Opinião: O Estado Islâmico de Molenbeek

Roger Cohen

Em Bruxelas (Bélgica)

  • VTM/Reuters

    Imagem de vídeo mostra momento em Salah Abdeslam é preso por policiais belgas, em Molenbeek, próximo a Bruxelas (Bélgica)

    Imagem de vídeo mostra momento em Salah Abdeslam é preso por policiais belgas, em Molenbeek, próximo a Bruxelas (Bélgica)

Um distrito da Bruxelas na prática se separou da Bélgica. A Europa precisa travar uma batalha ideológica contra o Islã wahabista

Há caminhões militares estacionados em Molenbeek e soldados com metralhadoras patrulham as ruas tensas do distrito de Bruxelas, epicentro do terrorismo europeu dos últimos meses. Na Place Communale, jovens ociosos passam de forma indolente, lançando olhares para a polícia. É aqui onde os ataques em Paris e Bruxelas, com seus 162 mortos, se cruzam.

Salah Abdeslam, o único participante direto sobrevivente dos ataques em Paris, se escondeu em Molenbeek antes de sua prisão em 18 de março. Abdelhamid Abaaoud, o suspeito de ser o planejador chefe dos ataques em Paris, morou em Molenbeek. Ao todo, pelo menos 14 pessoas ligadas a ambos os ataques eram belgas ou viveram na Bélgica.

Uma delas é Mohamed Abrini, um belga de origem marroquina que cresceu em Molenbeek e foi preso em Bruxelas na sexta-feira. Ele contou à polícia que é "o homem de chapéu" pego pelas câmeras de vigilância saindo do aeroporto de Bruxelas após dois cúmplices terem detonado a si mesmos em 22 de março.

As câmeras também o registraram em Paris em novembro passado com os responsáveis pelo ataque à cidade.

A pacata Bruxelas: adeus a essa imagem. Mas mesmo hoje há algo soporífero a respeito desta cidade de língua francesa ilhada dentro da Flandres de língua flamenga, assolada por divisões administrativas e linguísticas e pela letargia que deriva delas, lar de uma população imigrante mal integrada de origem principalmente marroquina e turca (41% da população de Molenbeek são muçulmanos), assim como sede de importantes instituições de uma desgastada União Europeia.

É difícil resistir ao simbolismo do Estado Islâmico estabelecendo uma base para seus desígnios homicidas na chamada capital da Europa, em um momento em que a ideia europeia está mais fraca do que em qualquer momento desde os anos 50.

Os jihadistas adoram um vácuo, como demonstra a Síria. A Bélgica como Estado, e a Bélgica como coração da União Europeia, são o mais próximo de um vácuo oferecido pela Europa atualmente.

A Bélgica, uma mistura confusa de três regiões (Flandres, a Valônia de língua francesa e Bruxelas), três comunidades linguísticas (flamengo, francês e alemão) e um governo federal fraco, é disfuncional.

Essa disfunção encontra sua expressão mais poderosa na capital, onde a geografia flamenga e a cultura francesa não se alinham. O colapso administrativo assume proporções críticas em Molenbeek, a segunda comuna mais pobre do país, com 36% das pessoas com menos de 25 anos desempregadas.

Como notou recentemente Julia Lynch no "The Washington Post", o radicalismo em Molenbeek não é novo. Ele foi "lar de um dos responsáveis pelos ataques a bomba de 2004 aos trens de Madri e do francês que atirou em quatro pessoas no Museu Judaico em Bruxelas, em agosto de 2014. O atirador marroquino no trem Thalys Bruxelas-Paris, em agosto de 2015, permaneceu no apartamento de sua irmã lá".

Isso é um ultraje. A Bélgica dividida perdeu o controle sobre Molenbeek. Um distrito altamente muçulmano de Bruxelas na prática se separou do país. Se essa fosse a extensão do problema, seria grave. Mas Molenbeek é apenas a manifestação mais aguda de um fracasso europeu.

A imigração em grande escala da Turquia e do Norte da África iniciada há meio século, em um momento de boom econômico leva, em um momento de estagnação econômica, a quase guetos em muitas cidades europeias e arredores, onde os descendentes desempregados desses imigrantes às vezes são radicalizados por clérigos wahabistas.

Como alertou recentemente o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, uma minoria extremista está "vencendo a batalha ideológica e cultural" dentro do islã francês.

O fato de os jihadistas (com frequência treinados na Síria) serem uma minoria e de que muitos muçulmanos que imigram para a Europa levam vidas bem-sucedidas e integradas serve de pouco consolo.

Após a carnificina em Paris e Bruxelas, a abordagem "laissez-faire" que permitiu que esses clérigos fizessem proselitismo, que escolas muçulmanas privadas se multiplicassem na França, que as prisões servissem como incubadoras de jihadismo, jovens seguissem para terras do Estado Islâmico na Síria e voltassem, e distritos como Molenbeek ou Schaerbeek caíssem em um vácuo de negligência, precisa acabar.

Uma melhora do trabalho de inteligência não basta. Há uma batalha ideológica em andamento; ela precisa ser travada nesse nível, onde até agora foi perdida. As comunidades muçulmanas moderadas da Europa precisam fazer muito mais.

A Europa, da qual Bruxelas é um símbolo, exibe no momento uma imagem alarmante. Os holandeses, suscetíveis à propaganda da Rússia, acabaram de votar em um referendo contra um acordo comercial com a Ucrânia pelo qual mais de 100 ucranianos morreram no levante de 2014. Os britânicos votarão em junho se deixarão a União. O euro minou economias insuficientemente integradas para a moeda comum. Um imenso afluxo de refugiados levantou dúvidas sobre uma Europa sem fronteiras. O presidente Putin planeja diariamente o pior que pode fazer à União Europeia.

Há um vácuo. Vácuos são perigosos. A resposta é uma Europa reformada, revigorada e mais forte, não o tipo de divisão que produziu Molenbeek, um microcosmo do que a fragmentação pode causar.

Meus dois filhos mais velhos nasceram em Schaerbeek. Minha filha, agora uma médica no Novo México, deu alguns de seus primeiros passos no aeroporto de Bruxelas. Essa não é a Europa que imaginei para eles.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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