PUBLICIDADE
Topo

Cotidiano

Marinha inicia busca por jornalista e indigenista desaparecidos na Amazônia

O jornalista inglês Dom Phillips, colaborador do jornal The Guardian, e o indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira  - Foto@domphillips no Twitter e Bruno Jorge/ Funai
O jornalista inglês Dom Phillips, colaborador do jornal The Guardian, e o indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira Imagem: Foto@domphillips no Twitter e Bruno Jorge/ Funai

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

06/06/2022 13h31Atualizada em 24/06/2022 08h54

A Marinha enviou hoje à tarde uma equipe de buscas para procurar pelo indigenista Bruno Araújo Pereira, servidor licenciado da Funai (Fundação Nacional do Índio), e pelo jornalista britânico Dom Phillips, correspondente do jornal britânico The Guardian, desaparecidos desde a manhã deste domingo (5) no Vale do Javari, na Amazônia (AM).

A equipe de busca e salvamento formada por militares da Capitania Fluvial de Tabatinga (AM), do 9º Distrito Naval, já está na região do desaparecimento, segundo informou a Marinha. Em nota, a Marinha informou que enviou ao local às 11h40 uma equipe de busca formada por sete militares com o auxílio de uma lancha. As ações tiveram início à tarde nos rios Javari, Itaquaí e Ituí, no interior do Amazonas.

Na manhã de terça-feira, as buscas contarão com o auxílio de um helicóptero do 1° Esquadrão de Emprego Geral do Noroeste, de duas embarcações e de uma Moto Aquática.

O governo do Amazonas anunciou também que montou uma força-tarefa para apoiar as buscas. Segundo a Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), Bruno vinha sendo alvo de ameaças de garimpeiros, madeireiros e pescadores.

O MPF (Ministério Público Federal), que abriu investigação do caso, disse ter notificado a Marinha para tentar localizar o paradeiro deles. O órgão informou ainda ter acionado Polícia Federal, Polícia Civil, Força Nacional e Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari.

De acordo com o MPF, as buscas ficarão sob responsabilidade do Comando de Operações Navais da Marinha. "O MPF seguirá mobilizando as forças para assegurar a atuação integrada e articulada das autoridades, visando solucionar o caso o mais rápido possível', informou, em um dos trechos da nota enviada à reportagem.

No Twitter, o Ministério da Justiça e Segurança Pública disse atuar junto da Marinha para encontrar Pereira e Philips.

Bruno é pai de três filhos. Dois deles com a antropóloga Beatriz de Almeida Matos, companheira do indigenista. "Ele precisa voltar para casa", disse à Folha de S.Paulo. "Eu conheço bem a região, sei que podem acontecer vários acidentes. Mas estou apreensiva por causa das ameaças que ele sofria", afirmou a antropóloga, que também atuou com povos indígenas.

Em carta reproduzida pelo jornal O Globo, pescadores prometeram "acertar contas" com o indigenista. Fabio Ribeiro, coordenador-executivo do OPI (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato), confirmou que as buscas estão sendo priorizadas.

"Aquela região tem questões envolvendo o narcotráfico, a atividade de madeireira, de pesca ilegal e garimpo. E a organização indígena está nesse enfrentamento contra a invasão das terras", relatou.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o desaparecimento "expõe a fragilidade das ações de fiscalização e segurança na Amazônia". Um levantamento do fórum aponta crescimento de 9,2% na violência letal entre 2018 e 2020 em cidades de Floresta na região Norte do país.

"Pereira e Phillips navegavam em uma área que hoje é palco de disputa entre facções criminosas que se destacam pela sobreposição de crimes ambientais, que vão do desmatamento e garimpo ilegal a ações relacionadas ao tráfico de drogas e de armas, por meio do forte controle de rotas fluviais, terrestres e aéreas da região", diz o Fórum em nota.

Onde o indigenista e o jornalista desapareceram - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Bruno Pereira e Dom Phillips foram vistos pela última vez por volta das 7h de ontem em um barco após saírem da comunidade Ribeirinha São Rafael, segundo nota em conjunto entre Univaja e OPI.

Enfatizamos que na semana do desaparecimento, conforme relatos dos colaboradores da Univaja, a equipe recebeu ameaças (...). Outras já vinham sendo feitas a demais membros da equipe técnica da Univaja, além de outros relatos já oficializados"
Trecho de nota da Univaja e do OPI

De lá, partiriam para a cidade de Atalaia do Norte, onde eram aguardados por duas pessoas ligadas à Univaja. Após um atraso de mais de duas horas, começaram as buscas, informaram as entidades indígenas.

18.jun.2021 - A base da Funai do rio Itui, região visitada pelo jornalista inglês Dom Phillips e pelo indigenista Bruno Pereira, desaparecidos desde domingo (5) - Lalo de Almeida/Folhapress - Lalo de Almeida/Folhapress
18.jun.2021 - A base da Funai do rio Itui, região visitada pelo jornalista inglês Dom Phillips e pelo indigenista Bruno Pereira, desaparecidos desde domingo (5)
Imagem: Lalo de Almeida/Folhapress

"Essas duas pessoas ficaram esperando em uma balsa por mais de duas horas. Depois, tentaram localizá-los. Por volta das 16h, acionamos os órgãos de segurança para notificar o desaparecimento", informou Paulo Barbosa da Silva, coordenador-geral da Univaja.

As entidades indígenas informaram que Bruno Pereira e Dom Phillips se deslocaram inicialmente para visitar uma equipe de vigilância indígena próximo à localidade chamada Lago do Jaburu, nas imediações da base da Funai no Rio Ituí, para que o jornalista conversasse com indígenas no local.

As entrevistas, segundo as entidades, foram feitas na última sexta-feira (3). No retorno, ainda de acordo com a entidade, a dupla foi à comunidade São Rafael, onde Bruno Pereira tinha reunião agendada com o líder comunitário conhecido como "Churrasco" para consolidar trabalhos conjuntos entre ribeirinhos e indígenas na região, afetada pela ação de invasores.

Ainda segundo as entidades indígenas, Bruno se reuniu com a esposa do líder comunitário, já que ele não estava no local. De lá, partiu em uma embarcação com o jornalista britânico Dom Phillips para Atalaia do Norte. Contudo, a dupla desapareceu antes de chegar ao destino combinado.

É extremamente importante que as autoridades brasileiras dediquem todos os recursos disponíveis e necessários para a realização imediata das buscas, a fim de garantir, o quanto antes, a segurança dos dois"
Maria Laura Canineu, diretora do escritório da Human Rights Watch no Brasil

Na região pela 2ª vez, diz The Guardian

O jornalista Tom Phillips, correspondente do jornal britânico The Guardian no Brasil, relatou a situação do colega em postagem pelo Twitter. "Meu amigo e colega Dom Phillips desapareceu enquanto fazia uma reportagem na Amazônia com o líder indígena Bruno Pereira, dias após ele receber ameaças. Por favor, compartilhem essas informações o mais rápido possível", escreveu, em inglês.

Em comunicado, o jornal britânico The Guardian afirmou que está "muito preocupado e está procurando urgentemente informações sobre o paradeiro e a condição do Sr. Phillips".

"Estamos em contato com a embaixada britânica no Brasil e as autoridades locais e nacionais para tentar estabelecer os fatos o mais rápido possível", afirmou.

"Condenamos todo tipo de ataques e violência contra jornalistas e trabalhadores da imprensa. Esperamos que Dom e aqueles que viajavam com ele estejam seguros e que sejam encontrados logo", diz o jornal.

Segundo o jornal, Phillips havia se unido a uma das expedições de Bruno Pereira na mesma região em 2018 para relatar sobre as aldeias perdidas da Amazônia. Ele preparava um livro sobre meio ambiente.

A reportagem do UOL telefonou para o celular de Phillips, mas ele não atendeu. As mensagens em um aplicativo indicavam que o aparelho estava fora de área ou sem sinal.

Cotidiano