"Merkel não é a mulher-maravilha que vai resolver a crise da democracia ocidental"

Clarissa Neher

Colaboração para o UOL, em Berlim

  • Hannibal Hanschke/Reuters

    20.nov.2016 - Angela Merkel anuncia que vai concorrer ao quarto mandato como chanceler da Alemanha

    20.nov.2016 - Angela Merkel anuncia que vai concorrer ao quarto mandato como chanceler da Alemanha

A filha de um pastor luterano, criada na República Democrática Alemã (RDA, ex-Alemanha Oriental), é atualmente uma das líderes mais influentes do mundo. Perante a crescente onda do populismo de direita, a vitória dos eurocéticos no referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE) e a eleição de Donald Trump nos EUA, a chanceler (premiê) alemã, Angela Merkel, ganhou destaque com a defesa de valores liberais.

O anúncio de sua candidatura à reeleição foi recebido com alívio pela imprensa internacional. Diante um cenário político de incertezas, Merkel, que há onze anos governa a Alemanha, chegou a ser considerada pelo jornal americano "The New York Times" a "última defensora do liberalismo ocidental".

No entanto, para o cientista político alemão Stephan Bröchler essa imagem é problemática e passa a falsa impressão de que Merkel poderia solucionar sozinha todos os atuais problemas das democracias ocidentais.

Em entrevista ao UOL, o professor da Universidade Humboldt de Berlim, especialista em política alemã, falou sobre a construção desta imagem e o endurecimento de Merkel e de seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), após o anúncio da candidatura. Em seu congresso anual, na semana passada, a legenda disse que pretende adotar uma posição mais dura em relação às leis imigratórias, e a própria chanceler declarou ser a favor da proibição da burca.

O endurecimento de Merkel e da CDU acontecem depois dos resultados desastrosos nas últimas eleições estaduais, nas quais a legenda enfrentou perdas históricas e viu o crescimento do partido populista de direita Alternativa para Alemanha (AfD), que tem conquistados os eleitores da União.

Em Berlim, a CDU perdeu 5,7% dos votos e no Estado que é a base eleitoral da chanceler, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, amargou um de seus piores desempenhos nas eleições de 2016. A CDU ficou em terceiro lugar, com 19% dos votos, atrás da AfD, que alcançou 20,8%.

UOL: Merkel foi chamada recentemente de a última defensora do liberalismo Ocidental. Qual sua opinião sobre isso?

Stephan Bröchler: Essa imagem é equivocada e causa confusão, pois nos induz a pensar que Merkel poderia solucionar sozinha as crises atuais. É um pouco a ideia de Merkel como "mulher-maravilha" que resolveria sozinha os problemas da democracia, mas isso não é possível. Para contornar essa situação, precisamos de uma ação conjunta de lideranças políticas e da sociedade civil. Nesta ação conjunta, Merkel teria, então, muito a oferecer devido a sua vasta experiência na condução de um governo. Também considero errôneo o debate sobre o fim da democracia como conhecemos.

Por que você considera esse debate errôneo?

Vivemos um processo forte de transformação em vários níveis, impulsionado pelas tecnologias de comunicação e mudanças econômicas e no mercado de trabalho. A democracia precisa encontrar novas soluções e respostas para esses problemas. A força das democracias está na sua capacidade de adaptação, desta forma, democracias são sistemas em aprendizagem e, por isso, elas têm podem superar os enormes desafios atuais.

E como surgiu a imagem de Merkel como defensora do liberalismo ocidental?

Diferentes fatores conduziram a essa impressão. O primeiro é o fato de Merkel estar no governo como chanceler já há um grande período e ter tido sucesso neste cargo. Há também uma relação com a sua atitude durante a crise dos refugiados e na questão da transição energética da Alemanha. Nas duas ocasiões, ela mostrou que pode tomar decisões e colocá-las em prática. Além disso, Merkel é uma excelente moderadora.

Essa é a grande força de Merkel, tanto na política interna como externa. Ela assume a função de moderar muito bem e isso está relacionado com seu jeito pessoal. Merkel não é arrogante ou pretenciosa, sabe ouvir seus parceiros nacionais e internacionais e, junto com eles, tomar decisões e aplicá-las.

Durante a crise do euro, Merkel foi alvo de protestos em vários países do bloco, se tornando um símbolo das políticas de austeridade exigidas pela União Europeia em troca de pacotes de resgate. Esta crise e também a dos refugiados, na qual a chanceler teve um papel de destaque, impulsionaram um sentimento contrário à UE. Neste contexto, teria Merkel uma parcela de culpa no crescente euroceticismo e na ascensão de partidos populistas de direita?

Os governos que conduziram essas políticas de austeridade têm sua parcela de culpa nesse cenário, mas o principal problema é outro. Na União Europeia, há grandes desigualdades sociais e econômicas. Para muitos, não só entre a população, mas também entre lideranças europeias, o objetivo político do bloco não está claro. A UE é muito mais do que apenas um poder econômico.

A crise grega mostra o que acontece se o bloco se apoiar somente num país. A política de Merkel e, principalmente, do seu ministro de Finanças, Wolfgang Schäuble, que virou objeto de ódio, revela o perigo da Alemanha começar a ser percebida com um grande poder. É preciso chegar a soluções com negociações envolvendo todos os membros da UE.

Fabrizio Bensch/Reuters
10.set.2015 - Refugiado faz selfie com Merkel após registrar-se no distrito de Spandau, em Berlim. Ele teria dito, com um grande sorriso: "É como uma mãe para nós"

Na Alemanha, o partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) se tornou uma força política significativa após Merkel aceitar o acolhimento de milhares de refugiados no país. O sucesso e crescimento da AfD foram atribuídos por muitos à chanceler e à sua política migratória. Na sua opinião, existe realmente essa "culpa" de Merkel?

Essa ligação não pode ser negada. Merkel tomou uma decisão corajosa e se manteve firme em sua posição. Essa disposição de receber uma grande quantidade de refugiados na Alemanha gerou no país um ceticismo em relação a uma política na qual muitas pessoas não se sentiram mais representadas e levou ao crescimento do partido populista de direita.

Na semana passada, durante o congresso anual, a CDU assumiu uma posição mais conservadora em relação a políticas migratórias. Merkel, inclusive, declarou ser a favor da proibição da burca. Como você analisa esse endurecimento nas posições da chanceler e de seu partido?

A CDU está profundamente dividida: de um lado Merkel, que ainda é uma figura simbólica para a política de migração e para o acolhimento de pessoas na Alemanha; do outro, a CDU como partido que tem grandes problemas com essa política e perdeu muitos eleitores para o AfD. A união quer voltar a assumir uma política de refugiados mais conservadora. Porém, com as eleições, o partido precisa unir forças.

Neste contexto, você acredita que Merkel assumirá uma posição mais conservadora durante a campanha eleitoral?

Sim. Ela precisa harmonizar os pontos contraditórios, ou seja, sua ideia sobre imigração e as exigências do seu partido. Ela só conseguirá ganhar as eleições se continuar representando esse papel duplo de símbolo para uma Alemanha aberta e, ao mesmo tempo, atender as exigências do partido. A CDU precisa apoiar Merkel, mas isso só vai ocorrer se ela harmonizar essas posições contraditórias.

E por que, mesmo com essa crise no partido, Merkel conseguiu ser novamente candidata?

Porque não há alternativa a Angela Merkel. Neste momento, a chanceler ainda tem uma boa imagem e popularidade e continua sendo bem-vista dentro da CDU, não tanto quanto antigamente, pois ela sofreu com a crise migratória. Mas ainda não há uma pessoa para substituí-la na legenda.

No contexto internacional, as eleições na França e na Holanda podem influenciar na eleição na Alemanha?

O peso de uma vitória de Marine Le Pen na França teria um significado para a Europa bem maior do que o próprio Brexit. Na Alemanha é difícil dizer. Poderia levar a população a assumir uma posição contrária a esse desenvolvimento e, dessa maneira, a AfD perderia eleitores. Mas também poderia incentivar alemães a votar nesse partido populista de direita com lideranças ligadas a extrema-direita.

Há riscos para a imagem Alemanha com a eleição de representante de um partido populista de direita no Parlamento?

A volta ao poder de um partido nacionalista na Alemanha causará graves danos para o reconhecimento e o papel do país internacionalmente.

Merkel é candidata ao quarto mandato

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