Demissão de professora com câncer provoca revolta na China

Javier C. Hernández

Em Pequim (China)

  • Facebook/Reprodução

    Selfie tirada por Liu Lingli quando estava internada

    Selfie tirada por Liu Lingli quando estava internada

Ela era um rosto que as pessoas não notavam ao passar na calçada, uma mulher doentia com batom vermelho e um monte de roupas. Vendia saias por US$ 15 (R$ 48) e lenços por US$ 10, brincando com os passantes sobre o tédio da vida.

Mas aos que paravam para escutá-la Liu Lingli oferecia uma história extraordinária. Ela havia sido professora de inglês na Universidade de Lanzhou, uma cidade no noroeste da China, mas foi demitida por abandono de serviço depois que foi tratada de câncer no ovário. Ela decidiu processar a escola por demissão injustificada, e enquanto isso vender roupas na rua para pagar suas contas médicas.

Na maior parte dos últimos dois anos, Liu travou suas lutas médicas e jurídicas em particular. Mas na última segunda-feira (22) sua história explodiu na esfera pública, depois que a Universidade Lanzhou Jiaotong disse que estava "profundamente arrependida" e concordou em pagar os salários que lhe havia negado.

Só havia um problema: depois de meses de batalha legal, Liu, 32, morreu em 14 de agosto de complicações do câncer.

Para muito chineses, o caso foi um lembrete pungente dos fracassos do sistema jurídico do país e do estigma persistente da doença e incapacidade.

No Weibo, o equivalente chinês do Twitter, comentaristas atacaram a universidade e manifestaram preocupação sobre o que descreveram como uma atitude insensível em relação aos empregados doentes na China.

"A morte da humanidade", escreveu um usuário chamado WangFuping8583.

Outros disseram que o caso revela falta de respeito pelos direitos dos trabalhadores e pediram a demissão do reitor da universidade.

"A falta de humanidade nas instituições de ensino superior causa calafrios em toda a sociedade", escreveu LiYinan_704.

Liu adoeceu no verão de 2014, depois de dois anos ensinando inglês no Bowen College da Universidade Lanzhou Jiaotong, segundo entrevistas com seus amigos e reportagens na mídia.

Ela tirou duas licenças médicas naquele outono, mas no início de 2015, quando sua mãe pediu mais tempo para Liu se recuperar e que a escola continuasse pagando seu seguro-saúde, a universidade a demitiu, citando os registros de faltas.

A lei chinesa proíbe que os empregadores demitam funcionários enquanto estiverem em tratamento médico. Mas a lei muitas vezes é ignorada, segundo peritos jurídicos, especialmente em setores como mineração e construção, onde os trabalhadores adoecem com frequência ou sofrem ferimentos no trabalho.

Lu Jiefeng, professor de direito na Universidade de Negócios Internacionais e economia em Pequim, que estudou a discriminação no emprego, disse que a condução do caso pela universidade foi uma clara violação da lei trabalhista.

"Não apenas a escola deixou de demonstrar interesse, como praticamente a apunhalou pelas costas no momento em que ela mais precisava de ajuda", disse Lu.

As autoridades da instituição de ensino não responderam a pedidos de entrevista.

Pouco depois de ser demitida, Liu moveu uma ação contra a universidade, afirmando que fora dispensada erroneamente. Em resposta, a universidade disse que seu ato se justificava porque Liu não havia comparecido às aulas depois de uma licença médica de 59 dias, segundo reportagens na mídia chinesa.

O tribunal defendeu Liu, ordenando que a universidade restituísse seu emprego, mas a escola não obedeceu, preferindo apelar da decisão. Em junho, a escola perdeu a apelação.

As contas médicas de Liu para quimioterapia e outros tratamentos rapidamente se avolumaram, totalizando mais de US$ 60 mil (cerca de R$ 190 mil), muito além das posses de seus pais, que ganhavam somente cerca de US$ 500 por mês (R$ 1.600,00). Seu pai também tem câncer.

Enquanto sua saúde se deteriorava, Liu estava decidida a pagar suas contas e decidiu começar a vender roupas. Diante de um shopping center em Lanzhou, no último outono, ela conheceu Nie Ting, 29, funcionária de uma agência de turismo, e as duas ficaram amigas.

Nie disse em uma entrevista por telefone na segunda-feira que ficou marcada pela força de vontade de Liu: ela continuou vendendo roupas mesmo depois que começou a usar uma cadeira de rodas.

"Era uma mulher forte", disse Nie. "Eu não percebi que tinha câncer na primeira vez que a vi."

Liu não falava muito sobre sua demissão, mas quando o fazia dizia aos amigos que se sentiu humilhada.

"Eu era uma professora que falava sobre um palco", disse Liu certa vez, "E agora acabei vendendo roupas na rua."

Na segunda-feira, o site de notícias chinês The Paper relatou que a Universidade Lanzhou Jiaotong pagará à família de Liu cerca de US$ 11 mil (R$ 35 mil), incluindo US$ 2.200 para cobrir os custos do funeral. Ela também suspendeu o diretor de recursos humanos da faculdade onde Liu lecionava, segundo The Paper.

Sua mãe, Liu Shuqin, não quis comentar quando procurada por telefone na segunda-feira, dizendo apenas: "Não durmo há dias".

Nos últimos meses de vida de Liu, o peso financeiro de sua doença parecia insuportável e seu optimismo se apagou.

Em sua última postagem em WeChat, ela escreveu: "Com os negócios como estão, seria melhor que eu morresse".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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