Cartas descobertas do pai de Obama aguardam para ser lidas por seu ilustre filho

Rachel L. Swarns

Em Nova York (EUA)

  • Obama for America via The New York Times

    Obama e seu pai em 1974, ano da única visita que o pai fez ao filho após voltar ao Quênia

    Obama e seu pai em 1974, ano da única visita que o pai fez ao filho após voltar ao Quênia

A arquivista encontrou por acaso a pasta em uma pilha de caixas no segundo andar do Centro Schomburg para Pesquisa da Cultura Negra, no Harlem. As cartas amareladas em seu interior datavam de mais de meio século atrás, narrando os sonhos e lutas de um homem jovem do Quênia. 

Ele era um escriturário ambicioso e impetuoso de 22 anos, capaz de datilografar 75 palavras por minuto e traduzir inglês para suaíli. Mas não tinha dinheiro para a faculdade. Assim, ele se debruçou sobre uma máquina de escrever em Nairóbi, pedindo por ajuda financeira às universidades e fundações do outro lado do Atlântico. 

Suas cartas ajudariam a mudar o curso da história americana. 

"É uma antiga ambição aprofundar meus estudos na América", ele escreveu em 1958. 

Seu nome era Barack Hussein Obama e suas cartas ajudaram a obter dinheiro para bolsa de estudos, que o trouxe do Quênia para os Estados Unidos, onde se tornaria pai do primeiro presidente negro do país, apenas para desaparecer da vida de seu filho poucos anos após seu nascimento. 

Em 2013, o Centro Schomburg convidou o presidente Barack Obama para ver os documentos recém-descobertos, que incluíam quase duas dúzias de cartas de seu pai, suas transcrições da Universidade do Havaí e da Universidade de Harvard, e referências de professores, orientadores e apoiadores. Quase três anos depois, enquanto Obama celebra seu último Dia dos Pais na Casa Branca, o centro ainda aguarda por uma resposta. 

A série de documentos, descrita publicamente aqui pela primeira vez, produz um retrato de Barack Obama Sr. em suas próprias palavras, às vezes escritas de próprio punho, enquanto este descreve seus estudos nos Estados Unidos. Mas também expõem o início do relacionamento rachado entre pai e filho. 

Um alto funcionário da Casa Branca disse que Obama tem interesse em ver os documentos após deixar a Presidência no ano que vem, mas se recusou a comentar o motivo para funcionários do governo não terem respondido à carta ou à correspondência posterior. 

Os documentos são ricos. Eles contam uma história fascinante, tradicional, de homem que se fez sozinho", disse Khalil Gibran Muhammad, diretor do Centro Schomburg, que disse que espera que Obama as leia algum dia. "Há um motivo para ser testemunha do legado pessoal presente aqui." 

Como presidente, Obama já falou repetidas vezes de forma aberta sobre o vácuo que seu pai deixou em sua vida. O pai de Obama voltou para o Quênia em 1964, quando Obama tinha 3 anos, e voltou para visitar seu filho apenas uma vez, por um mês, quando Obama tinha 10 anos. Em uma entrevista para o "New York Times" no mês passado, o presidente disse que a ausência de seu pai o deixou lutando na adolescência para descobrir "o que significa ser um homem". 

As cartas de Barack Obama Sr., que cobrem o período de 1958 a 1964, oferecem novos entendimentos, particularmente sobre seus anos nos Estados Unidos. Mas os registros, que foram preservados entre os documentos de uma fundação que fornecia bolsas de estudo para alunos africanos na época, também podem ressuscitar velhas dores. 

Foi enquanto buscava seu diploma pela Universidade do Havaí, em 1960, que Barack Obama Sr. conheceu Ann Dunham, uma colega de classe. Apesar de ter uma esposa e dois filhos no Quênia, ele se casou com ela no ano seguinte, após ela engravidar. O filho deles nasceu em 4 de agosto de 1961. Mas Barack Obama Sr. nunca mencionou sua nova esposa e filho, nem mesmo em seus pedidos de bolsa de estudos. 

Parentes descreveram Barack Obama Sr. como sendo um homem complicado, brilhante e autoritário, charmoso e impertinente, que começou a beber muito à medida que seu sonho de se tornar um dos principais economistas do Quênia começou a se desfazer. Ele morreu em um acidente de carro aos 46 anos, sem nunca concretizar sua promessa. 

O irmão mais novo do pai de Obama, Said Obama, notou em uma entrevista por telefone do Quênia, neste mês, que espera que os documentos ajudem a família a entender melhor seu irmão. Ele disse que Barack Obama Sr. nunca deixou de se preocupar com o filho que deixou para trás, lembrando de como mostrava orgulhosamente a foto e os boletins escolares do jovem que viria a se tornar presidente. 

"Ele amava seu filho", lembrou Said Obama. "Não acho que alguém faria algo assim se não amasse seu filho." 

O presidente Obama descreve com frequência sua vida como uma saga que só ocorre nos Estados Unidos, a ascensão improvável do filho de uma mulher branca do Kansas e de um homem negro do Quênia à presidência americana. Mas a ascensão de seu pai também foi impressionante, ao realizar a jornada as ruas de terra de sua aldeia rural até os corredores de Harvard. 

Ele estava determinado a se juntar à onda de jovens quenianos que buscavam ensino superior no exterior enquanto a busca pela independência varria o continente africano. Suas cartas o ajudaram a ser admitido na Universidade do Havaí e a obter o dinheiro que precisava para cobertura dos custos. (Uma ligação pessoal inesperada também ajudou. Um diretor de uma fundação americana tinha empregado seu pai como cozinheiro.) 

Em 4 de agosto de 1959, ele embarcou no voo 162 da British Overseas Airways Corp. e voou de Nairóbi para Roma, como mostram os registros. De lá, ele voou para Paris e depois para Nova York. Então seguiu de ônibus para Los Angeles, de onde tomou um avião para o Havaí. Um ano depois, ele conheceria Dunham, a mãe do presidente Obama. 

A maioria das pessoas no campus não tinha ideia de que o estudante tinha se casado com sua segunda esposa em seu segundo ano universitário ou que já era pai de um menino. Em 1962, quando seguiu para Harvard para pós-graduação, sua família americana já tinha se desfeito. 

Ele obteve um grau universitário em economia por Harvard, não o doutorado que esperava, e voltou para casa no Quênia sem seu filho pequeno. Christine McKay, a arquivista que descobriu as cartas, disse que não conseguiu deixar de pensar naquele menino ao ler aquelas páginas. 

"Acho que seria ótimo se o presidente pudesse ver as palavras de seu pai", ela disse. 

Por ora, os documentos estão guardados na Caixa 214 da coleção do Fundo Phelps Stokes, no depósito climatizado do Schomburg. Quando Obama estiver pronto, disse o diretor do centro, a pasta de seu pai o estará esperando.

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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