Mais do que vitória de Hillary, democratas esperam acabar com movimento pró-Trump

Amy Chozick

  • Rebecca Cook/Reuters

    12.mar.2016 - Homem segura cartaz com os dizeres "Trump = ódio" em Cleveland

    12.mar.2016 - Homem segura cartaz com os dizeres "Trump = ódio" em Cleveland

Os democratas esperavam que a convenção do partido na Filadélfia, na semana passada, conquistaria os eleitores céticos e reduziria as preocupações com a confiabilidade de Hillary Clinton, o que lhe daria uma leve vantagem em um ano eleitoral imprevisível. 

Mas depois que Donald Trump criticou os pais de um soldado muçulmano americano morto em ação, esse otimismo cauteloso se transformou em uma ampla crença de que a corrida mudou fundamentalmente a favor de Hillary. 

"É um momento de virada permanente", disse a senadora Kirsten Gillibrand de Nova York. 

Os aliados permanecem inquietos e dizem que, em muitos aspectos, Hillary é uma candidata fraca com uma mensagem confusa, que enfrenta um eleitorado no qual a maioria não confia e nem gosta dela. 

Mas a incapacidade de Trump de explorar a convenção de seu próprio partido e despontar com um candidato mais disciplinado reduziu as preocupações iniciais de que ele poderia ter apelo a um eleitorado maior em novembro. 

"As pessoas estão despertando para o quão desequilibrado Donald Trump é", disse o governador de Connecticut, Daniel P. Malloy. Ele apontou especificamente para as críticas de Trump a Khizr e Ghazala Khan, os pais do capitão Humayun Khan, que foi morto por um homem-bomba no Iraque. 

"Ele não poderia ter feito um melhor trabalho para recordar as pessoas em cima do muro do por que não devem votar nele", disse Malloy. 

Os democratas, estimulados pelo ultraje mais recente de Trump e pela série de republicanos que se manifestaram contra ele, começaram a discutir, talvez prematuramente, uma meta mais elevada do que apenas vencer em novembro: uma vitória por ampla margem, movida por um comparecimento recorde de eleitores entre negros, latinos e jovens, que poderiam ajudar a esmagar o movimento de Trump. 

David Plouffe, o ex-diretor de campanha do presidente Barack Obama, propôs a ideia em junho. "Não basta simplesmente derrotar Trump", ele escreveu no Twitter. "Ele deve ser destruído amplamente. Pessoas como ele não podem mais se erguer de novo." 

A proposta parecia absurda naquele momento, diante das realidades do mapa eleitoral e dos pontos fracos de Hillary. Mas nos últimos dias, democratas e conselheiros passaram a abraçar a ideia delicadamente. 

"A meta principal é vencer", disse Geoff Garin, um estrategista da campanha de Hillary de 2008 e que agora é consultor da Priorities USA Action, um super comitê de ação política pró-Hillary. "Mas a aposta mais alta nesta eleição é colocar o país em uma trilha onde a visão de mundo de Trump fique para trás em nosso espelho retrovisor." 

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A senadora Barbara Boxer da Califórnia disse que uma vitória democrata em novembro está longe de garantida, mas que ela espera por um "repúdio completo da ala de Trump" que provoque um "realinhamento" do Partido Republicano. 

Obama, que é conhecido por ser competitivo, também priorizou assegurar que os eleitores que o apoiaram em 2008 e 2012 votem em número igual por Hillary. "Ele deseja que eles não apenas votem nela, mas votem pelas questões pelas quais ele se importa", disse Dan Pfeiffer, um ex-alto conselheiro de Obama. 

Plouffe, elaborando sobre sua postagem anterior no Twitter, disse em um e-mail: "Esta ainda pode ser uma disputa relativamente apertada, mas a probabilidade é maior de uma vitória folgada do que uma vitória de Trump". 

Tentando explorar sua vantagem pós-convenção, Hillary tem feito campanha em áreas republicanas em Ohio e na Pensilvânia, e fez um comício no profundamente republicano Nebraska na segunda-feira. Ela está pedindo aos eleitores para "colocarem o país acima do partido", enquanto despreza Trump por contratar trabalhadores estrangeiros para seus clubes de campo. "Que vergonha, Donald Trump", disse Hillary no domingo. 

Nos dias que se passaram desde a convenção, Hillary melhorou sua vantagem nas pesquisas contra Trump em 7 pontos percentuais, com 52% dos americanos dizendo que votariam nela, contra 43% em Trump, segundo uma pesquisa "CNN/ORC" divulgada na segunda-feira. Outras pesquisas apresentaram resultados semelhantes. 

Pela primeira vez, Hillary conta com vantagem sobre Trump entre os eleitores na questão da economia, com 50% dizendo que confiam nela em comparação a 48% em Trump, que levava vantagem de 11 pontos percentuais nessa questão em julho. 

"Donald Trump não conseguiu expandir seu apelo além de seu núcleo de simpatizantes", disse Brian Fallon, um porta-voz da campanha de Hillary. Hillary, ele acrescentou, conseguiu "avanços junto a eleitores que antes não votariam nela". 

Mas mesmo com o recente impulso, os assessores de Hillary dizem que ela não terá um caminho fácil ou previsível até o dia da eleição. 

Eles apontam para uma série de variáveis que poderiam mudar a sorte de Hillary, como revelações potenciais em outra série de e-mails hackeados. Julian Assange, o fundador do grupo WikiLeaks, que divulgou 20 mil e-mails do servidor do Comitê Nacional Democrata, prometeu divulgar e-mails adicionais que enfraqueceriam Hillary. 

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Apenas recentemente Hillary saiu de uma investigação do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana) sobre seu uso de um servidor privado enquanto estava no Departamento de Estado, e apesar de não ter ocorrido indiciamento, ainda pairam dúvidas sobre seu bom senso e confiabilidade ao lidar com seus e-mails. 

Nos últimos dois meses, Trump e o Comitê Nacional Republicano viram uma enxurrada de doações online para ajudá-lo a quase compensar a desvantagem financeira em relação a Hillary, outro sinal de que a disputa poderá ser mais apertada do que o esperado. 

Matthew Dowd, um consultor político independente e ex-estrategista de George W. Bush, apontou que nenhum candidato saiu de uma convenção com avaliações tão desfavoráveis quanto Hillary e foi eleito para a Casa Branca. Mas diferente em relação à maioria dos candidatos é o fato de Hillary enfrentar uma disputa em novembro contra um oponente ainda mais repudiado. 

"É como se fossem dois vilões de um filme do Batman concorrendo um contra o outro e os eleitores dissessem, 'Vou votar naquele que não é o maluco do Coringa'", disse Dowd. 

Mas nos últimos dias, até mesmo democratas preocupados passaram a demonstrar confiança de que Trump agora está mais focado em enfrentar a controvérsia em torno de suas palavras dentro de seu próprio partido, em vez de atacar Hillary. 

Em entrevistas, vários aliados de Hillary apontaram para um "sprint" de três meses até novembro, no qual preveem que Trump continuará distraído de sua mensagem e no qual a campanha de Hillary poderia trabalhar discretamente para aumentar seu apoio e registrar eleitores em distritos indefinidos fundamentais. 

A dependência de Hillary dos erros de Trump, em vez da força ou apelo de sua própria mensagem, é uma estratégia arriscada, disse Dowd. "E se nos próximos 90 dias ele parar de atirar no próprio pé?", ele perguntou. 

Mas os democratas disseram que o período de dúvidas sobre se Trump poderia se tornar um candidato mais disciplinado acabou com os ataques dele aos Khan. 

"É como dizer que se eu passar a ter 2,40 metros, eu serei um ótimo iniciante no (time de basquete) Cleveland Cavaliers", disse Guy Cecil, estrategista-chefe do Priorities USA Action. "Mas isso não vai acontecer."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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