O que Brasil e EUA sabem sobre o desaparecimento de um ex-preso de Guantánamo

Charlie Savage e Simon Romero*

Em Washington e Rio de Janeiro

  • Ines Guimaraens/ AFP

    11.dez.2014 - O ex-preso de Guantánamo, Jihad Diyab (dir.), toma mate com um sindicalista uruguaio, em Montevidéu

    11.dez.2014 - O ex-preso de Guantánamo, Jihad Diyab (dir.), toma mate com um sindicalista uruguaio, em Montevidéu

O desaparecimento de um ex-preso de Guantánamo que foi transferido para o Uruguai está aguçando a discussão sobre o presídio de guerra.

O ex-preso, Jihad Diyab, é um sírio que estava entre seis detidos de baixo nível de periculosidade reassentados no Uruguai em dezembro de 2014. No início de junho, ele disse a várias pessoas que iria para um retiro religioso que só terminaria após o mês sagrado muçulmano de Ramadã, e que não poderia ser encontrado por telefone ou e-mail.

Desde então, algumas autoridades uruguaias disseram que perderam o rumo dele e sugeriram que pode ter cruzado a fronteira pouco vigiada do Brasil. Para aumentar as tensões, uma companhia aérea da Colômbia pediu que seus funcionários alertem as autoridades caso tenham contato com ele.

Na quarta-feira (6), Alexandre de Moraes, o ministro da Justiça do Brasil, disse à imprensa que "não há sinal" de que Diyab esteja no país. No Uruguai, Fernando Gil, um porta-voz do ministério do Interior, disse que as autoridades uruguaias não o estão caçando. "No que diz respeito ao Uruguai, essa pessoa está aqui no país", disse Gil.

Ele acrescentou que em uma área como a cidade de Chuí, que fica sobre a fronteira com o Brasil e tem uma comunidade muçulmana, "você pode passar de um lado ao outro e ninguém controla".

Muita coisa continua imprecisa, e o desaparecimento foi recebido com interpretações diferentes.

O deputado republicano Ed Royce, da Califórnia, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, disse que o desaparecimento mostra que o governo Obama está "empurrando prisioneiros perigosos para países que ele sabe que não os podem controlar", e pediu a suspensão de todas as futuras transferências.

Algumas reportagens na mídia pintaram Diyab como um terrorista perigoso que estaria no Brasil, país que abrigará no próximo mês os Jogos Olímpicos.

Mas amigos e apoiadores de Diyab o retratam como alguém que tem deficiência física --precisa de muletas para andar. Eles acreditam que ele esteja simplesmente rezando e meditando em algum lugar e em breve reaparecerá.

Jon Eisenberg, um advogado que representa Diyab em uma iniciativa para divulgar vídeos sobre sua alimentação forçada durante protestos de greve de fome em Guantánamo, disse que falou com ele em 5 de junho. Diyab disse que ficaria incomunicável até uma semana depois do Ramadã, e que a prioridade que seu cliente dá a essas iniciativas legais é "incoerente com a ideia de ao mesmo tempo tornar-se um fugitivo", disse Eisenberg.

Belela Herrera, uma ex-vice-ministra das Relações Exteriores uruguaia que faz parte da rede de apoio a Diyab, disse que ele também lhe informou que estaria afastado até uma semana após o Ramadã. Segundo ela, seria um momento estranho para ele se tornar um fugitivo porque sua mulher e filhos estão prestes a vir da Síria para unir-se a ele no Uruguai.

"Espero que ele volte, porque sua família está pronta para encontrá-lo", disse Herrera em uma entrevista. "Ele afirmou que ia relaxar e cortar todas as comunicações --e não levou um celular ou qualquer coisa-- para preparar-se para a chegada de sua família."

De qualquer modo, parece que as autoridades uruguaias perderam o rumo de Diyab e que ele pode ter ido ao Brasil, pelo menos temporariamente.

Nesta quinta-feira (7), uma comissão da Câmara dos Deputados dos EUA deveria realizar uma audiência sobre a política do governo Obama de libertar detidos e enviá-los a outros países.

Integrantes da equipe republicana no Congresso disseram que durante as audiências, Royce se concentraria na questão do envio de detidos ao Uruguai, que tem uma fronteira porosa.

Royce chamou como testemunhas os principais enviados dos Departamentos de Estado e da Defesa para negociar transferências de Guantánamo, Lee Wolosky e Paul Lewis. Na audiência em março, Wolosky afirmou que o governo confia que o Uruguai está "tomando medidas adequadas para reduzir substancialmente o risco associado a cada um dos seis detidos que foram transferidos para sua custódia".

Na semana passada, Wolosky e Lewis viajaram ao Uruguai e falaram com autoridades locais sobre o caso de Diyab, segundo várias autoridades. Estas disseram que Diyab não tem passaporte, e portanto não poderia obter o visto necessário para viajar legalmente ao Brasil.

Mas Brasil e Uruguai fazem parte do Mercosul, que permite que seus cidadãos cruzem as fronteiras livremente. E o Uruguai emitiu para Diyab uma carteira de identidade de acordo com seu status de refugiado. Ela é igual à usada por todos os uruguaios, embora diga que sua nacionalidade é síria.

Uma autoridade republicana do Congresso disse que um investigador enviado por Royce ao Uruguai relatou que guardas de fronteira raramente inspecionam essas identificações para ver se o portador precisa de visto --quando há guardas na fronteira.

Myles Caggins, um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional na Casa Branca, disse na quarta-feira que Diyab estava na "lista de exclusão aérea", o que o impediria de ir para os EUA.

"Estamos cientes de relatos de que ele pode ter viajado do Uruguai ao Brasil", disse Caggins. "Continuamos em estreito contato com Brasil e Uruguai, nossos parceiros, sobre esse assunto."

 

* Colaborou Jonathan Gilbert, de Buenos Aires

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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