Veja 10 perguntas sobre os e-mails de Hillary Clinton investigados pelo FBI

Michael S. Schmidt e Matt Apuzzo

Em Washington (EUA)

  • Justin Sullivan/Getty Images/AFP

    A candidata democrata Hillary Clinton discursa durante campanha em Kent, Ohio

    A candidata democrata Hillary Clinton discursa durante campanha em Kent, Ohio

Poucos dias antes da eleição presidencial, o diretor do FBI fez um anúncio surpreendente na sexta-feira (28): agentes tinham descoberto novos e-mails que podem ser relevantes para a investigação encerrada sobre o servidor privado de Hillary Clinton, caso que aparentemente havia terminado em julho.

Nunca na história recente o FBI esteve tão envolvido em uma disputa presidencial. Com uma vaga declaração ao Congresso de 166 palavras, o FBI provocou calafrios durante a campanha, deixando muitos eleitores atônitos quanto ao que fazer de um caso que envolve segredos de segurança nacional, um congressista em desgraça, mensagens de texto obscenas e uma disputa entre os principais agentes judiciais dos EUA.

Aqui está o que sabemos até agora:

1. O que aconteceu na sexta-feira?

O diretor do FBI, James Comey, enviou uma carta ao Congresso dizendo que agentes haviam descoberto novos e-mails que poderiam estar relacionados à investigação de Hillary Clinton. Essa investigação tinha examinado se Hillary e seus assessores haviam lidado de forma inadequada com informações sigilosas, ao enviá-las pelo servidor de e-mail privado de Hillary. O inquérito foi concluído em julho, sem acusação formal.

Comey disse na última sexta-feira que agentes analisariam os novos e-mails para ver se contêm informação sigilosa. A carta foi enviada 11 dias antes da eleição presidencial e provocou duras críticas a Comey por parecer se envolver na política.

A carta do diretor do FBI não reabriu o inquérito de Hillary, mas alguns republicanos, incluindo Donald Trump, caracterizaram a medida dessa maneira. Os agentes poderiam abrir um novo inquérito se encontrassem evidências de que a investigação anterior tinha sido obstruída ou que material sigiloso tinha sido intencionalmente desviado.

2. De onde vieram esses novos e-mails?

Comey não disse na carta. Mas autoridades policiais informadas sobre a investigação disseram que agentes tinham descoberto os e-mails em um notebook de propriedade de Anthony Weiner, um ex-congressista que caiu em desgraça e marido separado da principal assessora de Hillary, Huma Abedin.

No mês passado, o FBI começou a investigar denúncias de que Weiner tinha trocado mensagens sexuais explícitas com uma adolescente. Em 3 de outubro, agentes do FBI em Nova York executaram um mandado de busca para obter o celular de Weiner, um tablet e um notebook. Ao vasculhar o computador, encontraram evidências de uma grande quantidade de e-mails semelhantes aos que haviam sido examinados na investigação de Hillary.

Comey decidiu na semana passada que agentes deveriam examinar esses e-mails para determinar se eles continham informação ligada à segurança nacional. Isso exige uma ordem judicial, e autoridades disseram que os agentes ainda não tinham começado a ler os e-mails.

3. Por que o FBI se importa se há informação sigilosa nos e-mails?

Sob a lei federal, lidar inadequadamente com informação de segurança nacional é um crime, que o FBI é responsável por investigar. Em 2015, o departamento começou a investigar a conta pessoal de e-mail que Hillary tinha usado exclusivamente como secretária de Estado. Como parte dessa investigação, o departamento tentou encontrar todos os dispositivos eletrônicos --telefones, tablets, computadores-- que Hillary e seus assessores usaram.

Os agentes não conseguiram encontrar muitos deles, inclusive vários celulares e dois tablets de Hillary. Os agentes sabiam que esses equipamentos, e outros dos quais não tinham conhecimento, poderiam aparecer algum dia. Mas concluíram o caso de Hillary porque não encontraram provas de que alguém houvesse intencionalmente burlado a lei.

Os e-mails recém-descobertos poderão ou não oferecer informação nova ao FBI.

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4. Por que Comey mandou a carta?

Em julho, Comey disse ao Congresso que a investigação de Hillary Clinton havia terminado, mas que se surgissem novas informações o departamento as examinaria.

Comey prometeu ser o mais transparente possível com o Congresso sobre a investigação, e desde então publicou centenas de páginas de documentos relacionados ao inquérito. Segundo autoridades graduadas do FBI, Comey sentiu que estaria rompendo sua promessa de transparência ao Congresso se ele não revelasse a nova informação do caso Weiner. E ele acreditava que o departamento seria acusado de suprimir detalhes para beneficiar Hillary --acusação que na opinião dele poderia causar danos duradouros à credibilidade do FBI.

5. O que tudo isso significa para Hillary e sua campanha?

A resposta curta é que isso ainda não está claro. O que está evidente é que uma campanha que foi de modo geral um referendo sobre Trump --especialmente desde o primeiro debate-- hoje não está tão clara. O caso dos e-mails certamente terá importância, mas a questão é quanta.

Vinte milhões de pessoas já votaram e outros milhões já decidiram em quem vão votar. O país já estava politicamente polarizado antes desta eleição, e as opiniões estão geralmente firmes sobre esses dois nomeados.

A notícia do e-mail poderá importar mais nas disputas por cargos locais. Depois de passar semanas na defensiva por causa do comportamento de Trump, os candidatos republicanos hoje têm um ambiente de mídia mais propício onde fazer seus discursos finais. E os eleitores republicanos que estão desmoralizados podem ter recebido um último empurrão para ir à votação.

6. Quem está incomodado porque Comey mandou a carta?

Muitos democratas e até alguns republicanos chamaram a carta de vaga, perturbadora e sem precedentes. Autoridades do Departamento de Justiça pediram que Comey não enviasse a carta, dizendo que ela violava o espírito de políticas consagradas de não discutir investigações em curso ou fazer qualquer coisa que pudesse ser considerada interferência em uma eleição.

Na carta, Comey disse que o FBI ainda precisava determinar se "esse material pode ser importante" e que ele não podia prever quanto tempo levaria a revisão. A campanha de Hillary pressionou Comey a divulgar mais informação sobre os e-mails.

O diretor da campanha, John Podesta, disse que "ao oferecer informação seletiva, ele permitiu que partidários distorcessem e exagerassem para causar o maior dano político possível".

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7. O que acontecerá agora?

O FBI vai realizar uma versão menor da investigação terminada em julho. Agentes vão revisar os e-mails encontrados no notebook para decidir se eles contêm informação sigilosa.

Nesse caso, o departamento mais uma vez examinará a questão de se alguém cometeu intencionalmente um crime. Dirigentes da campanha de Hillary disseram que Abedin deu às autoridades todos os dispositivos eletrônicos que, segundo ela, poderiam ter e-mails relacionados ao trabalho. Muitas das mensagens recém-descobertas pelo FBI provavelmente são duplicatas de outras que o órgão já examinou, segundo os investigadores. A análise será realizada pelos mesmos agentes baseados em Washington que conduziram a investigação dos e-mails de Hillary. Os agentes do FBI têm quase certeza de que não será concluída até o dia da eleição, e que poderá levar várias semanas.

Nem as autoridades do Departamento de Justiça nem os agentes do FBI dizem saber o que esperar de Comey nos próximos dias. Normalmente, as investigações são conduzidas em segredo, mas os comentários públicos de Comey o abriram a exigências das duas campanhas para que divulgue tanta informação quanto possível, assim que esteja disponível.

8. Qual é o pior cenário para Hillary e seus assessores?

Em julho, Comey anunciou que o departamento não tinha encontrado evidência suficiente para acusar alguém de um crime por lidar inadequadamente com material sigiloso no servidor de Hillary. Se os novos e-mails indicarem esforços intencionais dela ou de seus assessores de mover essa informação para fora de sistemas seguros do governo, ou de que tentaram obstruir o primeiro inquérito, o FBI provavelmente vai querer investigar mais fundo. Mas o birô tinha apenas começado o processo de filtrar os novos e-mails, e as autoridades acreditam que pelo menos alguns são duplicatas de mensagens que já foram examinadas.

9. Quão raro é que o FBI divulgue um caso como este?

Extremamente raro. Às vezes, durante julgamentos ou depois que os casos são encerrados, o FBI encontra novas evidências e/ou os revela a advogados de defesa ou reabrem um caso. Um diretor do FBI nunca fez tal revelação ao Congresso tão perto de uma eleição presidencial.

10. Como se sentem a ministra da Justiça, Loretta Lynch, e o Departamento de Justiça, sobre a carta de Comey?

Autoridades do Departamento de Justiça tentaram desestimular Comey de mandar a carta, dizendo que ela violaria diretrizes do departamento que aconselham a não falar sobre investigações criminais em curso ou ser visto como interferindo nas eleições.

Elas pediram que Comey não fizesse nada antes da eleição, e que ele deveria dizer ao Congresso quando os agentes tivessem lido os e-mails, entendido se eles eram relevantes e pudessem colocá-los em contexto. Mas eles evitaram emitir uma ordem direta proibindo que ele enviasse a carta.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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