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Prefeitura tira moradores de rua de abrigo na zona leste para receber venezuelanos

Talita Marchao/UOL
Venezuelanos chegam no abrigo da Prefeitura de São Paulo em São Mateus Imagem: Talita Marchao/UOL

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

05/04/2018 18h20Atualizada em 05/04/2018 20h01

Pessoas em situação de rua que pernoitavam no CTA (Centro Temporário de Acolhimento) de São Mateus, na zona leste de São Paulo, foram surpreendidas com a decisão da prefeitura de transformar o local em centro exclusivo para os 74 venezuelanos que chegaram a São Paulo nesta quinta-feira (5), no processo de interiorização comandado pelo governo federal.

O local, inaugurado em dezembro pelo prefeito João Doria (PSDB), tinha sido planejado para atender 182 moradores de rua para pernoite e disponibilizaria 50 vagas para atendimento durante o dia. No entanto, os planos foram alterados. Após passar mais de dois meses fechado após inauguração, o centro começou a atender as pessoas em situação de rua, e agora a prefeitura retirou os beneficiários para receber os venezuelanos que chegam de Roraima. 

Na segunda (2), o prefeito anunciou que o CTA a partir de agora seria exclusivo para migrantes. A prefeitura recebeu apenas homens na primeira leva de refugiados do país vizinho. De acordo com a prefeitura, os moradores de rua foram avisados na segunda-feira (2) da mudança. 

"A gente veio até aqui e não conseguiu entrar mais. Tinha tudo certinho, mas vimos as coisas chegando para os outros", reclamou Jeferson Gomes da Silva, 22, que trabalha em uma mecânica da região e usava o abrigo.

"Quando eu saia do serviço, vinha para cá. Jantava, tomava um banho e jogava um dominó". Jeferson estava acompanhado de Maurício Souza Aquino, 19, e ambos reclamavam por não conseguir entrar no abrigo.

Talita Marchao/UOL
Jeferson Gomes da Silva jantava e tomava banho no abrigo Imagem: Talita Marchao/UOL

Nesta quinta, eles estavam abrigados em uma praça nos arredores, na frente do terminal de ônibus de São Mateus, com amigos que também pernoitavam no abrigo. "Queremos ir para o mesmo lugar, somos como uma família", disse Maurício.

A reportagem viu ainda outras pessoas que buscavam o local e davam com os portões fechados. Mais de sete carros da Guarda Civil metropolitana aguardavam a chegada dos venezuelanos.

Em entrevista ao UOL, Filipe Sabará, secretário de Assistência e Desenvolvimento Social, afirmou que os moradores de rua foram encaminhados para CTAs em Guaianases e na Liberdade. O CTA de Guaianases fica a cerca de 15 km do CTA de São Mateus. Já o CTA da Liberdade, na região central de SP, fica a cerca de 20 km de São Mateus. O secretário afirmou que é oferecido transporte aos moradores de rua, e reconheceu que há a resistência dos moradores de rua em permanecer na região.

Sabará afirmou ainda que os CTAs de São Mateus e Santo Amaro foram escolhidos para receber os venezuelanos pela baixa procura de moradores de rua. "É uma questão humanitária, é um pedido da ONU. Do mesmo jeito que estas pessoas estão sendo ajudadas, eles também devem entender que é preciso ajudar outras pessoas também", disse Sabará.

Interiorização

O grupo de migrantes chegou por volta das 16h30 em São Mateus dentro de um ônibus do Exército. A Prefeitura restringiu o abrigamento a adultos solteiros.

Eles foram levados para dentro sem falar com a imprensa e eram direcionados por uma funcionária da prefeitura que fala espanhol.

Outros 39 venezuelanos, incluindo mulheres e crianças, foram enviados para os abrigos da Missão Paz - entidade ligada à Igreja Católica que recebe imigrantes e refugiados-, e Casa de Passagem Terra Nova, abrigo do governo estadual, ambos na região central. Um novo grupo de venezuelanos deve chegar nesta sexta-feira ao local. Um centro de acolhida em Santo Amaro também receberá os venezuelanos.

Antonio Cruz/Agência Brasil
5.abr.2018 - Refugiados venezuelanos deixam Boa Vista (RR) rumo a São Paulo Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil

Ao lado do abrigo da zona leste, na lanchonete que atende aos passageiros, motoristas e cobradores do final de duas linhas de ponto de ônibus de São Mateus, os funcionários acompanham a movimentação sem grande expectativa com a chegada dos novos vizinhos venezuelanos.

Perguntado se já estava preparado para falar espanhol, Francisco de Almeida disse: "a gente dá um jeito e se entende".