Análise: "Brexit" inaugura capítulo incerto na complexa história britânica

Steven Erlanger

Em Londres (Reino Unido)

O que acontece agora?

Solicitado a votar "fica" ou "sai", o Reino Unido escolheu decididamente jogar fora sua afiliação de 43 anos à União Europeia, deixando-o diante de uma pergunta mais complexa: Que tipo de país será agora?

O Reino Unido será o país voltado para fora, empreendedor, confiante, que traça seu caminho independente no mundo, como insistiam os líderes da campanha a favor da saída, ou "Brexit"?

Ou retrocederá para se tornar uma Pequena Inglaterra nacionalista e um pouco xenófoba, respondendo aos eleitores que a levaram a deixar a UE?

Ainda mais importante: ele se manterá unido? Com a Escócia profundamente pró-europeia, a pressão aumentará para mais um referendo sobre a independência que poderá levar ao fim do Reino Unido.

A Grã-Bretanha, cuja história complexa abrange o nascimento de um governo constitucional, um império global, a pompa real e uma heroica defesa contra o fascismo, está entrando em território desconhecido.

A pergunta sobre seu novo caminho poderá ficar sem resolução durante anos. Na manhã de sexta-feira (24), pelo menos, o Reino Unido continuava sendo um membro pleno da União Europeia, assim como era 24 horas antes.

Mas o impacto desse plebiscito provavelmente será profundo e duradouro, muito além do tumulto imediato nos mercados financeiros, e as questões sobre o futuro do Reino Unido serão respondidas contra o pano de fundo do potencial tumulto político, jurídico e econômico.

Um governo conservador com sua primeira maioria desde 1992 se dilacerou em um palco global e está gravemente danificado. O primeiro-ministro David Cameron imediatamente anunciou que se demitirá quando seu partido definir um sucessor, armando uma potencial batalha pela liderança. Uma eleição geral prematura não está fora de questão.

Quando o Reino Unido iniciar o processo formal de retirada da UE, ao acionar o Artigo 50 do tratado que governa a filiação ao bloco, um passo que Cameron disse que deixará ao novo primeiro-ministro, desencadeará um período de dois anos de negociações. Nesse período, o Reino Unido --incluindo milhões de cidadãos europeus que vivem no Reino Unido e cidadãos britânicos que vivem na UE-- ficarão no limbo.

E a se acreditar no Tesouro britânico, no Banco da Inglaterra, no Fundo Monetário Internacional e no Instituto de Estudos Fiscais, a economia britânica está em choque severo. O Tesouro estima que o PIB britânico, que representa o tamanho da economia, cairá 3,5%, arrasando as receitas fiscais; que 500 mil pessoas perderão seus empregos; e que o preço das moradias (e portanto a riqueza pessoal de seus proprietários) cairá 10%.

Essas estimativas foram criticadas pela campanha da Brexit, inclusive por membros destacados do governo, como infundadas e destinadas a provocar o medo. Agora o Reino Unido verá o quão precisas eram.

Esta votação foi um grave choque para a classe política do Reino Unido, de eleitores que estão irritados, confusos e profundamente desconfiados das elites.

O Partido Trabalhista se uniu a Cameron na campanha para continuar na Europa, como quase todos os outros partidos representados no Parlamento, com exceção dos Unionistas Democráticos e do Partido pela Independência do Reino Unido, que foi fundado sobre uma plataforma de saída da UE.

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Mas apesar desse sólido muro de vozes do establishment --ou talvez por causa dele-- o Reino Unido votou por uma mudança de direção fundamental.

"A classe política britânica deveria prestar atenção", disse Tony Travers, professor de governo na Escola de Economia de Londres.

"Há muita insatisfação com os dois partidos", disse ele.

Em 1955, os conservadores e os trabalhistas conquistaram 97,5% dos votos, mas nas últimas duas eleições os dois conseguiram cerca de 66%, disse ele.

"Nesse vácuo, algo mais tem de se mover, mas o quê?", indagou Travers. "A classe política tem de se perguntar como atrair os que se sentem cada vez mais fora do sistema, como conter o sentimento de grande número de eleitores de que foram cortados da mudança econômica e do sucesso."

O Partido Conservador já está dividido entre figuras tradicionais do establishment como Cameron e outras que adotaram a posição antielite, anti-imigração da campanha pró-saída, inclusive o prefeito de Londres, Boris Johnson, e um dos principais membros do gabinete de Cameron, Michael Gove.

Cameron também tem opiniões mais de centro que muitos na base de seu partido, tendo empurrado os conservadores a apoiar questões sociais como o casamento homossexual e a adotar temas unificadores como "conservadorismo de uma só nação".

É provável que ele seja substituído por alguém mais à direita e mais antieuropeu, como Theresa May, a secretária do Interior, ou Johnson, que também se considera um "conservador da nação única", mas ao modo de Churchill, e não fez segredo de sua ambição.

E o Partido Trabalhista precisa encontrar um modo de abraçar esses eleitores da classe trabalhadora que estão claramente infelizes com as consequências da globalização e da imigração em suas vidas e se animaram com a campanha da Brexit.

O líder trabalhista, Jeremy Corbin, foi um tanto morno em seu apoio à campanha pelo "fica", refletindo sua ambivalência sobre se ficar na Europa seria o enfoque certo para ajudar os trabalhadores.

Este referendo também revelou uma grande fissura entre a elite metropolitana do Reino Unido e o resto do país, essencialmente colocando ricos contra pobres por cima da divisão partidária normal.

"Duas nações, em suma, estão olhando uma para a outra sobre um abismo político", escreveu John Harris no jornal "The Guardian", de esquerda, que apoiou o Fica, mas James Bartholomew defendeu a mesma tese na revista "The Spectator", que apoiou a saída.

Os que têm diploma universitário apoiaram o fica em grande número, segundo pesquisas anteriores ao referendo; os com pouca educação superior apoiaram a saída em números igualmente grandes.

As grandes cidades, multiculturais e cheias de imigrantes, tenderam a apoiar o fica, enquanto a zona rural e áreas pobres no litoral leste eram fortemente a favor da saída.

O referendo também exacerbou agudamente as tensões entre os quatro países do Reino Unido e deu um reforço ao nacionalismo inglês, já em ascensão desde que o referendo sobre a independência da Escócia falhou em 2014.

Além de intensificar os pedidos de mais um referendo sobre a independência da Escócia, o resultado da votação sobre a UE também pode aumentar os pedidos na Inglaterra, que forma 85% da população britânica, para que seu próprio Parlamento vote leis referentes só à Inglaterra, assim como os Parlamentos da Escócia, de Gales e da Irlanda do Norte fazem hoje para suas regiões.

Em meio à confusão dominante sobre os próximos anos, serão necessárias mais que algumas palavras tranquilizadoras sobre um festival de democracia para começar a reunir o Reino Unido.
Como avisou Harris, "estamos em uma terrível confusão, e provavelmente vai demorar décadas para que as coisas comecem a endireitar".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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