Canadá constrói uma estrada para o topo do mundo, no Ártico

Peter Kujawinski*

  • Chris Miller/The New York Times

No Ártico, as estradas são mágicas. Elas aparecem no outono e derretem na primavera. Outras, curvadas pelo pergelissolo (solo congelado de forma permanente), ondulam na neve. Muitas são invisíveis a olho nu –rotas de migração de renas que existem apenas por instinto. Durante o frígido inverno sem sol, o oceano Ártico se transforma em uma vasta estrada para ursos polares e motos de neve.

Em meio a essas estradas, uma nova está sendo construída, uma faixa de 137 quilômetros coberta com cascalho nos Territórios do Noroeste do Canadá. Ela ligará a cidade de Inuvik ao vilarejo menor de Tuktoyaktuk, conhecido localmente como Tuk.

Em qualquer outro lugar, sua criação seria algo menor, o equivalente a um erro de arredondamento para os departamentos. Mas esta estrada é diferente, porque Tuk está situada no oceano Ártico. 

Ela será a única estrada pública até suas costas e vai concretizar um sonho de décadas de ligação de todas as três costas canadenses –do Atlântico, do Pacífico e do Ártico.

Quase 6.000 km de Chicago

Quando for concluída, no final de 2017, o acesso à estrada para Tuk se dará pela rodovia Dempster, que começa no Território de Yukon, perto do Alasca, seguindo no sentido nordeste, cruzando o Círculo Polar Ártico.

Dirigir dos Estados Unidos até Tuk será uma viagem épica. Partindo de Chicago, Tuk estará a pouco mais de 5.950 quilômetros de distância.

Devido à complexidade de construção no Ártico, a estrada deverá custar 299 milhões de dólares canadenses (cerca de US$ 216 milhões, ou cerca de R$ 860 milhões).

Difícil construção e manutenção

Ela percorrerá o delta do rio Mackenzie, o segundo maior da América do Norte. Começando em uma floresta boreal, passando pela tundra ártica e terminando na costa do Oceano Ártico, a estrada ficará elevada acima do pergelissolo, separada por uma camada de cascalho e mantas protetoras.

Oito pontes e 359 bueiros precisarão ser construídos, e 5 milhões de metros cúbicos de material precisarão ser movidos. A construção ocorrerá apenas nos meses de inverno, quando caminhões transportarão 40 toneladas em cargas pelos lagos congelados.

A dificuldade não termina com a conclusão da estrada. Devido à mudança climática no Ártico, é difícil prever os custos de manutenção. "Se o pergelissolo derreter em alguns lugares, a preocupação seria de a estrada afundar e se transformar em uma montanha-russa", disse Kevin McLeod, diretor da divisão de Estradas e Serviços Marinhos do Departamento dos Transportes dos Territórios do Noroeste canadenses.

Chris Miller/The New York Times

24 horas de luz solar 

A estrada fica situada na ponta norte dos Territórios do Noroeste, uma vasta extensão com quase três vezes o tamanho do Estado americano da Califórnia, com uma população de apenas 43 mil habitantes.

Esse contraste de terras e população é crucial para sua beleza extraordinária. A verdadeira natureza selvagem fica apenas a cinco minutos da cidade. A paisagem –floresta, tundra, inúmeros rios e lagos, montanhas, céu vasto– parece a última fronteira da América do Norte.

Eu visitei a área pela primeira vez como cônsul geral americano para a região central e oeste do Canadá, de 2012 a 2015. Eu estive lá durante o dia polar, um período de 24 horas de luz solar que dura do final de maio até julho.

Às 2 horas da madrugada, eu me recordo da cidade de Inuvik brilhando como se fosse meio-dia. Durante uma carreira de 18 anos como diplomata americano em locais como França, Israel e Haiti, essa vastidão ártica no vizinho Canadá foi o local mais exótico onde estive. Devido à latitude elevada e variações extremas de clima, às vezes parecia outro planeta.

Temperatura máxima média de -20ºC

Após partir do Canadá, eu continuei pensando em Inuvik e Tuk e na estrada sendo construída perto do topo do mundo.

Eu cheguei a Inuvik em um início de tarde em dezembro, cinco dias depois do sol desaparecer no horizonte. Noite polar. O sol só retornaria em 7 de janeiro. Em dezembro, a temperatura máxima média é de -20ºC. O céu parecia mais claro do que eu imaginava, uma tela monótona de nuvens cinzentas. Quando desembarquei do avião, o frio atingiu meu rosto e me encolhi sob meu casaco. Neve perfeitamente branca cobria o terreno, drapejando das árvores magras da floresta ao redor.

Com uma população de 3.265, Inuvik é a maior cidade no delta do Mackenzie. Ela fica situada no pergelissolo, a cerca de 190 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico. Isso limita a escavação do solo, de modo que os canos de água e esgoto ziguezagueiam pela cidade em corredores elevados de metal chamados "utilidors". Isso dá a essa cidade utilitária um aspecto inacabado.

Eu caminhei por Inuvik naquela noite, cercado por neve e gelo. Eles enchiam minha máscara facial, preenchiam meu campo de visão, formavam redemoinho sobre mim e formavam o chão no qual eu caminhava. Minha respiração se encapelava como fumaça, pairando imóvel por alguns poucos segundos e então começando a ascender.

Chris Miller/The New York Times

No céu acima, eu vi um arco de luz verde-escura fluorescente: a aurora boreal. Ela estava tão próxima que poderia ser uma faixa de boas-vindas pendurada entre dois postes de luz. Ela parecia levemente agitada, movendo-se em minúsculas rajadas.

Mais adiante na viagem, várias pessoas contaram sobre o alerta de seus pais sobre a aurora boreal: "Se você assoviar para ela, ela descerá e cortará sua cabeça". Do lado de fora do Mackenzie Hotel onde fiquei hospedado, a temperatura era de -25ºC.

Inuvik é o assentamento mais ao norte no Canadá cujo acesso é possível o ano todo por uma estrada, pelo menos até Tuk assumir esse título. Entretanto, a posição dominante de Inuvik no norte dificilmente mudará, já que também é o centro administrativo e de governo da área.

Estrada de gelo de dezembro a abril

De Inuvik eu esperava viajar para Tuk pela estrada de gelo, mas todos disseram que ela ainda não estava aberta. Por gerações, a estrada de gelo foi a linha vital de inverno de Tuk, permitindo aos seus moradores dirigir para comprar gasolina mais barata, leite mais barato e usar as instalações maiores de recreação de Inuvik.

Ela serpenteia pela foz do rio Mackenzie e contorna o Oceano Ártico até Tuk, abrindo em algum momento em meados de dezembro e fechando geralmente no final de abril.

A sorte estava ao meu lado. A estrada de gelo abriu oficialmente no dia em que eu planejava viajar por ela. Eu a percorri pela primeira vez em abril do ano passado, durante uma viagem ao festival de primavera de Tuk, conhecido como Beluga Jamboree (celebração da baleia-branca).

É uma sensação estranha estar em uma estrada que desaparecerá com a aplicação contínua de calor. O gelo formado é de cor azul ardósia, intercalado por faixas pretas. Finas rachaduras aparecem por toda parte e não ajudava ficar olhando para elas. Especialmente por ter cometido o erro de saber a profundidade média desta seção do Oceano Ártico: cerca de 1.000 metros.

Para as pessoas que vivem em Tuk e Inuvik, a estrada de gelo não é nada enervante. Ela é larga, sólida e parte de sua rotina normal. Todos me disseram que era segura, apesar dessas garantias serem salpicadas por casos perturbadores, como o do caminhoneiro que encostou para fazer uma pausa, ouviu um estrondo e saltou para fora da cabine a tempo de ver seu caminhão mergulhar no oceano.

Chris Miller/The New York Times

Estradas mágicas

Não aconteceu nada durante minha viagem pela estrada de gelo. Era tarde da noite quando finalmente cheguei em Tuk (965 habitantes), uma série de casas pré-fabricadas separadas por postes de luz esporádicos e montes de neve. 

Apesar da população pequena, a aldeia inuit de Tuk tem proeminência desproporcional, talvez por causa de sua localização e história. Ela fica próxima das rotas de migração de renas e ursos polares, e as águas estão repletas de baleias-brancas, focas e peixes. Os pingos, colinas de terra cobertas de gelo com dezenas de metros de altura, pontilham a paisagem sem árvores.

Durante a Guerra Fria, a estação de radar Distant Early Warning (DEW) Line (algo como Linha Remota de Alerta Prévio) rastreava aviões soviéticos de um promontório próximo. A estação permanece ativa, apesar de agora ser controlada à distância.

Quando baixei meus olhos para a terra, vi o piscar silencioso dos caminhões de construção na estrada para Tuk. Apesar de entender por que alguns apreciam a construção da estrada, senti uma pontada de tristeza por algo feito pelo homem e permanente cortar a paisagem natural.

Neste extremo norte, as estradas são mágicas. Enquanto uma derrete no mar, outra é erguida pelo pergelissolo para tomar seu lugar.

*Peter Kujawinski é escritor e jornalista freelancer. É co-autor do romance adulto "Nightfall" (Anoitecer, em tradução livre)

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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