Entrevista: Debate sobre saída da UE traz questionamentos sobre identidade britânica

Max Fisher

  • Justin Tallis/AFP

    Partidário da permanência do Reino Unido na União Europeia faz campanha para convencer indecisos, na estação Waterloo em Londres (Inglaterra)

    Partidário da permanência do Reino Unido na União Europeia faz campanha para convencer indecisos, na estação Waterloo em Londres (Inglaterra)

Enquanto o Reino Unido se encaminha para a votação na quinta-feira (23) sobre se continuará fazendo parte da União Europeia, a retórica da campanha, cada vez mais acalorada, às vezes parece movida por uma pergunta mais profunda e complexa: Qual é o futuro dos ingleses?

O historiador Robert Tombs, da Universidade de Cambridge, diz que os que preferem deixar a UE --o chamado lado do "Brexit" (a saída britânica) -- defendem não só a desconfiança da Europa, mas um crescente sentido de identidade inglesa e até mesmo de nacionalismo.

Esse sentimento, há muito tempo uma espécie de tabu na cultura política britânica, ajuda a explicar as emoções exaltadas em torno do referendo, assim como a ascensão da direita populista no país.

Nesta entrevista, Tombs discute as origens dessa tendência e suas implicações para o futuro do Reino Unido. Aqui estão alguns trechos, que foram editados para dar maior clareza.

The New York Times: Existe uma sensação de que o debate sobre o "Brexit" está revelando, talvez mais que promovendo, um ressurgimento do sentido de identidade inglês. Como esse ressurgimento se manifesta?

Robert Tombs: A ideia da identidade inglesa vem crescendo há alguns anos. A principal causa isolada disso é o crescimento do nacionalismo escocês e uma ideia de que talvez o Reino Unido esteja se desmanchando.

Há algum tempo existe uma maior sensibilidade para a ideia de identidade inglesa e, até certo ponto, foi algo muito ressentido, que dá a sensação de que a Inglaterra não está sendo tratada de modo adequado, ou de que a identidade inglesa não é reconhecida pelos governos e assim por diante.

A campanha do referendo, eu diria, para surpresa --e até alarme-- da maioria das pessoas, trouxe para fora a identidade inglesa. Mas é muito raro as pessoas falarem sobre "Inglaterra". Sempre se fala em Grã-Bretanha. Isto revelou todo tipo de divisões na sociedade britânica e inglesa, que se tornaram muito mais emocionais e intensas do que geralmente parecem ser.

NYT: Quais são as linhas de falha dessas divisões?

Tombs: Uma é geracional. As pessoas mais velhas tendem a ser mais favoráveis à saída da UE que as jovens. Uma é a divisão de classes. As pessoas mais ricas e instruídas tendem a ser pró-Europa. As da classe trabalhadora e menos instruídas, a ser mais contra a UE.

Também há algumas diferenças regionais. Londres é muito mais pró-UE do que o resto do país. Partes do norte da Inglaterra, especialmente as partes mais pobres do país, são mais a favor da saída. Acho que há um padrão semelhante em muitos outros países, como França, Alemanha, etc.

Chris Ratcliffe/AFP
Simpatizante do partido Ukip faz campanha com cartaz que diz "Queremos nosso país de volta. Vote para sair"

NYT: Esta ênfase na identidade inglesa é dirigida, talvez, por uma sensação entre essas comunidades de que elas estão sendo espremidas, e tentam encontrar alguma coisa a que se prender?

Tombs: Sim, exatamente. A imigração se tornou uma questão muito emotiva e divisiva.

A presença de imigrantes parece, para muitas pessoas, ser uma ameaça a seus empregos, seus benefícios sociais, seus salários e assim por diante. Em partes do país onde não há muitos imigrantes, existe um temor de que a imigração seja um processo descontrolado, e de que está tendo e terá um grande efeito sobre os serviços sociais e talvez a coesão nacional.

NYT: O senhor fala que isso é parcialmente conduzido pelo processo interno de devolução [transferência de poder político de Londres aos governos da Escócia, de Gales e da Irlanda do Norte], mas se manifesta mais abertamente na linguagem da migração. Qual é a relação entre essas duas tendências?

Tombs: A campanha começou como algo muito calmo e prático, falando sobre preços, comércio, perspectivas econômicas, etc. Tornou-se muito mais emocional e muito mais baseada no sentimento visceral e na identidade, em parte porque há muita divisão de opiniões.

Isto veio a ser uma espécie de revolta contra o establishment. Portanto, está trazendo à tona uma série de sentimentos que estavam escondidos, e então todo tipo de ressentimento provavelmente vai aparecer.

Um número enorme de pessoas não tinha uma opinião firme no início desta campanha, mas houve um aumento do sentimento anti-UE. As pessoas começam a pensar nisso como muito mais que meras questões práticas econômicas e estão pensando em legitimidade, independência, sobre quem na verdade governa o país, sobre a legitimidade da elite.

Tornou-se uma espécie de revolta dos camponeses, de pessoas que talvez estejam pensando na UE como simplesmente as instituições que elas pensam que as estão abandonando, ou não as estão escutando.

NYT: O senhor falou sobre o sentimento inglês como se eles fossem os únicos realmente britânicos que restam. Parece-me incrível que muitos grupos que representam a identidade inglesa na verdade não tenham "Inglaterra" ou "inglês" em seus nomes, grupos como o Partido da Independência do Reino Unido (Ukip). O que está acontecendo?

Tombs: Há uma história nisso. Os ingleses, sendo a maioria no Reino Unido, e os líderes na época do império, não enfatizavam muito sua nacionalidade, exceto em um sentido apolítico, sobre poesia, etc. Nunca foi uma sensação de que a Inglaterra tinha uma identidade política que era diferente da da Grã-Bretanha.

Agora há uma reação ao fato de que os outros membros do Reino Unido --os escoceses, os galeses e os irlandeses-- desenvolveram um sentido de separação e têm instituições políticas que o acompanham.

Não acho que haja muitas ainda, mas na Inglaterra há pessoas que dizem que assim como existe um Parlamento escocês deveria haver um Parlamento inglês. (O primeiro-ministro) David Cameron prometeu, depois da eleição, que haveria uma votação inglesa para leis inglesas. Há um sentimento crescente de que a Inglaterra deveria ter uma identidade política própria.

NYT: Isto é uma reação à situação incomum da Inglaterra de ser uma nação sem um Estado --quer dizer, cultural e historicamente diferente, mas sem suas próprias instituições independentes de governo?

Tombs: Sim, acho que é. Você poderia dizer que os ingleses não têm nada de que se queixar. Afinal, eles são a maioria.

No entanto, há uma crescente sensação de que algo tem de ser feito sobre a opinião pública inglesa. Você vê isso entre os conservadores, mas há alguns no Partido Trabalhista que dizem que ele precisa se estabelecer como um partido patriótico inglês, em parte porque não pode ganhar poder se não o fizer.

Pode haver todo tipo de sentimento de identidade subjacente, ressentimentos, etc., mas até o começo da campanha do referendo acho que a maioria das pessoas não sentia que fosse tão importante.

Agora se tornou importante, mesmo que não fosse no início. Isso levanta todo tipo de dificuldade política e constitucional que poderá surgir após a votação.

NYT: Parece que há muito tempo existe no Reino Unido uma desconfiança do patriotismo no estilo americano. Isso está mudando? O nacionalismo está se tornando mais aceitável?

Tombs: A ideia de as pessoas terem bandeiras em seus jardins ainda seria vista como extremamente estranha e um pouco suspeita. Um certo grau de patriotismo hoje talvez seja mais aceitável, mas é geralmente de um tipo bastante restrito e tradicional.

Mas depende de onde você estiver. Se você for a lugares onde o Ukip está, há um nacionalismo inglês da classe trabalhadora, que é muito ressentido, muitas vezes hostil a estrangeiros, que é ainda mais hostil contra os londrinos ricos e as pessoas que lhes dizem como devem pensar e como devem votar. E este muitas vezes assume uma forma bastante agressiva de nacionalismo inglês.

Às vezes, em formas extremas, é associado aos "hooligans" do futebol e a uma minoria de grupos de extrema-direita. É predominantemente masculino e da classe trabalhadora. Mas acho que existe isso em um grande número de países.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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