Doença mental de irmão influenciou visões de Kasich

Trip Gabriel

Em Pittsburgh (EUA)

  • Trip Gabriel/The New York Times

    Richard Kasich, irmão de John Kasich, governador de Ohio e pré-candidato republicano à Presidência dos EUA, em Pittsburgh, na Pensilvânia

    Richard Kasich, irmão de John Kasich, governador de Ohio e pré-candidato republicano à Presidência dos EUA, em Pittsburgh, na Pensilvânia

O governador de Ohio, John Kasich, fala com frequência sobre saúde mental em sua campanha para presidente. Ele defendeu sua decisão de expandir o Medicaid em seu Estado salientando seus benefícios aos residentes que têm doença mental.

Ele é provavelmente o único candidato republicano neste ano que perguntou a uma multidão: "Vocês sabem como é alguém que vive com depressão?"

A pergunta, feita recentemente em um comício no interior de Nova York, provocou um murmúrio em uma sala com mil pessoas. Kasich continuou: "Há pessoas aqui que sabem exatamente do que estou falando".

Kasich é um dos que sabem.

Seu único irmão, Richard, 59, luta com transtornos de depressão desde a época da faculdade. Ele foi internado algumas vezes e hoje recebe benefícios como incapacitado por doença mental.

Os irmãos Kasich tomaram caminhos totalmente diferentes a partir de sua cidade natal, McKees Rocks, na Pensilvânia, um subúrbio industrial de Pittsburgh.

John Kasich, 63, começou a carreira política aos 26 como a pessoa mais jovem eleita para o Senado estadual de Ohio. Rick Kasich, que esperava ser um advogado, sofreu um colapso na Universidade Estadual da Pensilvânia (Penn State) e acabou lavando pratos em uma lanchonete ao deixar os estudos.

John Kasich serviu 18 anos na Câmara dos Deputados e é governador de Ohio por dois mandatos. Rick Kasich --que soube que tinha depressão maníaca, um nome antigo para o transtorno bipolar, depois de uma internação em um hospital de Michigan-- trabalhou por mais de 20 anos carregando caminhões em uma agência do correio de Pittsburgh.

Para um de seus eventos políticos na segunda-feira, véspera da primária na Pensilvânia, John Kasich voltou a McKees Rocks, onde ficou conhecido por dar abraços e falar em "tirar as pessoas das sombras".

Seu senso geral de empatia na campanha faz parte de sua atração para os republicanos moderados. Mas as pessoas que trabalharam com John Kasich, incluindo assessores, aliados políticos e militantes pela saúde mental, dizem que é provável que tenha vindo em parte de sua experiência pessoal --e, como para milhões de famílias americanas que lidam com a doença mental, essa experiência muitas vezes foi difícil.

Os irmãos não se falaram durante 19 anos. Embora estejam reconciliados há uma década, sua comunicação pode ser tensa, segundo descreve Rick Kasich.

"Ele não tem muito a ver comigo, e eu não tenho muito a dizer sobre ele", disse Rick em sua primeira entrevista prolongada à imprensa.

Ele disse que assistiu durante cinco minutos a um debate republicano antes da primária de Ohio, mas não prestou muita atenção na campanha de seu irmão. Disse que não pretende participar dos comícios em McKees Rocks.

Handout/The New York Times
Foto de família cedida por Richard Kasich mostra seus pais Anne e John e os filhos, da esquerda para a direita, Donna, John e o próprio Richard

As pessoas que trabalharam estreitamente com John Kasich têm uma vaga consciência de seu irmão, mas o governador nunca fala sobre ele na campanha e não quis dar entrevista a respeito.
Sua campanha enviou uma declaração em nome de John Kasich e de outros parentes:

"Amamos Rick profundamente e partilhamos as lutas que sua doença acarreta. Como sabem as famílias que têm um ente querido com doença mental, você enfrenta um dia de cada vez, e alguns dias são melhores que outros. No processo, todos nos sensibilizamos e apoiamos as necessidades dos que vivem com essa doença. Uma das maneiras de apoiá-lo é trabalhar duro para proteger sua privacidade, e esperamos que os outros também respeitem isso."

Com cabelos grisalhos abaixo dos ombros e óculos escuros que raramente tira, Rick Kasich falou com um repórter diante de um café em Pittsburgh na semana passada, jogando bitucas de cigarro consecutivas em um copo com água. Ele concordou em dar a entrevista e falou à vontade sobre sua doença mental e seu relacionamento com o governador, assim como sobre sua vida e suas décadas nessa região.

A família dos irmãos era estável, senão rica. Os maiores bens de seus pais eram títulos de poupança dos EUA. Sua casa foi avaliada em US$ 56.500 em 1987, quando o casal morreu em um acidente de automóvel.

Antigos professores colegiais disseram que John foi um de seus melhores alunos em décadas, destacando-se em oratória. Rick Kasich disse que nunca se sentiu à sombra do irmão, o qual foi para a faculdade no ano em que Rick entrou na nona série.

Na Penn State, lembrou Rick Kasich, ele teve aulas de filosofia e se interessou por Immanuel Kant. Também desenvolveu um amor eterno por Bob Dylan e Crosby, Stills, Nash & Young, artistas que até hoje ouve regularmente.

"Eu senti um colapso nervoso em meu ano de calouro, na primavera de 1975", disse ele. "Eu soube que não seria mais um advogado."

Quando jovem, ele se tornou um cristão renascido, e passa as manhãs gravando músicas ou pregações evangélicas do rádio com um gravador de fita cassete.

"Fiz 101 fitas desde o começo do ano", disse. "Elas são numeradas e datadas."

Os dois Kasich (eles também têm uma irmã mais moça, Donna) são parecidos em gestos, em seus rostos ovais e em sua expressividade às vezes brusca.

Ambos também usam sua fé como emblema. Rick Kasich tinha um exemplar de bolso de versículos da Bíblia na mesa ao seu lado, com anotações das datas em que leu as passagens que mais o marcaram.

"Meu irmão pregou para os judeus ortodoxos em Nova York", disse Rick, referindo-se a uma recente aparição em uma sinagoga em Long Island, da qual seu irmão lhe havia contado, segundo Rick. "Estou muito orgulhoso dele."

Aaron P. Bernstein/Reuters
O governador de Ohio, John Kasich

Diversas vezes, porém, ele mencionou a origem da animosidade com o irmão, que em sua mente começou com a trágica morte de seus pais. Quando saíam de uma lanchonete do outro lado do rio Ohio, John e Anne Kasich, ambos com 67 anos, foram atingidos por um motorista embriagado.

No palanque, seu filho John cita frequentemente o acidente como uma parte devastadora de sua vida, à qual ele sobreviveu por meio do redespertar da fé cristã.

Para Rick Kasich, foi algo mais. Seus pais haviam colocado John no controle da parte de Rick no espólio, que chegava a US$ 300 mil, aparentemente porque os pais se preocupavam com a estabilidade mental de Rick.

Quando John vendeu a casa da família, onde Rick queria morar, ele ficou furioso. Disse que contratou um advogado para contestar o testamento e conseguiu ganhar sua parte da herança. Ele e sua mulher, Andrea, a usaram para comprar um sobrado com janelas de vitrais por US$ 103 mil, perto da Universidade Carnegie Mellon.

"Meu irmão me disse: 'Se você me processar, não falarei mais com você'", disse Rick Kasich, em sua versão dos fatos. Nos 19 anos seguintes, conforme John Kasich subia no Congresso, disputava rapidamente a Presidência em 1999 e entrava no setor privado como banqueiro, eles não se falaram.

Apesar de Rick Kasich ter bebido muito depois da morte dos pais, segundo ele agora está sóbrio há vários anos.

Mas em 2006, quando sua mulher morreu, contou Rick, um advogado lhe disse para procurar seu irmão.

"Eu telefonei para ele", disse Rick.

"Tenho rezado por você", respondeu John, segundo seu irmão.

Nos palanques e nos debates, John Kasich é o único candidato republicano que costuma citar a doença mental.

Desafiado em um debate sobre por que expandiu o Medicaid sob a Lei de Acesso à Saúde, decisão que enfureceu os conservadores, Kasich respondeu: "Eu tive uma oportunidade de trazer recursos de volta a Ohio para fazer o quê? Para tratar os doentes mentais. Há 10 mil deles em nossas prisões."

No interior de Nova York, sua menção à prevalência da depressão foi em resposta a uma pergunta da plateia sobre controle do preço dos medicamentos.

Os laboratórios afirmaram que suas receitas pagam pelo desenvolvimento de novos medicamentos, e Kasich disse à multidão que ele não queria fazer nada para impedir essas pesquisas. "O modo como descreveram para mim é como acordar todos os dias preso no piche", disse ele sobre a depressão. "E para essas pessoas é realmente difícil."

Rick Kasich disse que uma droga, o Abilify, foi útil para administrar seu atual diagnóstico, transtorno esquizo-afetivo, que ele chamou de "um monte" de sintomas de esquizofrenia e depressão. Ele acrescentou rapidamente que não é esquizofrênico.

Enquanto bebericava o café, Rick disse que costumava ter acessos de pânico, mas que sua atual medicação os suprime. Ele disse que abraçar o cristianismo também teve uma influência positiva.

"Eu fui salvo", afirmou. "Parecia me ajudar."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos