catador morto por militares

Ruben Berta

Do UOL, no Rio

14/10/2021 17h49

Foram mais de dois anos de espera, mas Aparecida Macedo deixou, na madrugada desta quinta-feira (14), o auditório do prédio da Justiça Militar da União, no Rio, de cabeça erguida. Oito militares foram condenados pela ação que provocou a morte de seu filho, o catador de material reciclável Luciano Macedo, e do músico Evaldo Rosa.

"Sei que não é algo que traz o meu filho de volta, mas foi um resultado importante. Ao menos, a Justiça foi feita. A gente só costuma ver, do lado da gente que é mais humilde, injustiça. Ao menos essa decisão mostra que a Justiça não está ao lado só de quem tem (dinheiro). Gente humilde pode ter esperança", afirmou Aparecida.

Luciano Macedo foi baleado quando tentava socorrer o músico Evaldo Rosa, cujo carro foi atingido por 62 disparos efetuados pelos militares. O catador chegou a ficar 11 dias internado, mas morreu em 18 de abril de 2019.

"Durmo e acordo todos os dias pensando nele. A gente vai morrendo aos poucos quando o filho da gente se vai", disse a mãe de Luciano.

Aparecida Macedo e o filho, o catador Luciano Macedo, morto por militares em abril de 2019 Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

Revolta

Durante as mais de 15 horas do julgamento, ela precisou ser socorrida fora do auditório quando a defesa dos militares tentou, sem qualquer prova, acusar Luciano de ter matado Evaldo.

"Meu filho morreu ajudando uma outra pessoa, aquilo foi revoltante. Não tinha a menor lógica nessa tese. O Luciano mal tinha o que comer, quanto mais ter dinheiro para comprar uma arma. Quando ele foi atingido, estava indo buscar as telhas para colocar num barraco que estava construindo", completou Aparecida.

Não há nos autos provas que sustentem a tese da defesa dos militares. Os familiares que estavam no carro com Evaldo não relataram nada contra Luciano e também não foi encontrada nenhuma arma com o catador.

Durante a sessão de julgamento, a promotora responsável pela denúncia, Najla Nassif Palma, disse que o uso dessa tese pela defesa dos militares era como matar Luciano pela segunda vez.

Condenações

Os oito militares foram condenados pelos crimes de duplo homicídio, de Evaldo e Luciano, e de tentativa de homicídio de Sérgio Gonçalves de Araújo, sogro de Evaldo, ferido dentro do carro.

O tenente Ítalo da Silva Nunes Romualdo recebeu a pena maior, de 31 anos e seis meses de prisão. Fabio Henrique Souza Braz da Silva, Gabriel Christian Honorato, Gabriel da Silva de Barros Lins, João Lucas da Costa Gonçalo, Leonardo de Oliveira de Souza, Marlon Conceição da Silva e Matheus Santanna Claudino foram condenados a 28 anos.

Quatro participantes da ação foram absolvidos porque ficou constatado que eles não atiraram.

O julgamento foi feito por um conselho presidido pela juíza Mariana Aquino e formado por outros quatro membros, militares escolhidos através de sorteio.

Além da juíza, outros dois militares decidiram pela condenação.

A magistrada terá agora o prazo de oito dias para fazer a leitura da sentença, em audiência pública. Cabe então apelação ao Superior Tribunal Militar (STM), no prazo de cinco dias, contados da data da leitura.

A defesa dos militares já confirmou que irá recorrer. Os oito condenados seguirão respondendo em liberdade até que haja decisão definitiva do STM.

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