Capital do Colorado vira refúgio de jovens em busca de trabalho e maconha

John Henc

Em Denver (EUA)

  • Jamie Schwaberow/The New York Times

Na Pecos Street, na área da Lower Highlands, conhecida como LoHi, a Avanti Food & Beverage transformou uma velha fábrica de 1.020 metros quadrados e uma oficina de automóveis em uma espécie de praça de alimentação para a geração Uber.

Sentados na principal área de refeição ao estilo refeitório em uma noite recente, um público jovem, muitos usando casacos com capuz e calças de ioga, provava pratos de sete novos restaurantes locais. Noodles Udon, "tortas" (sanduíches mexicanos) e pães venezuelanos estavam entre as opções oferecidas por donos de restaurante empreendedores, a maioria deles vendedores de caminhões de alimentos na esperança de ascenderem a estabelecimentos fixos.

Nada custa mais do que US$ 15 (cerca de R$ 49).

"É uma culinária boa e sólida a preços acessíveis", disse o coproprietário da Avanti, Patrick O'Neill. "Isso pesa muito junto à geração do milênio."

A festa jovem prossegue em muitas noites em torno da reformada Union Station no distrito badalado de Lower Downtown, conhecido localmente como LoDo, e ao longo da Larimer Street em River North, ou RiNo. Não estava claro se havia mais bares do que cartazes de apoio ao senador Bernie Sanders (o ex-pré-candidato presidencial democrata), mas ambos eram abundantes. Scruffy Murphy's Irish Pub, o bar de cobertura Los Chingones e a Wynkoop Brewing Co. (uma das 65 microcervejarias daqui, segundo o Sindicato dos Cervejeiros do Colorado) estavam todos com forte movimento.

Jamie Schwaberow/The New York Times
7.jul.2016 - Mural com pintura a favor de Bernie Sanders em Denver, no Colorado, cidade progressista que atrai jovens

Quanto ao senador de Vermont, tão popular entre a geração do milênio, ele estava retratado em um mural pintado em uma parede de dois andares, como algo que alguém veria em Los Angeles ou Belfast celebrando heróis, com um punho erguido e o slogan "Vamos nos erguer juntos!"

Esse também é um slogan adequado para esta cidade, que se ergueu da estagnação econômica e da irrelevância urbana para se tornar um ímã da geração do milênio.

Segundo uma análise da Instituição Brookings de deslocamento populacional de 2009 a 2014, a cidade apresentou um ganho líquido migratório de 12.682 pessoas com idades entre 25 e 34 anos, a maior entre qualquer área metropolitana nos Estados Unidos. Isso significa uma média de 12.682 mais jovens adultos da geração do milênio se mudando para cá por ano a mais do que partindo, ao longo de cada um dos cinco anos medidos.

Igualmente, uma análise de dados do censo pelo Zillow, um site imobiliário, apontou que pessoas com idades entre 18 e 34 anos foram responsáveis por 35% do crescimento populacional da cidade de 2010 a 2014, em comparação a 26% nos primeiros 10 anos do século.

Apesar das definições de geração do milênio variarem (uma amplamente usada é de alguém nascido entre 1981 a 1997), está claro que muitos dessa geração são atraídos para esta cidade. Um motivo óbvio é a economia: a cidade está com saúde e contratando. A Development Research Partners, uma empresa de pesquisa local, apontou que dos 1,6 milhão de empregos na região metropolitana de Denver, cerca de 33,2% eram ocupados por pessoas com idades entre 19 e 34 anos.

A cidade também apresenta resultados elevados em pesquisas qualitativas. O estudo Melhores Locais para Viver de 2016 da "U. News and World Report" classificou a cidade em primeiro lugar. Sua proximidade de recreação ao ar livre, uma mentalidade progressista e o fato de ser boa para caminhadas foram todos citados como fatores.

Esses foram alguns dos atrativos para Adam Frank, 35 anos, um advogado natural do Brooklyn que se mudou para cá em 2011.

"A melhor decisão que já tomei", disse Frank. "Ela tem muitas casas antigas e personalidade, e não parece uma comunidade pré-fabricada".

"Com certeza é um lugar amistoso para pessoas à procura de abrir um negócio ou lançar novas ideias", ele disse.

Uma nova ideia, é claro, foi a legalização pelo Colorado da venda de maconha em 2014.

Quanto impacto isso teve no fator de apreço da cidade entre a geração do milênio?

"Alguns especulam que ajudou a colocar Denver no mapa", disse Carrie Makarewicz, uma professora assistente da Faculdade de Arquitetura e Planejamento da Universidade do Colorado, em Denver. "Ela recebeu cobertura de notícias nacional e fez as pessoas pensarem em Denver como um local mais progressista."

Mas outros desenvolvimentos mais significativos também tornaram a cidade atraente para a geração jovem. "Denver enfrentou uma forte recessão nos anos 80", disse Makarewicz, uma planejadora urbana. "A indústria principal era de gás e petróleo, de modo que quando o setor de energia afundou, a comunidade empresarial e o governo se uniram e decidiram que precisavam diversificar e fazer alguns importantes investimentos."

Um resultado foram os bairros distintos que agora fazem parte do apelo da cidade junto aos jovens. Eles são acessíveis por novas linhas de transporte coletivo após os eleitores aprovarem, em 2004, um aumento do imposto sobre vendas para financiamento do chamado programa FasTracks. Sua mais recente adição é uma linha de 36,7 quilômetros de veículo leve sobre trilhos do Aeroporto Internacional de Denver até a Union Square, inaugurada com muita fanfarra em abril. (Outra linha nova, ligando o subúrbio de Westminster, no norte, a Denver, deverá ser inaugurada em 25 de julho.)

Matt Prosser, vice-presidente da Economic and Planning Systems, uma empresa de consultoria com sede na Califórnia, disse que o sistema de transporte coletivo foi um "componente central" na capacidade da área de atrair a geração do milênio.

A empresa de Prosser está trabalhando com a prefeitura na mais recente versão de seu abrangente plano diretor de 30 anos.

"Ao começarmos a discutir sobre o que tornou Denver bem-sucedida nos últimos 10 anos, particularmente junto à geração do milênio, um tema sempre era repetido: a abertura", disse Prosser. "É uma comunidade para a qual você pode se mudar e se sentir aceito e encontrar seu caminho".

Para os jovens, esse é um motivo poderoso para viver aqui e permanecer, apesar de uma alta nos preços dos imóveis que levanta questões sobre por quanto tempo o boom do milênio poderá continuar, além de relatos recentes sugerirem que a legalização da maconha pode ter aumentado a população de moradores de rua.

Ainda assim, a atração da cidade permanece poderosa.

"Com certeza há uma cultura de: 'Ei, isso é bacana, vamos apoiar uns aos outros', seja nos negócios, nas artes ou na política", disse Frank, o nova-iorquino que se mudou. Apesar de dizer que há falta de uma boa pizza, segundo ele o único aspecto negativo da cidade, ele se mantém firme sobre seus pontos de vista a respeito de sua cidade jovem adotada.

"Nunca partiremos", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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