Cientistas usam cachorros para buscar respostas para uma vida mais longa

Amy Harmon

Em Seattle (EUA)

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Bela, a cachorra de Lynn Gemmell, passeia de carro em Seattle

    Bela, a cachorra de Lynn Gemmell, passeia de carro em Seattle

Desde o verão passado, quando a cadela de Lynn Gemmell foi induzida a testar uma droga que aumentou de modo significativo a vida de ratos de laboratório, ela é objeto de intensa curiosidade entre os frequentadores de parques para cães.

Alguns insistem que Bela, 8 anos, voltou a ser um filhote --"Vejam como ela pega a bola depressa!"--, mas Gemmell tenta não dar atenção. Principalmente porque Bela, uma mestiça de border collie com pastor australiano, pode ter recebido um placebo.

A droga rapamicina, que melhorou a saúde cardíaca e parece ter retardado o início de algumas doenças em ratos mais velhos, talvez não exerça a mesma magia em cães, porém. E também há a possibilidade de que faça mais mal que bem. "Isto é só para procurar efeitos colaterais nos cães", disse Gemmell aos muitos fãs de Bela.

Tecnicamente, é verdade. Mas também representa uma nova fronteira nos testes de uma proposta para melhorar a saúde humana: em vez de buscar tratamentos para as diversas doenças que surgem com a idade, seria melhor visar a biologia que está por trás do próprio envelhecimento.

Enquanto as doenças que hoje matam mais pessoas nos países desenvolvidos --doença cardíaca, derrame, mal de Alzheimer, diabetes, câncer-- têm causas imediatas diferentes, a idade é o principal fator de risco de todas elas.

Isso significa que mesmo grandes avanços nessas áreas, por mais que sejam vitais para os indivíduos, produziriam em média mais quatro ou cinco anos de vida, segundo epidemiologistas, e alguns deles provavelmente afetados pela doença.

Uma droga que desacelera o envelhecimento, pela lógica, poderia servir para retardar o início de várias doenças ao mesmo tempo. Um punhado de drogas testadas por laboratórios financiados pelo governo americano nos últimos anos parece prolongar a vida saudável em ratos, e a rapamicina, aprovada pela Administração de Alimentos e Drogas (FDA) para tratar pacientes de transplante de órgãos e alguns tipos de câncer, até agora se mostrou a mais eficaz.

Em um estudo de 2014 feito pelo laboratório Novartis, a droga pareceu reforçar o sistema imunológico de pacientes idosos. E os primeiros resultados em cães velhos sugerem que a rapamicina também os está ajudando, disse Matt Kaeberlein, pesquisador da biologia do envelhecimento na Universidade de Washington, que dirige o estudo com um colega, Daniel Promislow.

Mas os cientistas que defendem o estudo da biologia básica do envelhecimento --que chamam de "gerociência"-- dizem que seu campo recebeu pouco apoio do establishment biomédico. E os pesquisadores da Universidade de Washington notaram que expor os amantes de cães à ideia de retardar o envelhecimento poderia gerar apoio, além de novos dados.

Ruth Fremson/The New York Times
Lynn e Bela brincam em um parque próximo à casa delas, em Seattle, nos EUA

"Muitas pessoas no campo da biologia do envelhecimento sentem que ela é mal financiada, em relação ao potencial impacto na saúde humana que poderá ter", disse Kaeberlein, que ajudou a pagar a pesquisa com verbas que recebeu da universidade por recusar a oferta de uma concorrente.

"Se o dono de animal médio vir que há um retardamento significativo no envelhecimento de seu cão, talvez isso comece a impactar as decisões."

A ideia de que seria melhor gastar os recursos tentando retardar o envelhecimento, em vez de curar doenças, choca os filantropos mais ligados a doenças, para não falar na proposta do governo 

Obama de gastar US$ 1 bilhão em um projeto ambicioso de vacina contra o câncer. E muitos cientistas dizem que ainda não foi provado que a tese mereça mais investimentos.

Pesquisadores do campo, por sua vez, dizem que poderão ter mais a mostrar em seu favor se puderem explicar melhor ao Congresso e ao público por que a pesquisa básica sobre envelhecimento poderá ser útil.

"As pessoas entendem 'meu parente morreu de infarto, então vou dar dinheiro para isso'", disse James L. Kirkland, pesquisador da Clínica Mayo. "É mais difícil entender 'meu parente era idoso, o que o predispõe a ter um infarto, então vou dar dinheiro à pesquisa sobre envelhecimento'."

Ruth Fremson/The New York Times
Matt Kaeberlein, pesquisador da Universidade de Washington, com o cachorro Dobby, em sua casa em North Bend, Washignton

A duração da vida é inflexível?

A maioria das pessoas tem a intuição de que envelhecemos porque nossos corpos, assim como nossos carros, nossos móveis, nossa paciência simplesmente se desgastam. Mas o melhor argumento de que a duração da vida não é predestinada, dizem os biólogos, está evidente há tempo: as coisas vivas envelhecem em ritmos muito diferentes.

"Os esquilos no meu bairro vivem 25 anos, mas são parecidos com os ratos, que vivem dois anos", disse Gary Ruvkun, um pioneiro da biologia do envelhecimento na Escola de Medicina de Harvard. 

"Se você analisar o que a natureza selecionou e permitiu, sugere que poderia pôr as mãos nas várias alavancas que mudam as coisas."

Essa aspiração ganhou impulso nos anos 1990 e 2000, quando cientistas, armados com as novas ferramentas da biologia molecular, se concentraram nos complexos caminhos celulares que regulam a duração da vida em muitas espécies.

Ao remover genes que produzem certas proteínas, ou acrescentar genes que produzem outras, os cientistas descobriram que podiam prolongar de maneira significativa a vida de organismos simples em laboratório, como o fermento, vermes e moscas.

"Não é apenas o desgaste, é um programa", disse Ruvkun. "A genética nos disse isso. Se você a puder modular com algumas perturbações simples, é a definição de um programa."

Como os genes não podem ser manipulados tão facilmente nos seres humanos, foi importante quando Kaeberlein e outros, em 2006, demonstraram que a rapamicina, droga que está sendo testada em cães, suprimia uma das proteínas cruciais do fermento, resultando em uma vida mais longa sem remover um gene.

Sabe-se que essa proteína participa do crescimento das células. Mas ainda não está claro como sua supressão funciona para prolongar a vida, levantando questões sobre potenciais desvantagens desconhecidas.

Envelhecimento em ratos e cães

Os cães envelhecem mais depressa que os humanos, e os cães maiores mais depressa que os menores. Os 40 animais que participaram do teste da rapamicina, que acabam de concluir a série piloto em Seattle, precisavam ter pelo menos 6 anos e pesar no mínimo 18 kg.

Como a Bela de Lynn Gemmell, que tinha colesterol alto, muitos deles davam sinais de envelhecimento: pele frouxa, focinhos grisalhos, rigidez nas articulações. Assim como alguns de seus donos.

"Como você pode ter certeza de que as pessoas vão dar a droga aos cachorros, e não tomá-las elas mesmas?", Gemmell, 58, brincou com Kaeberlein em sua primeira visita à clínica veterinária, onde Bela passou por um exame geral e um ecocardiograma para avaliar a função cardíaca, um marcador que poderia registrar uma melhora nas dez semanas em que ela receberia a droga.

Uma coordenadora de pesquisa de testes clínicos humanos em um hospital, Gemmell adotou Bela quando tinha 3 meses, sem perceber que teria de passar muito tempo ao ar livre com ela. Hoje divorciada e com duas filhas adultas, Gemmell usa uma lâmpada na cabeça quando volta para casa à noite e sai com Bela, com uma bola que brilha no escuro e uma luz na coleira. "Gostaria que ela vivesse para sempre", disse ela.

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Bela brinca de pegar bola em Seattle

Gemmell não é a única. Mais de 1.500 donos de cães se inscreveram para participar do teste da rapamicina, que tem origem em uma série de estudos com ratos, o primeiro dos quais foi publicado em 2009. Produzida por um tipo de bactéria do solo, a rapamicina prolongou a vida de fermento (fungos), moscas e vermes em cerca de 25%.

Mas em um acaso que se mostrou fortuito, os cientistas que a testaram em ratos tiveram dificuldade para a formular para consumo fácil. Em consequência, os ratos tinham 20 meses de idade --o equivalente a cerca de 60 anos dos humanos-- quando o teste começou. O rato que viveu mais sobreviveu 12% mais que os grupos de controle, o primeiro indício de que a droga poderia ser aplicada mais tarde na vida e ainda ser eficaz.

Mas as drogas que funcionam em ratos muitas vezes falham em humanos. Também é difícil perguntar aos roedores sobre sua qualidade de vida. Os efeitos colaterais, dependendo da dose e da duração, incluem feridas na boca, catarata, resistência à insulina e, nos machos, problemas da função testicular.

Ninguém sabe se as pessoas, que já vivem muito mais tempo que os ratos, teriam um aumento proporcional na duração da vida.

E alguns pesquisadores dizem que haveria sérias preocupações ao testar a rapamicina, ou qualquer droga, em pessoas saudáveis só para desacelerar o envelhecimento. E se uma droga prolongar a vida de algumas pessoas e encurtar a de outras? Poderia alguém eticamente colocar uma pessoa saudável em um teste que possa reduzir a duração de sua vida?

"Não é tão simples quanto o câncer, em que os pacientes vão morrer de qualquer modo se não receberem a droga", disse Andrew Dillin, um pesquisador da biologia do envelhecimento na Universidade da Califórnia em Berkeley, que recentemente levantou essas questões na revista científica "Nature".

Deixando de lado as preocupações éticas, esse teste demoraria décadas.

Ruth Fremson/The New York Times
Técnica veterinária tira sangue de Rascal, em Lynnwood, Washington

Mas o que os amantes de cães consideram um triste fato --que seus cães envelhecem cerca de sete vezes mais depressa que eles-- Kaeberlein sabia que seria uma vantagem para o estudo da rapamicina que teria implicações para ambas as espécies. Dono de dois cães, ele estava decidido a captar o dinheiro para a fase piloto do que ele e Promislow chamaram de Projeto de Envelhecimento dos Cães.

No mês passado, ele relatou em uma reunião científica que não foram observados efeitos colaterais significativos nos cães, mesmo na mais alta das três doses. E comparados com os cães do grupo de controle os corações dos que tomaram a droga bombearam sangue com mais eficácia no final. Os pesquisadores gostariam de recrutar 450 cachorros para um estudo mais abrangente de cinco anos, mas ainda não têm dinheiro para isso.

Mesmo que o estudo dê resultados positivos em todas as frentes, um teste humano apresentaria riscos. Para Kaeberlein, eles valeriam a pena.

"Eu diria que devemos tolerar um certo nível de risco se a recompensa for um aumento de 20% a 30% de longevidade saudável", disse ele. "Se não fizermos nada, sabemos qual será o resultado. Você vai adoecer e morrer."

Gemmell, por sua vez, não conta com nada. Numa noite dessas, quando voltou para casa, preparava-se para ler a correspondência e tomar uma taça de vinho. Mas Bela a recebeu como sempre, com a bola na boca, pronta para brincar.

Por enquanto, disse ela, é assim que as duas pretendem se manter jovens.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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