Os medos e confidências de um oficial sírio antes de cair nas mãos do EI

Anne Barnard e Hwaida Saad

Em Beirute (Líbano)

  • Estado Islâmico/AP

    Palmira, cidade histórica dominada pelo EI onde Abu al Majd teria sido morto

    Palmira, cidade histórica dominada pelo EI onde Abu al Majd teria sido morto

Nossa correspondência foi incomum, às vezes engraçada, e se desenrolou durante mais de um ano. Abu al Majd, um policial sírio que com frequência era mobilizado como soldado, enviava mensagens a qualquer momento, com notícias das linhas de frente e resmungos sobre o tédio, patrulhas sob o sol tórrido, queixas às vezes pontuadas por expressões de terror, orgulho ou dúvida.

Para nós, era uma janela crítica para a guerra desenfreada na Síria, que muitas vezes éramos obrigados a acompanhar de longe. Para ele, parecia, mais que nada, uma conexão com pessoas que viviam fora da claustrofobia da guerra, mas se importavam com o que estava acontecendo.

Em 19 de maio do ano passado, Abu al Majd enviou algumas fotos. Uma delas o mostrava de uniforme, fumando um narguilé e começando a sorrir, como se um amigo estivesse chegando; duas xícaras de café turco ainda fumegavam sobre a mesa.

Ele estava prestes a embarcar em um ônibus para Palmira, a cidade no deserto sírio que estava em processo de cair sob o Estado Islâmico. Muitos soldados do governo tinham fugido, mas Abu e algumas dezenas de outros haviam recebido ordens para lutar o que ele considerava uma batalha perdida.

Ele tinha tirado as fotos especialmente. "Estas talvez sejam as últimas fotos", escreveu na mensagem.

Não tivemos mais notícia dele. Seis semanas depois, seus pais receberam um telefonema de um homem que se identificou como militar e advertiu: "Não tenham esperanças". E desligou. Eles foram a um departamento de segurança, onde um burocrata lhes entregou um papel que dizia: "Desaparecido".

Conhecemos Abu al Majd há mais de um ano, em uma viagem de reportagem a Palmira em abril de 2014. Estávamos entre os últimos jornalistas internacionais que visitaram a cidade e suas imponentes ruínas antigas, algumas das quais foram depois explodidas pelo EI. Ele tinha então 24 anos e fazia parte de um grande "séquito" destinado a nos proteger --e monitorar.

Palmira, também conhecida como Tadmur, tinha perdido sua principal fonte de renda, o turismo, e em sua malha de ruas com blocos de concreto os homens passavam horas sentados, sem ter o que fazer. Para jovens oficiais como Abu, nossa visita era uma rara diversão. Nas ruínas, eles subiam nos grandes blocos de calcário, fazendo poses jocosas.

Um mês depois, Abu al Majd fez contato só para dizer "alô". Mais tarde se abriu, falando sobre as coisas de que sentia falta, como toranjas e uvas do solo vulcânico da aldeia ancestral de sua família nas colinas do Golã.

Conforme a conversa se aprofundou, ele oscilava entre o orgulho por cumprir o dever nacional e o medo, tédio e até raiva das injustiças e da incompetência que via na condução da guerra pelo governo.

Abu al Majd --usamos seu apelido para proteger sua família--, filho de um pequeno oficial do Exército aposentado, era leal ao governo, mas não alguém que enchesse sua página no Facebook de bandeiras sírias, fotos de rebeldes mortos ou promessas de fidelidade ao presidente Bashar al-Assad. Ele publicava principalmente fotos de seus amigos e sobrinhos.

Tinha entrado para uma unidade da polícia regular pelo menos um ano antes da rebelião. Mas, conforme a guerra pressionou o Exército, muitas unidades de polícia foram enviadas ao combate. Abu foi mobilizado para postos de controle na linha de frente e em patrulhas contra a atividade rebelde a leste da cidade de Homs, no centro do país, perto de Palmira.

Quando tinha folga, ia para casa em Damasco. Invejava os soldados que serviam na capital, que podiam beber, sair com mulheres e desfrutar da eletricidade mais ou menos regular, "como se estivessem na Europa", disse ele certa vez.

Abu confidenciou que se consolava com a música do artista pop libanês Wael Kfouri. Um de seus versos favoritos era: "Eu gostaria de lhe trazer um presente do tamanho do meu amor".

Ele compartilhou uma lembrança de 2012 que o assombrava. Falava ao telefone com um amigo cuja posição estava sendo atacada por rebeldes. "Eu pude sentir que batiam à porta dele", lembrou Abu. "Sabe aquela sensação de que alguém que você conhece, e de quem gosta muito, será morto em alguns minutos, e você não sabe o que fazer?"

Apesar de suas frustrações, Abu al Majd achava que "não devemos nos voltar contra nosso governo, não importa o que faça"."Não há nada chamado 'com' ou 'contra' Bashar", explicou ele, referindo-se ao presidente. "Há uma coisa chamada patriotismo, nacionalismo, lealdade --algo chamado 'somos sírios e devemos defender nosso país'. Ou você está com o Estado ou com os grupos terroristas."

Abu estava de folga em Damasco quando os extremistas chegaram perto de Palmira; sua mãe tentou mantê-lo ali escondendo sua carteira de identidade. Ele pensou em pedir transferência, testando a sinceridade de uma declaração presidencial alguns meses antes que dava aos homens a opção de servir perto de casa.

"Não sou um covarde, mas um ser humano que às vezes fica assustado", disse, acrescentando, como se buscasse aprovação: "Estou certo?"

Mas no dia seguinte ele decidiu voltar. Logo soube que sua unidade seria enviada a Palmira; os comandantes disseram que relatariam qualquer um que não comparecesse.

"Estou cometendo suicídio", disse-nos Abu al Majd. "Estou caminhando com meus próprios pés para a morte, mas não posso fazer nada. Não me perguntem a que horas partirei; detesto essa pergunta. Gostaria de não acordar amanhã."

Suas mensagens estremeciam de ansiedade.

16 de maio: ele compartilhou a postagem de um amigo no Facebook: "Oh Deus, pátria, nossos heróis vivem em túmulos, e seus ladrões em castelos".

17 de maio: ele chega a Homs e vai a uma vidente. Ela diz que ele iria para um lugar agradável, "verde, cheio de árvores". O paraíso?

18 de maio: adiamento. Minas terrestres na estrada de Palmira obrigam seu ônibus a voltar.

19 de maio: as últimas fotos.

Depois, nada.

Outro policial, famoso por torturar suspeitos, descreveu a caminhada durante um dia e meio pelo deserto para alcançar lugar seguro. Antes de fugir, disse ele, tinha visto Abu no aeroporto militar, ferido na perna e no ombro.

Foi em 23 de julho que soubemos pela família de Abu que ele estava oficialmente desaparecido. Eles desistiram de saber mais pelas autoridades e, supondo que estivesse morto, receberam os amigos e suas condolências.

Nós queríamos saber mais. Nos meses seguintes, contatamos dois policiais que haviam estado com Abu al Majd até o fim e três moradores de Palmira que testemunharam seu destino, e comparamos as notícias com as de seus parentes.

Em 19 de maio, cerca de 60 oficiais e soldados tinham embarcado em ônibus não blindados com destino a Palmira, com jaquetas à prova de balas, mas sem armas. Abu estava aterrorizado, mas não tinha certeza de que punição poderia enfrentar em um país onde as pessoas podiam ser presas e simplesmente desaparecer. Também estava aterrorizado de não ir.

"Ele ficou ligando o tempo todo do ônibus: 'Nós vamos morrer', repetia essas palavras", lembrou um de seus amigos policiais. "Eu lhe disse para dar uma desculpa ao motorista, como que queria comprar cigarros, e então fugir, mas ele não me escutou".

O ônibus deixou os homens no aeroporto militar nos arredores de Palmira, que foi atacado naquela noite. Muitos morreram, outros fugiram. Abu al Majd se escondeu na casa de uma família conhecida.

Mas o EI ameaçava matar qualquer pessoa que abrigasse um combatente do governo. Depois de oito dias, Abu sentiu que não podia mais pôr seus anfitriões em perigo e fugiu pela rua, com uma túnica emprestada e calças largas, tentando passar por um morador. Passou despercebido até a hora da oração.

Na rua lá fora, os militantes anunciaram sua prisão, usando seu nome completo.

"Eu vi dez combatentes do EI com seus rostos horríveis, um segurando a espada", contou-nos mais tarde uma moradora. "Eles o decapitaram na nossa frente."

No mês passado, parentes contaram que autoridades de segurança lhes disseram que tinham um vídeo da morte, mas não o ofereceram.

"Eu culpo o governo", disse um parente. "O que 200 soldados podem fazer contra 2.000 do EI? Não tenho problemas com a morte, mas com o modo como ele morreu."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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