Prefeitura tira moradores de rua de abrigo na zona leste para receber venezuelanos

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

  • Talita Marchao/UOL

    Venezuelanos chegam no abrigo da Prefeitura de São Paulo em São Mateus

    Venezuelanos chegam no abrigo da Prefeitura de São Paulo em São Mateus

Pessoas em situação de rua que pernoitavam no CTA (Centro Temporário de Acolhimento) de São Mateus, na zona leste de São Paulo, foram surpreendidas com a decisão da prefeitura de transformar o local em centro exclusivo para os 74 venezuelanos que chegaram a São Paulo nesta quinta-feira (5), no processo de interiorização comandado pelo governo federal.

O local, inaugurado em dezembro pelo prefeito João Doria (PSDB), tinha sido planejado para atender 182 moradores de rua para pernoite e disponibilizaria 50 vagas para atendimento durante o dia. No entanto, os planos foram alterados. Após passar mais de dois meses fechado após inauguração, o centro começou a atender as pessoas em situação de rua, e agora a prefeitura retirou os beneficiários para receber os venezuelanos que chegam de Roraima. 

Na segunda (2), o prefeito anunciou que o CTA a partir de agora seria exclusivo para migrantes. A prefeitura recebeu apenas homens na primeira leva de refugiados do país vizinho. De acordo com a prefeitura, os moradores de rua foram avisados na segunda-feira (2) da mudança. 

"A gente veio até aqui e não conseguiu entrar mais. Tinha tudo certinho, mas vimos as coisas chegando para os outros", reclamou Jeferson Gomes da Silva, 22, que trabalha em uma mecânica da região e usava o abrigo.

"Quando eu saia do serviço, vinha para cá. Jantava, tomava um banho e jogava um dominó". Jeferson estava acompanhado de Maurício Souza Aquino, 19, e ambos reclamavam por não conseguir entrar no abrigo.

Talita Marchao/UOL
Jeferson Gomes da Silva jantava e tomava banho no abrigo

Nesta quinta, eles estavam abrigados em uma praça nos arredores, na frente do terminal de ônibus de São Mateus, com amigos que também pernoitavam no abrigo. "Queremos ir para o mesmo lugar, somos como uma família", disse Maurício.

A reportagem viu ainda outras pessoas que buscavam o local e davam com os portões fechados. Mais de sete carros da Guarda Civil metropolitana aguardavam a chegada dos venezuelanos.

Em entrevista ao UOL, Filipe Sabará, secretário de Assistência e Desenvolvimento Social, afirmou que os moradores de rua foram encaminhados para CTAs em Guaianases e na Liberdade. O CTA de Guaianases fica a cerca de 15 km do CTA de São Mateus. Já o CTA da Liberdade, na região central de SP, fica a cerca de 20 km de São Mateus. O secretário afirmou que é oferecido transporte aos moradores de rua, e reconheceu que há a resistência dos moradores de rua em permanecer na região.

Sabará afirmou ainda que os CTAs de São Mateus e Santo Amaro foram escolhidos para receber os venezuelanos pela baixa procura de moradores de rua. "É uma questão humanitária, é um pedido da ONU. Do mesmo jeito que estas pessoas estão sendo ajudadas, eles também devem entender que é preciso ajudar outras pessoas também", disse Sabará.

Interiorização

O grupo de migrantes chegou por volta das 16h30 em São Mateus dentro de um ônibus do Exército. A Prefeitura restringiu o abrigamento a adultos solteiros.

Eles foram levados para dentro sem falar com a imprensa e eram direcionados por uma funcionária da prefeitura que fala espanhol.

Outros 39 venezuelanos, incluindo mulheres e crianças, foram enviados para os abrigos da Missão Paz - entidade ligada à Igreja Católica que recebe imigrantes e refugiados-, e Casa de Passagem Terra Nova, abrigo do governo estadual, ambos na região central. Um novo grupo de venezuelanos deve chegar nesta sexta-feira ao local. Um centro de acolhida em Santo Amaro também receberá os venezuelanos.

Antonio Cruz/Agência Brasil
5.abr.2018 - Refugiados venezuelanos deixam Boa Vista (RR) rumo a São Paulo

Ao lado do abrigo da zona leste, na lanchonete que atende aos passageiros, motoristas e cobradores do final de duas linhas de ponto de ônibus de São Mateus, os funcionários acompanham a movimentação sem grande expectativa com a chegada dos novos vizinhos venezuelanos.

Perguntado se já estava preparado para falar espanhol, Francisco de Almeida disse: "a gente dá um jeito e se entende".

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