Ex-diretor do FBI detalha ameaças veladas e interferência de Trump em investigação russa

Em Washington

  • Joshua Roberts/Reuters

O ex-diretor do FBI James Comey revelou, em um testemunho por escrito que será apresentado nesta quinta-feira (8) em depoimento no Senado, que o presidente Donald Trump tentou interferir no processo da investigação que apura a influência russa durante a eleição.

No depoimento, Comey relata as tentativas de Trump de livrar o ex-conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn das investigações, questiona se o ex-diretor do FBI era leal, se gostava do seu trabalho na chefia da agência e conta as diversas vezes em que Trump exigiu que o FBI garantisse ao público que ele pessoalmente não era investigado.

Os encontros de Trump e Comey e os telefonemas foram todos registrados em memorandos pelo ex-diretor do FBI. No depoimento, ele explica que esta prática não é comum, mas afirma que optou por efetuar os registros oficiais de cada contato desde que o presidente, antes mesmo da posse, o questionou sobre a investigação durante um encontro na Trump Tower.

"Criar registros escritos imediatamente após encontros cara a cara com o sr. Trump tornou-se uma prática minha a partir daquele momento. Esta não foi uma prática adotada no passado. Falei privadamente e pessoalmente com o presidente Obama apenas duas vezes (e nunca por telefone) --uma em 2015 para discutir políticas de aplicação da lei e uma segunda vez, rapidamente, para me despedir no fim de 2016", diz Comey. "Posso citar nove conversas com o presidente Trump em quatro meses --três delas pessoalmente e seis delas por telefone."

Encontro 1: Trump recebe informações da investigação

No primeiro encontro entre os dois, em 6 de janeiro, 14 dias antes da posse de Trump na presidência, Comey encontrou o presidente eleito ao lado de outras lideranças da inteligência americana para repassar informações sobre as investigações envolvendo a tentativa russa de interferir nas eleições dos EUA de 2016. Além disso, ele avisaria Trump sobre o dossiê russo que supostamente seria usado para chantagear o presidente, com detalhes comprometedores para o empresário envolvendo uma viagem sua a Moscou em 2013.

Segundo Comey, Trump não estava sendo pessoalmente investigado e a liderança do FBI concordou que seria ideal informá-lo disso. "Isso era verdade; nós não tínhamos uma investigação de contra-inteligência aberta contra ele. Durante nosso encontro sozinhos na Trump Tower, baseado na reação do presidente eleito sobre o nosso briefing, e sem ele ter perguntado isso diretamente, eu afirmei isso a ele."

Encontro 2: Trump pergunta a Comey se ele quer continuar no FBI e pede "lealdade"

O segundo encontro entre os dois ocorreu em 27 de janeiro, uma semana após a posse, em um jantar na Casa Branca. Comey relata que recebeu o convite de Trump, por telefone. Não havia ficado claro para ele que a reunião seria apenas entre os dois. Segundo o relato, os dois ficaram em uma pequena mesa no Salão Verde da Casa Branca, e a primeira coisa que Trump perguntou foi se Comey gostaria de permanecer como diretor do FBI.

"Eu achei isso estranho, porque ele já havia me dito duas vezes que esperava que eu continuasse, e eu garanti a ele que era essa minha intenção. (...) Meus instintos me indicaram que o encontro um a um e o contexto de que era nossa primeira discussão sobre minha posição apontaram que aquele jantar era, pelo menos em parte, uma tentativa de me fazer pedir pelo emprego e criar uma espécie de relação de 'proteção'. Isso me deixou muito preocupado, levando em conta o tradicional status de independência do FBI perante o Executivo."

Comey conta que respondeu afirmando gostar muito de seu trabalho e que tinha intenção de cumprir o mandato de dez anos à frente da agência. "Algum tempo depois, o presidente disse: 'eu preciso de lealdade, eu espero lealdade'. Não me mexi, não falei nada e não mudei minha expressão facial de nenhuma maneira durante o incômodo silêncio que se seguiu. Apenas nos olhamos, em silêncio. A conversa então continuou, mas ele retornou a esse assunto no fim do jantar."

Segundo Comey, Trump o elogiou no fim do jantar, mas voltou a pedir lealdade. "Respondi: 'você sempre receberá honestidade de mim'. Ele fez uma pausa e disse 'é isso o que eu quero: lealdade honesta'. Fiz uma pausa e respondi que entregaria isso a ele." De acordo com o ex-diretor do FBI, não ficou claro se os dois entenderam o mesmo significado para a expressão 'lealdade honesta', mas ela ajudou a encerrar "uma conversa muito estranha".

Comey relata que Trump voltou a falar sobre o dossiê russo e o negou de forma veemente, pedindo ao FBI que iniciasse uma investigação para provar que os relatos do relatório eram falsos. "Respondi que deveríamos pensar melhor sobre isso, porque poderia criar uma narrativa de que estávamos investigando ele, sendo que não estávamos, e também pela dificuldade de provar que era falso."

Encontro 3: Trump pede a Comey que "deixe para lá" investigação sobre seu aliado

A terceira reunião entre os dois ocorreu em 14 de fevereiro, em um encontro que a cúpula de segurança debateria terrorismo. No fim da conversa, o presidente convocou apenas Comey para ficar, dizendo a ele que "gostaria de falar sobre Michael Flynn", assessor de Trump que havia se demitido um dia antes depois de admitir que havia mentido ao vice-presidente, Mike Pence, sobre um encontro com o embaixador russo, Sergey Kislyak.

O ex-diretor do FBI relata que Trump disse que Flynn não havia errado ao falar com os russos, mas sim por ter enganado o vice-presidente. Depois de reclamar dos vazamentos de informações confidenciais, Trump voltou a falar sobre Flynn e disse que ele era "um cara bom, que passou por muita coisa". "Depois, ele disse: Espero que você encontra uma maneira de deixar isso para lá, de deixar o Mike Flynn para lá. Respondi apenas que Flynn era 'um cara bom'", diz Comey. "Não falei que deixaria para lá."

Comey esclarece que entendeu que Trump falou especificamente para que o FBI parasse de investigar Flynn, mas não se referiu a toda investigação sobre a ligação entre a Rússia e sua campanha. "Apesar disso, era algo para se preocupar, considerando o papel do FBI como uma agência independente de investigação."

Segundo ele, as investigações continuaram, e Comey relatou ter pedido ao secretário de Justiça, Jeff Sessions, que o presidente parasse de estabelecer comunicação direta com ele, dizendo que isso era "inapropriado e nunca deveria acontecer".  "Ele [Sessions] não respondeu."

Entenda o envolvimento da Rússia na política americana

Encontro 4: Trump pede que FBI divulgue que ele não é investigado

Trump voltou a contatar Comey em 30 de março, dessa vez por telefone. Na ocasião, o presidente afirmou que a investigação russa era uma "nuvem" que estava o atrapalhando de exercer seu trabalho como presidente, segundo o relato do ex-diretor do FBI. "Ele disse que não tinha nada a ver com a Rússia, que não se envolveu com prostitutas na Rússia e sempre imaginou estar sendo gravado quando estava na Rússia. Perguntou o que poderíamos fazer para 'levantar essa nuvem'. Respondi que estávamos investigando o assunto o mais rápido que podíamos."
 
Depois, ao conversarem sobre uma audiência no Congresso envolvendo a Rússia, na semana anterior, Comey afirmou a Trump que explicou a líderes parlamentares que o presidente não estava sendo investigado. "Ele me disse, repetidamente: precisamos divulgar isso." De acordo com Comey, ele não informou a Trump sobre o principal motivo da relutância em tornar pública a informação de que o presidente não era pessoalmente investigado: a necessidade de corrigir isso caso o cenário mudasse.
 
"O presidente disse que, se havia alguns aliados dele que haviam feito algo errado, seria bom descobrir, mas que ele não havia feito nada errado e esperava que eu encontrasse uma maneira de divulgar que ele não era investigado." No fim da conversa, Trump teria dito que a tal "nuvem" russa o estava impedido de fazer acordos, reforçando novamente o pedido a Comey.

Encontro 5: Trump cobra Comey sobre pedido

A última conversa entre os dois, segundo Comey, ocorreu em 11 de abril, também por telefone. Na ocasião, Trump cobrou sobre o pedido de que o FBI divulgasse que ele não estava sendo investigado, perguntando o que Comey havia feito sobre isso. "Eu respondi que havia passado o pedido para o procurador-geral que estava comandando o caso, mas que não havia obtido resposta. Ele respondeu dizendo que 'a nuvem' estava o atrapalhando no cumprimento do trabalho. 

Segundo Comey, Trump respondeu dizendo que talvez a melhor maneira de resolver isso seria por meio do Departamento de Justiça, afirmação com a qual o ex-diretor do FBI concordou, dizendo que esse seria o canal tradicional.

"Ele [Trump] disse que faria isso e acrescentou: 'Porque estou sendo muito leal a você. Temos essa coisa que você sabe. Não respondi e nem perguntei sobre o que ele queria dizer quando ele falou 'essa coisa'. Apenas disse que a maneira de lidar com isso seria através de um contato da Casa Branca com o Departamento de Justiça. Ele disse que faria isso, e a ligação foi encerrada".

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