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Uso de remédio para prevenção do HIV divide militantes e especialistas

O Truvada é um dos medicamentos que compões o coquetel anti-retro-viral - Divulgação/iPrEx
O Truvada é um dos medicamentos que compões o coquetel anti-retro-viral Imagem: Divulgação/iPrEx

Josh Barro

24/11/2014 00h01

Os artigos recentes costumam descrever o Truvada, o novo medicamento diário que têm demonstrado reduzir em muito o risco de contrair HIV, como algo controverso. Mas eles tendem a citar um oponente específico do Truvada: Michael Weinstein, o presidente da Fundação AHF (AIDS Healthcare Foundation), com sede em Los Angeles.

Weinstein chamou o uso do Truvada para prevenir o HIV - uma prática conhecida como profilaxia pré-exposição, ou PrEP, na sigla em inglês - de "um iminente desastre de saúde pública". Ele disse que o Truvada é uma "uma droga de festa" e afirmou que seus maiores oponentes na questão foram associados à pornografia. Esta semana a fundação começou a veicular uma propaganda em jornais voltados ao público gay em todo o país com o título "E se você estiver errado sobre a PrEP?"

Weinstein aparece em muitas notícias sobre o Truvada por um lado porque ele coordena uma grande organização contra o HIV, e por outro porque dá declarações contundentes. Mas também aparece porque ele e a fundação estão mais ou menos sozinhos em seu ceticismo em relação à PrEP.

"Não há uma grande controvérsia; existe apenas uma voz que se destaca", diz Charles King, presidente do grupo sem fins lucrativos Housing Works, de combate ao HIV, e copresidente de uma força-tarefa anti-HIV nomeada pelo governador Andrew Cuomo, de Nova York. King chamou o anúncio da AHF de "um ataque direto contra os esforços do estado de Nova York para acabar com a epidemia de Aids."

O crescente coro a favor da PrEP inclui órgãos governamentais como a Organização Mundial de Saúde e os Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA; vários departamentos estaduais e municipais de saúde, incluindo os de Nova York e San Francisco; e a maioria das organizações sem fins lucrativos ligadas ao HIV que se posicionaram. Cuomo colocou a PrEP como um dos três pontos de seu plano anti-Aids.

A oposição forte de Weinstein à PrEP transformou-o talvez no homem mais odiado da comunidade de prevenção à Aids.

"Eu o considero uma ameaça à prevenção do HIV", diz Peter Staley, um ativista veterano que também atua na força-tarefa de Cuomo.

James Loduca, vice-presidente de assuntos públicos na San Francisco AIDS Foundation, comparou-o a um "cético da mudança climática".

Por sua vez, Weinstein insiste que não está sozinho. Ele diz que "uma maioria" dos especialistas com quem ele conversa concorda com sua visão de que a PrEP é uma intervenção ineficaz de saúde pública, mas eles não querem falar em público.

"Acho que as pessoas estão intimidadas", disse ele numa entrevista. "Quando veem como as pessoas que falam sobre isso são atacadas sem piedade, acho que isso tem um efeito paralisante". Ele atribui a paralisia à submissão dos ativistas à Gilead, fabricante do Truvada, que apoia os grupos sem fins lucrativos de combate à Aids. "Eles têm sido muito eficientes em comprar amigos", disse ele.

Quanto às autoridades públicas, ele diz que muitos departamentos de saúde têm se mostrado menos entusiasmados do que o CDC em relação à PrEP.

"Sei que o departamento de saúde da Flórida tem preocupações similares às nossas", disse ele. Contudo, normas estabelecidas no mês passado pelo Departamento de Saúde da Flórida dizem que "a PrEP é recomendada como parte de uma abordagem ampla à prevenção do HIV."

Weinstein e sua fundação não negam que o Truvada possa prevenir a transmissão do HIV, e os médicos que trabalham para a fundação às vezes prescrevem a PrEP. Mas eles se recusam a defender um uso mais amplo. As normas do CDC (Centro de Controle de Doenças Infeciosas) recomendam a PrEP para até 500 mil norte-americanos com alto risco de contrair HIV, a maioria deles homens que fazem sexo com outros homens. Isso seria ampliar enormemente o uso; estima-se que apenas alguns milhares de homens estejam usando PrEP sob prescrição médica.

A AHF alerta contra o uso generalizado da PrEP por dois motivos: em testes clínicos, muitos indivíduos não tomaram o Truvada com a frequência prescrita, tornando-os vulneráveis à infecção. E embora as normas do CDC orientem os pacientes de PrEP a usarem camisinha, a confiança generalizada no medicamento pode desencorajar o uso do preservativo, levando a um aumento do HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Nos anúncios veiculados esta semana, a fundação alerta que "a estratégia mal orientada do CDC de tratamento em massa com o Truvada representa um risco significativo à cultura do preservativo, que embora tenha diminuído, ainda prevalece entre os homens gays há três décadas."

Esse tipo de preocupação costuma ser expressa por gays famosos; na semana passada, o ator Zachary Quinto escreveu para o Huffington Post que "ouviu muitas histórias de jovens tomando a PrEP como uma garantia contra a tendência de fazer sexo não-monogâmico sem proteção". Mas o consenso entre os especialistas de saúde pública é que a eficácia da PrEP de prevenir a transmissão supera o risco de as pessoas não tomarem o remédio, ou de pararem de usar camisinha.

"Acho que a aderência é muito maior na vida real, especialmente para a PrEP, do que nos estudos", diz Ray Martins, diretor médico da clínica Whitman-Walker em Washington, D.C., onde aproximadamente 170 pacientes usam PrEP. Ele disse que nenhum paciente de PrEP na Whitman-Walker havia contraído HIV desde que a clínica começou a prescrever o medicamento há dois anos.

O estudo que levou à aprovação da PrEP pela Food and Drug Administration [órgão do governo norte-americano que regulamenta alimentos e medicamentos] em 2012, conhecido como estudo iPrEx, foi global, e a aderência foi muito mais alta nos Estados Unidos do que no geral, especialmente em San Francisco, onde 90% dos exames de sangue dos participantes encontraram níveis detectáveis de Truvada oito semanas depois que ele foi prescrito.

Quando a afastar as pessoas das camisinhas, os pesquisadores da iPrEx descobriram que receitar Truvada às pessoas não levou a comportamentos de maior risco. Isso pode surpreender, mas é explicado em parte pelo fato de que o uso de camisinha entre os homens gays já é precário.

Enquanto Weinstein e sua fundação temem os danos à cultura da camisinha, o fracasso dessa mesma cultura em impedir a epidemia entre os homens gays e bissexuais é uma das principais razões pelas quais os profissionais de HIV estão entusiasmados com a PrEP.

"Estou muito surpreso com o fato de que isso seja uma controvérsia", disse Martins. "Eu nunca vi uma reação tão negativa das pessoas em relação a algo que comprovadamente funciona."
 

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