Raiva, ansiedade e indiferença: as reações de alguns brasileiros à Olimpíada

Simon Romero*

No Rio de Janeiro

  • Lalo de Almeida/The New York Times

    3.ago.2016 - Manifestantes protestam contra os Jogos Olímpicos em São João de Meriti

    3.ago.2016 - Manifestantes protestam contra os Jogos Olímpicos em São João de Meriti

Como os brasileiros se sentem em relação ao seu grande momento olímpico? Primeiro há a raiva: manifestantes atiraram pedras na tocha olímpica quando ela se aproximava do Rio de Janeiro, enquanto adesivos nos carros reorganizaram os anéis olímpicos em uma palavra de quatro letras.

Depois há a ansiedade: com o humor negro em meio a uma onda de crimes e o medo do terrorismo, um jogo de bingo está circulando para pessoas apostarem em que dia da Olimpíada haverá um ataque.

E a indiferença: a gigante da mídia Globo não se importará em transmitir os Jogos Olímpicos durante a cobiçada janela de domingo à tarde, optando pelo futebol nacional. Um número considerável de quartos de hotel continua sem reserva, obrigando as agências de turismo a cortar as tarifas em uma tentativa desesperada de atrair os brasileiros.

"Só de pensar na Olimpíada fico revoltada", disse Ana Caroline Joia da Souza, 21, uma vendedora de rua que oferece doces na frente de uma estação de metrô do Rio. "Nossos políticos querem enganar o mundo para que pense que as coisas estão ótimas aqui. Bem, que os estrangeiros vejam por si mesmos a sujeira em que vivemos, o dinheiro que nossos líderes roubam."

Lalo de Almeida/The New York Times
Passagem da tocha por Duque de Caxias, na Baixada Fluminense

É uma espécie de ritual nos países que hospedam a Olimpíada dedicar-se à autoanálise na véspera dos Jogos. E o Brasil não é exceção, desatando uma exploração devastadora dos problemas políticos, econômicos e éticos do país antes da cerimônia de abertura, nesta sexta-feira (5).

Quase dois terços dos brasileiros --63%-- acreditam que sediar os Jogos Olímpicos prejudicará o país, segundo uma pesquisa recente do instituto Datafolha.

Somente 16% disseram estar entusiasmados com os Jogos, enquanto 51% afirmaram não se interessar por eles. (A pesquisa, realizada em 14-15 de julho em entrevistas com 2.792 pessoas, tinha uma margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.)

O clima sombrio marca um duro contraste com a ebulição demonstrada em 2009, quando o Rio foi escolhido para sediar os Jogos. Na época, o Brasil se embalava em seus triunfos --com uma presença crescente no cenário mundial, a migração de milhões de pobres para a classe média e o amadurecimento de sua jovem democracia depois de 21 anos de regime militar, que havia terminado em 1985.

Rio tem clima de "guerra ao terror" antes da abertura dos Jogos

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Mas hoje a Olimpíada está competindo com uma terrível recessão e o outro espetáculo público do Brasil: a disfunção política implacável.

O país não tem um, mas dois presidentes: Dilma Rousseff, que foi afastada para enfrentar o processo de impeachment que continuará se desenrolando durante os Jogos, e Michel Temer, seu substituto interino.

Tanto Rousseff, de orientação esquerdista, quanto Temer, que está rumando para a direita, são profundamente impopulares em todo o país. Na verdade, os eleitores estão furiosos com todo o meio político.

Os líderes que imaginaram a Olimpíada como uma oportunidade para que o Brasil desfilasse sob os refletores internacionais, incluindo Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente que foi uma das mais influentes figuras políticas do Brasil, estão mergulhados em escândalos.

Lula está prestes a ser julgado por acusações de que tentou obstruir a investigação de um enorme esquema de propinas na Petrobras, a companhia nacional de petróleo.

Agora a sucessora escolhida a dedo por Lula, Rousseff, enfrenta um julgamento de impeachment sob a acusação de que ela manipulou o orçamento para ocultar crescentes problemas econômicos.

Lalo de Almeida/The New York Times
Policiais fazem segurança durante a passagem da tocha por São João de Meriti

Os escândalos se desenrolaram contra o pano de fundo de péssimas condições econômicas: o índice de desemprego chegou a 11,3% em julho, comparado com 6,5% no final de 2014, com as companhias demitindo milhares de trabalhadores por dia.

O Rio, que apenas alguns anos atrás se gabava de uma economia turbocarregada pela descoberta de petróleo na região oceânica, hoje é o centro da pior crise econômica do país em décadas.

Lutando para pagar os funcionários públicos e os aposentados depois de desperdiçar uma fortuna em royalties do petróleo, os líderes do Estado do Rio recentemente declararam "estado de calamidade" devido ao colapso das finanças públicas.

A escalada para a Olimpíada foi marcada por uma lista tão longa e variada de fiascos --de protestos pela expulsão de moradores a queixas sobre roubos e defeitos no encanamento na nova Vila Olímpica--, que o historiador dos esportes britânico David Goldblatt classificou os preparativos aqui como dos piores da história olímpica.

Em um esforço para aumentar a segurança durante os Jogos, o governo federal está mobilizando milhares de soldados para patrulhar a cidade assediada pelo crime. Mas os críticos dizem que trazer soldados de cidades devastadas pela violência no Nordeste do Brasil poderá reforçar a atividade dos bandos lá e em outras partes do país.

Os defensores dizem que a narrativa tradicional da Olimpíada envolve geralmente uma escalada da tensão antes dos Jogos, que é substituída por entusiasmo depois que eles começam. Também há os que dizem que o país precisa parar de reclamar e aproveitar o espetáculo.

"Todos queriam os Jogos aqui quando os conseguimos, por isso toda a crítica agora é hipócrita", disse Cleide Correa, 72, uma corretora imobiliária no Rio. "É claro que gastaram muito dinheiro para organizar isso, mas é o que acontece em todos os países. Precisamos tirar o máximo da situação agora."

Manifestantes entram em confronto com a polícia durante passagem da tocha

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Eduardo Paes, o prefeito do Rio de Janeiro, que atrelou seu destino político aos Jogos, afirma que o sentimento negativo em torno da Olimpíada é principalmente devido ao "complexo de vira-lata" do Brasil --termo usado pelo escritor Nelson Rodrigues para descrever a inferioridade com que os brasileiros às vezes veem a si mesmos em relação aos outros países.

O Comitê Olímpico Internacional, disse Paes, "está notando como nos subestimamos". Então ele afirmou que a culpa pelos problemas na Vila Olímpica eram de uma autoridade olímpica nascida na Argentina, e que os brasileiros os estão resolvendo rapidamente.

Outros dizem que o impiedoso autoquestionamento do país neste momento contém um valor catártico, refletindo uma democracia em que a liberdade de expressão continua firme.

Em um ensaio, a escritora Eliane Brum enumerou alguns dos problemas que fazem o Brasil parecer uma enorme confusão, incluindo desastres ambientais causados pelo homem, como o estouro de uma represa no ano passado em Minas Gerais e a baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, infestada de esgoto, onde as equipes de vela temem se chocar com cadáveres.

Mas, segundo Brum, seria uma piada submeter o Brasil "ao julgamento do chamado Primeiro Mundo", diante do número de problemas recentes naqueles países e em outros lugares.

As probabilidades de a Olimpíada oferecer uma distração dos problemas do Brasil poderão ser minadas pela própria história olímpica do país. Ele jamais ganhou uma medalha nos Jogos de Inverno, e poderá ganhar menos medalhas nestes de verão do que qualquer outro anfitrião na história.

É raro que o time do país-sede termine fora dos 10 primeiros na contagem de medalhas, mas o Brasil nunca se saiu melhor que 15º. Na Olimpíada de verão de 2012 em Londres, os atletas britânicos ganharam 65 medalhas, ajudando a transformar o incômodo e a raiva declarada por abrigar os Jogos em um surto de orgulho nacional.

O Brasil, cuja população é mais que o triplo da britânica, ganhou apenas 17 medalhas em Londres. Foi o melhor resultado do país, mas o classificou em 15º, junto com a Espanha.

Se o Brasil terminar novamente nessa posição, equivaleria ao resultado final de países anfitriões como a Grécia (Atenas, 2004) e o México (Cidade do México, 1968). O único anfitrião de Olimpíada de verão com resultado pior foi o Canadá em 1976, quando ganhou 11 medalhas em Montreal --nenhuma de ouro-- e terminou em 27º lugar na contagem de medalhas.

O mal-estar do Brasil leva alguns a defender expectativas realistas.

"Nós claramente não vamos projetar a imagem de um país poderoso e eficiente", disse Fernando Gabeira, um político e escritor.

"Talvez possamos mostrar que estamos começando a superar nosso desastre econômico, político e moral", acrescentou. "Poderíamos ser como esses atletas que conseguem terminar a maratona com a língua de fora, quase desmaiando. Mas chegam à linha final."

*John Branch e Mariana Simões colaboraram na reportagem. 

Protesto contra Temer tem até maestro e orquestra no Rio

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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