Hidrelétrica no rio Tigre vai inundar cidade turca com 12 mil anos de história

Tim Arango

Em Istambul (Turquia)

  • Samuel Aranda/The New York Times

Por cinco gerações, a família de Firat Argun viveu em Hasankeyf, uma cidade ancestral à beira do Rio Tigre, no sudeste da Turquia, onde ele dirige uma pequena pensão com uma horta variada.

"Tenho de tudo na minha horta", ele disse recentemente. "Eu já encontrei meu paraíso."

Mas o pequeno paraíso dele logo será perdido.

A horta de Argun, juntamente com milhares de anos de história, ficará submersa quando a Turquia concluir uma represa hidrelétrica no Rio Tigre, um projeto que data dos anos 50. A hidrelétrica está mais de 80% completa, mas a parte que forçará Argun e milhares de seus vizinhos a deixarem suas casas está próxima: o enchimento do reservatório que cobrirá grande parte da cidade.

Samuel Aranda/The New York Times

"Ela arruinará uma cidade histórica", disse Zeynep Ahunbay, um professor de história da arquitetura em Istambul, que é contrário ao projeto.

Hasankeyf tem abundância de história, mais de 12 mil anos datando do período neolítico, quando foi local de um dos primeiros assentamentos humanos organizados do mundo. Os impérios que vieram posteriormente deixaram todos suas marcas: os bizantinos, romanos, seljúcidas, otomanos. O destaque arqueológico é uma cidadela, em terreno elevado e com vista para o rio, e apesar de que permanecerá acima do nível da água, cientistas temem que com o passar do tempo sua base de pedra calcária, que é porosa, começará a se desfazer e no final ruirá.

O projeto da hidrelétrica tem suas raízes nas ambições de Mustafa Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna, que previa um grande número de hidrelétricas nos rios Eufrates e Tigre para atender as necessidades de energia do país.

O controle pela Turquia das cabeceiras do Eufrates e do Tigre, rios que alimentam a Síria e o Iraque, há muito é controverso no Oriente Médio, com críticos dizendo que decisões tomadas pela Turquia levaram a escassez de água nos dois outros países, algo que contribui para instabilidade e guerras.

A hidrelétrica no vilarejo de Ilisu provocou alarme no Iraque, onde ativistas alertam que reduzirá o fluxo de água para as regiões pantanosas no sul do Iraque. "Se os charcos não receberem uma parcela adequada de água, eles desaparecerão", disse Nadia al-Baghdady, uma ativista em Bagdá.

Samuel Aranda/The New York Times
Ruínas de citadela antiga em Hasankeyf, cidade antiga às margens do rio Tigre na Turquia


Os projetos de engenharia para a hidrelétrica de Ilisu foram elaborados nos anos 80. Ocorreram muitos atrasos, greves de trabalhadores, resistência de ambientalistas e até mesmo sabotagem. Em 2009, os credores europeus retiraram seu financiamento por temor de que o projeto destruiria o patrimônio cultural da área.

Por décadas, os moradores de Hasankeyf, muitos dos quais falam curdo, árabe e turco e ganham a vida criando ovelhas e tecendo tapetes, viveram cientes de que, em algum momento, seriam forçados a deixar suas casas. Para acomodá-los, o governo está construindo uma nova Hasankeyf e comprando as casas da velha cidade, apesar de que, diante de tantos atrasos, ninguém saber ao certo quando o reservatório será enchido.

Samuel Aranda/The New York Times
Cavernas históricas em Hasankeyf, que serão inundadas por lago de hidrelétrica


"É muito triste", disse John Crofoot, um americano que viveu por vários anos em Hasankeyf e tem feito ativismo contra a hidrelétrica, dizendo que seu custo para a população local, e para a história, é alto demais. "Eles estão abatidos. Eles amam sua cidade e têm orgulho da história de Hasankeyf. É onde seus avôs e bisavôs estão enterrados."

Argun disse que não tem interesse em seu mudar para a nova cidade. "Vou seguir para as montanhas como Robinson Crusoé", ele disse. "Apenas uma cabana improvisada basta."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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