Repórter relata operação para assistir a concerto russo na Síria: "traga colete à prova de balas"

Andrew E. Palmer

Em Palmira (Síria)

  • Olga Balashova/Russian Ministry of Defence/Divulgação/Reuters

Para um russo, não há hora ou lugar errados para um concerto de música clássica.

E para o concerto nas antigas ruínas desta cidade síria devastada pela guerra, apresentado na semana passada pela Orquestra do Teatro Mariinsky, a principal da Rússia, o convite veio de modo tão improvável quanto o próprio espetáculo.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia ligou para o meu celular em uma manhã de sábado: prepare-se para voar à Síria dentro de alguns dias. Não podemos lhe dizer mais. Mas há um código de vestimenta. Traga um colete à prova de balas.

Assim começou a última faceta da intervenção militar russa na guerra civil da Síria, intervenção esta que foi caracterizada pelo subterfúgio e os equívocos desde seu início, em setembro. Foi quando o mundo soube que 76 aviões de transporte gigantes Ilyushin que voavam da Rússia à Síria estavam carregados de ajuda humanitária, quando na verdade levavam soldados e suprimentos militares.

Os ataques aéreos começaram. Os russos disseram que seus aviões visavam os terroristas; segundo os governos ocidentais, porém, o verdadeiro objetivo era apoiar o governo do presidente Bashar al Assad, aliado de Moscou.

Em março, o presidente russo, Vladimir Putin, declarou que a operação estava concluída, contudo pelo menos centenas de soldados e dezenas de aeronaves permaneceram no país.

A cortina se abriu, pelo menos um pouco, sobre a empreitada russa na Síria quando o avião da imprensa russa pousou de madrugada num dia da semana passada na base aérea do Kremlin na cidade costeira de Latakia.

Cerca de cem repórteres estrangeiros baseados em Moscou surgiram, piscando sob o sol, e foram recebidos pelos soldados russos no deserto. Rostos eslávicos queimados pelo sol espiavam sob os capacetes marrons.

A turnê da batalha da Rússia para conquistar aprovação na Síria começou em uma tenda, onde uma fileira de animadas mulheres de meia-idade enviava "kasha" e "tushonka", a forma russa de spam.

Um grupo de soldados, usando shorts e camisetas azuis, jogava vôlei e esmurrava sacos de boxe para as câmeras de televisão.

Andrew E. Kramer/The New York Times
Membros de tripulação da base aérea russa em Latakia, na Síria

Um homem foi colocado em um contêiner de navio transformado em biblioteca, com o nariz enfiado em uma enciclopédia de medalhas militares russas, como se ele tivesse de repente decidido estudar enquanto as câmeras gravavam.

"A defesa é um sistema de meios políticos, econômicos, sociais, jurídicos e militares", dizia uma placa na parede, parecendo ilustrar o modo de guerrear moderno russo que estávamos presenciando.

Às vezes chamada de guerra híbrida depois da intervenção na Ucrânia em 2014 que trouxe à luz essas táticas, é uma doutrina de diplomacia e mensagens estreitamente integradas --incluindo a arte do engano militar chamada "maskirovka"--, juntamente com a força convencional, em ação hoje na Síria.

Essa estratégia valoriza o chamado poder brando. Na Síria, porém, o poder duro à moda antiga também é abundante.

A base aérea é um cenário panorâmico, cheio de helicópteros e aviões. Veículos blindados e caminhões russos ocupam grandes áreas de estacionamento. Apesar do declarado fim de sua presença aqui, não havia sinal de partida iminente. Durante nossa visita, uma equipe síria depositava asfalto novo para abrir espaço para mais veículos.

No entanto, a Rússia, assim como os EUA tentaram no Iraque, também vem tentando navegar pelos redemoinhos da política local da guerra.

Os repórteres foram conduzidos por um "centro de reconciliação", onde uma dezena de oficiais russos recebe ligações de unidades armadas que desejam aderir ao cessar-fogo anunciado em fevereiro e as ajudam a negociar tréguas locais com o Exército sírio.

Um televisor de tela plana pendurado na parede mostrava a imagem estática de uma pomba com um ramo de oliveira e a bandeira síria.

Para ilustrar suas iniciativas de paz, os militares russos trouxeram o grupo de imprensa de ônibus à aldeia empoeirada de Kawkab, na província de Hama, a cerca de 110 km da ainda aguerrida cidade de Aleppo e perto de uma linha de frente.

Em uma grande tenda verde montada em um mercado destruído, militares sírios assinaram um acordo de cessar-fogo com os líderes da aldeia. Depois, através de uma abertura no fundo da tenda, surgiram jovens com capuzes vermelhos e brancos cobrindo o rosto, que seriam os militantes islâmicos da aldeia que acabavam de se reconciliar.

Com os oficiais russos observando de seus assentos, em cadeiras de jardim de plástico branco, os rapazes jogaram fuzis Kalashnikov muito usados sobre uma mesa, entregando suas armas, depois colocaram a impressão do polegar em uma folha de papel.

Os militares russos dizem que já conduziram mais de 90 dessas cerimônias em cidades e aldeias desde fevereiro, reconciliando mais de 7 mil ex-rebeldes, e que esse trabalho, não apenas os ataques aéreos em apoio às força de Assad, é vital para sua presença.

Não ficou claro, porém, quem havia se reconciliado com quem nessa cerimônia.

Questionado por meio de um intérprete militar russo sobre quando havia passado para o lado do governo, um dos líderes da aldeia que assinou o acordo, Akhmed Mubarok, pareceu confuso. Ele disse que nunca esteve em outro lado.

O tempo todo, não houve uma palavra de confirmação sobre o concerto em Palmira, a cidade famosa por suas ruínas das civilizações romana e do Oriente Próximo que esteve nas mãos do Estado Islâmico até o início deste ano.

Essa era uma operação militar, envolta em sigilo, para inserir não somente os jornalistas, mas três contrabaixos, violoncelos e outros instrumentos e musicistas de São Petersburgo na cidade na linha de frente síria.

Após uma partida de madrugada da costa mediterrânea, helicópteros russos com artilharia zumbiram no céu enquanto comboios de ônibus, com a imprensa e a seção de cordas, dirigia para leste pelo deserto sírio.

Mais tarde, o secretário das Relações Exteriores britânico, Philip Hammond, criticou o concerto como uma "tentativa de mau gosto de distrair a atenção" do sofrimento dos sírios, e comentou que um ataque aéreo a um campo de refugiados naquele dia havia matado 28 pessoas. A Rússia negou que seus aviões tivessem bombardeado o campo.

Mas o concerto foi simples e incrivelmente lindo, e se desenrolou quando o sol poente baixava, iluminando as ruínas.

Valery Gergiev, diretor do Mariinsky, disse que escolheu as peças por suas emoções otimistas, a ser executadas no mesmo palco onde os militantes do Estado Islâmico tinham filmado no último verão o vídeo de uma execução em massa.

"Protestamos contra a barbárie que destruiu monumentos maravilhosos da cultura mundial", disse Gergiev. "Protestamos contra a execução de pessoas aqui neste palco."

Apresentado em um anfiteatro romano do século 2º, foi um concerto único --e certamente pôs em risco algumas vidas no caminho. As linhas do EI estariam a cerca de 15 km de distância; a artilharia troava quando os ônibus chegaram.

Depois, os sons mais delicados de Pavel Milyukov tocando a "Chacona para Violino Solo" de Johann Sebastian Bach ecoaram pelo espaço fantasmagórico do deserto.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos