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Brasileira perde casa em incêndio na Califórnia: 'É como se tivessem cortado minha raiz'

Incêndio destrói casa da brasileira Luiza Black, na Califórnia - Fernanda Ezabella/UOL
Incêndio destrói casa da brasileira Luiza Black, na Califórnia Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Fernanda Ezabella

Colaboração para o UOL, em Los Angeles (EUA)

22/11/2018 04h01

A fuligem que caía do céu era um sinal claro: o fogo se aproximava. Era manhã de sexta-feira numa das regiões mais bonitas da Califórnia, numa casa na floresta de Malibu, bem perto da praia Zuma. A brasileira Luiza Florence Black, 35, acelerou o passo. Queria dar o fora dali o quanto antes para proteger a filha de oito meses do ar cada vez mais carregado de fumaça.

“Achava que ia ficar só uns dois ou três dias fora”, lembra Luiza, jornalista há 12 anos nos Estados Unidos. “Sabia o quão rápido o fogo pode se alastrar", disse Luiza, que já havia feito cobertura sobre outros incêndios. 

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Enquanto fazia a mala com algumas roupinhas da bebê, a prefeitura de Malibu ligou no telefone fixo e mandou mensagem no celular avisando para a saída obrigatória da região. “Aí o bicho pegou, caiu a ficha que a casa podia pegar fogo. E que as estradas ficariam congestionadas. Tinha que me agilizar”, disse ao UOL.

Ela conta que duas conhecidas que demoraram 40 minutos a mais para sair de casa acabaram quatro horas presas no trânsito, e os filhos foram parar no hospital com problemas respiratórios. “Agradeço todos os dias pelo instinto de sair dali o mais rápido possível”, disse, com a bebê Ella no colo, saudável.

Antes de sair, Luiza pegou documentos, duas mudas de roupa, objetos do marido, que estava viajando, além de comida e coleiras dos dois cachorros, Lola e Zé. Seus equipamentos de trabalho, como câmera e tripé, já estavam no carro. “Essa bota é a mesma que eu usava na hora”, diz a jornalista, que veio ao país como correspondente de uma revista e hoje trabalha para uma rede de televisão. 

Ela também teve tempo de deixar água para as duas galinhas, fechar as janelas e colocar rolinhos de toalha debaixo das portas para evitar entrada de fumaça. “O ideal eram toalhas molhadas, mas não deu”, diz.

O incêndio havia começado no dia anterior, em 8 de novembro, a 50 quilômetros de Malibu. No final da sexta-feira, Luiza se refugiou na casa de uma amiga com a bebê, dois cães e a sogra. O marido, dono de uma empresa de açaí, se juntou mais tarde. 

As notícias vinham aos poucos. Pela TV, viram Malibu virar um campo de guerra, com porcos, cavalos e lhamas se refugiando na praia. Souberam que o mercado local pegara fogo, assim como a casa do veterinário e um estúdio de ioga. “É uma dor comunitária. É a estrutura da sua vida que se vai”, comenta.

Dois dias depois, no domingo, veio a pior notícia, num telefonema de cinco segundos: “Sinto muitíssimo. A casa não está mais lá, não resistiu”, disse um amigo do casal antes de a ligação cair. Ele chegou ao terreno de Luiza com um bombeiro.

“É triste demais perder uma casa, é como se cortassem a sua raiz. Ainda mais quando você é imigrante. Era tudo que eu construí”, diz a jornalista, hospedada numa casa na praia de Venice, emprestada por um empresário que ajuda vítimas do incêndio.

A casa da brasileira Luiza Black, na Califórnia, antes do incêndio - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A casa da brasileira Luiza Black, na Califórnia, antes do incêndio
Imagem: Arquivo pessoal

Sua residência em Malibu era de 1950, com estrutura de madeira, três quartos, piscina e lareira. Era relativamente pequena perto do tamanho do terreno de 16 acres, que tinha ainda três trailers e três cabanas. O espaço era alugado para hóspedes, ensaios fotográficos e eventos. A renda ajudava a pagar o financiamento da propriedade, onde o casal morava havia quatro anos.

“Tenho uma história sentimental com aquele lugar. Plantei todo o jardim, fiz o deque de madeira do churrasco. Nós nos casamos ali”, conta Luiza, que nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Ela tem como hobby o estudo de ervas, que plantava em três pequenas estufas para fazer remédios naturais.

A jornalista diz que ainda tem rompantes de choro, mas mantém a calma pensando na saúde da filha e nos mais desafortunados dos incêndios, principalmente os do norte do estado, onde quase 900 pessoas estão desaparecidas e 81 morreram. 

“Estamos tranquilos no coração porque temos um ao outro. Estamos focados, meditamos todos os dias, tenho a ioga para me acalmar. É um processo, é um trauma”, diz. “Não vai ser fácil financeiramente para a gente, mas temos nossa terra, temos o seguro.”

Buda de metal, no jardim da casa de Luiza Black - Fernanda Ezabella / Colaboração UOL - Fernanda Ezabella / Colaboração UOL
Buda de metal, no jardim da casa de Luiza Black
Imagem: Fernanda Ezabella / Colaboração UOL

Dez dias depois de deixar Malibu, ela conseguiu voltar na última segunda-feira (19) para ver o estrago e levou flores para o buda de metal que tinha no meio da propriedade e que sobreviveu ao fogo.

“Ver a casa ao vivo foi uma brutalidade para o coração”, diz. “Mas a natureza é tão resiliente. A gente vai aprender a se reerguer com ela.”

Apesar do medo de outros incêndios, o casal pretende voltar a morar no terreno. “Minha filha vai crescer lá”, afirma. “Vamos construir a casa em outro lugar da propriedade e estudar qual o material mais resistente. Com certeza não vai ser de madeira.”