Milícia pró-Trump se prepara para o combate caso Hillary resolva "tomar armas"

David Zucchino

Em Jackson, Geórgia (EUA)

  • Kevin D. Liles/The New York Times

    Membro da milícia III% toma café da manhã em barraca decorada com bandeiras da campanha de Donald de Trump e dos confederados, em Jackson (Geórgia)

    Membro da milícia III% toma café da manhã em barraca decorada com bandeiras da campanha de Donald de Trump e dos confederados, em Jackson (Geórgia)

"Soltem as armas!"

A ordem foi dada por um megafone por dois delegados do xerife agachados atrás das portas da viatura, tendo fuzis semiautomáticos aos seus lados.

Vários milicianos de meia-idade empunhavam fuzis AR-15 carregados e pistolas de 9mm em uma barreira improvisada (duas cadeiras de jardim e uma tábua estreita) em uma estrada de terra na região central da Geórgia. Os homens, membros da milícia Força de Segurança da Geórgia III%, reclamaram, mas largaram suas armas na terra vermelha.

O breve confronto acabou em uma conversa amigável e os homens pegaram de volta suas armas no instante em que os agentes da lei partiram. Mas o episódio incitou ainda mais o temor dos milicianos de que seus prezados direitos da Segunda Emenda estavam sob ataque.

A Força de Segurança da Geórgia é uma dentre as várias milícias extremistas por todo o país que se mobilizam em apoio à campanha presidencial de Donald Trump, animadas por seus duros ataques aos imigrantes, muçulmanos e refugiados sírios. Mas nenhuma outra questão motiva mais os milicianos que as armas e a crença de que Hillary Clinton planeja tomá-las.

Os milicianos da Geórgia se mobilizaram nas florestas de pinheiros daqui no último fim de semana para disparar suas armas e treinar para o dia em que, eles acreditam, serão forçados a defender o que chamam de "nosso modo de vida". Duas dúzias de homens e mulheres armados realizaram treinos de busca e destruição com munição real, realizando disparos suficientes para cortar e derrubar um pinheiro.

Kevin D. Liles/The New York Times
Chris Hill (centro), comandante da milícia III%, vê grupo em treinamento em Jackson (Geórgia)


"Nós achávamos que os oito anos de Obama tinham sido ruins, mas a tomada de armas será muito pior se Hillary for eleita", disse Chris Hill, 42 anos, um auxiliar jurídico loiro barbado que atende pelo codinome de Blood Agent (agente sangue) e comanda a milícia. Ele usa farda de combate e carrega uma pistola Smith & Wesson calibre 40 na cintura.

Quando Trump diz que deseja tornar a América grande de novo, Hill e seus cerca de 50 milicianos locais ficam encantados. Eles anseiam por uma América que acreditam lhes ter sido roubada pelos liberais, imigrantes e o "pessoal PC" (politicamente correto). A América deles é uma na qual o cristianismo é ensinado nas escolas, o aborto é ilegal e imigrantes vêm da Europa, não de terras muçulmanas distantes.

Esses guerreiros de fim de semana formam o alicerce obstinado da Nação Trump: a classe operária branca e rural. Eles votam e são altamente armados, até mesmo com uma pistola derringer calibre 22 como a disparada por Nadine Wheeler, uma aposentada de 63 anos que chama sua arma minúscula de "o melhor que há para proteção feminina".

Durante dois dias de conversas, o grupo disparou queixas quase tão sem esforço quanto as balas de suas armas. Em uma excursão armada pelas florestas tingidas pelo sol, eles falaram sobre uma tirania vaga, porém iminente, uma amálgama de forças sinistras que só podem ser mantidas acuadas com armas de fogo e a disposição de usá-las.

Eles são mecânicos e aposentados, telhadores e operários de fábrica, todos banhados na cultura do Sul rural. Eles dizem que Trump, um bilionário de Manhattan e magnata dos imóveis, fala para eles.

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Donald Ensey, da Flórida, atende pelo codinome Jest71 na milícia III%

"Dentro da extrema direita, muitos dos apoiadores mais passionais de Trump vêm do movimento miliciano", disse Mark Pitcavage, um pesquisador sênior do Centro para o Extremismo da Liga Anti-difamação. "O movimento miliciano apoia em peso a candidatura de Trump."

Para as milícias, as posições anti-establishment de Trump "exploram o estilo de política paranoico delas", disse Ryan Lenz, editor do blog "Hatewatch" (algo como "vigia do ódio") da organização de advocacia Southern Poverty Law Center.

A Força de Segurança da Geórgia se destaca entre as milícias por sua islamofobia aguda, disse Pitcavage. Seus membros são os chamados "3%", que acreditam que apenas 3% dos colonos lutaram na Guerra da Independência. Isso é "um mito histórico", disse Pitcavage, um historiador, mas útil para aqueles que acreditam que poucas pessoas com armas podem derrotar a tirania.

Pelo menos 330 desses grupos do "3%" se formaram em todos os 50 Estados, segundo levantamento de Pitcavage. Havia 276 milícias ativas em 2015, disse Lenz. O número inclui alguns dos grupos do 3%.

Trump tem retuitado postagens de nacionalistas brancos e nazistas, mas Hill e seus seguidores insistem que não são racistas, apenas cidadãos e patriotas ferrenhos com uma visão reconhecidamente apocalíptica. Eles consideram Trump como um baluarte contra Hillary.

Teresa Bueter, 41 anos, trabalhou por 26 anos na grelha de uma Waffle House enquanto criava três filhos. Agora ela é um membro ativo da Força de Segurança da Geórgia, trajando farda militar. Ela tem uma pistola calibre 32 e um rifle de atirador alemão.

Bueter disse que os refugiados sírios que estão entrando no país "me apavoram". Com suas armas e o treinamento paramilitar de fim de semana da milícia, ela disse, ela está preparada para lutar pelos valores que ensinou aos seus filhos e três netos.

"Donald Trump se encaixaria bem em nosso pequeno grupo", ela disse. "Ele deseja a América da mesma forma que a queremos, de volta como costumava ser."

As armas de fogo são centrais para sua identidade. Em setembro, alguns membros da Força de Segurança da Geórgia desfilaram com armas enquanto protestavam contras os planos para construção de uma mesquita local. Um vestia uma camiseta dizendo "Islã é Coisa do Diabo". No ano passado, milicianos armados da Força de Segurança se manifestaram em apoio à bandeira de batalha confederada.

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Philip King (esq), com sua noiva, Katie Hardegree, no acampamento da milícia III% em Jackson

Em seu acampamento, os milicianos realizaram dezenas de disparos antes do café da manhã. Então sentaram para comer ovos mexidos e salsicha em meio ao cheiro de pólvora. Hill perguntou quem votaria em Trump. Todos gritaram um "Oorah!" unânime.

Os milicianos parecem confortáveis dentro da mesma espécie de câmara de eco de argumentos que se autoconfirmam que atribuem às elites liberais que dizem os denegrir e rebaixar. Eles repetem expressões retiradas dos sites e das redes sociais de milícias. Eles parecem convencidos de que ou o Estado Islâmico, ou agentes enviados por Hillary Clinton, ou ambos, em breve virão para as florestas da região central da Geórgia.

Em entrevistas separadas, vários milicianos compartilhavam as mesmas teorias de conspiração, quase palavra por palavra: refugiados muçulmanos tinham estabelecido campos de treinamento de terroristas em solo. O bilionário liberal George Soros manipulou máquinas de votação a favor dos democratas.

"Somos como uma pequena força armada de pessoas de ideias semelhantes", disse Donald Ensey, 44 anos, pai de quatro e avô de dois, que usava calça de combate e uma camisa preta com uma imagem profana de um combatente do Estado Islâmico e uma cabra.

Ensey, que tem o logo dos 3% tatuado nas costas de sua mão, disse que o treinamento com a milícia é essencial para a segurança de tudo pelo que ele trabalhou a vida toda. Mesmo se Hillary não for eleita, ele disse, certamente outra pessoa virá para tomar suas armas.

Hill, um fuzileiro veterano, realiza sessões de treinamento de campo uma vez por mês. Fora isso, os membros se comunicam por meio de postagens regulares no Facebook. 

Os candidatos a membros são aprovados por um "painel de revisão" composto por membros atuais, que os selecionam com base em sua compatibilidade com as crenças da milícia. Esta sessão foi realizada em seis hectares de propriedade de Devin Bowen, um mecânico que estava tendo um péssimo dia antes mesmo dos delegados o forçarem a largar sua arma.

A porta de seu trailer, um com uma placa que diz "Se você não mora aqui, não venha aqui", tinha sido arrombada mais cedo. Três fuzis, uma besta, 13 mil cartuchos de munição e um cofre para armas de 360 quilos foram levados, não por agentes federais, mas por ladrões locais. Pior, Bowen estava cuspindo sangue devido a um mal desconhecido. Ele aliviava sua garganta bebendo Coca-Cola gelada.

Kevin D. Liles/The New York Times
Da esquerda para a direita, Erik Schaus, do Tennessee, Donald Ensey, da Flórida, e Jacob Sims, da Carolina do Sul, membros da milícia III%, se sentam perto do fogo em acampamento em Jackson (Geórgia)

Os companheiros de Bowen insistiam para que ele procurasse um médico, provocando uma discussão amarga envolvendo outra teoria de conspiração que veem: a Lei de Atendimento de Saúde a Preço Acessível. Bowen deu as costas para eles. Ele estava mais preocupado com os imigrantes muçulmanos impondo a lei Shariah.

"Você não pode vir ao meu país e enfiar sua religião pela minha goela", ele disse, tossindo.

Phillip King, 25 anos, que ganha a vida instalando tubulações, trajava farda de camuflagem e um colete tático contendo pentes de munição. King, cujo codinome é Caubói, é o único afro-americano da Força de Segurança da Geórgia.

Ele disse não se ofender pelo afeto dos milicianos pela bandeira de combate confederada. Ele compartilha o amor deles por armas, seus valores conservadores e a visão deles de Trump como alguém que os protegerá da tirania da esquerda política.

"Esta é a minha família, uma irmandade", ele disse.

Para Daniel Potts, 21 anos, ser dono de uma arma e aprender a usá-la como parte de uma milícia bem treinada são coisas essenciais para impedir o que chama de "disseminação do Islã radical". Ele aprecia a forte oposição de Trump aos refugiados muçulmanos. "Nem todo muçulmano é do Estado Islâmico, mas muitos são."

Ele chama a si mesmo orgulhosamente de infiel e deplorável. Em seus braços estão tatuados o logo dos 3% e do Kuntry Krackerz, um grupo afiliado da Força de Segurança da Geórgia.

Potts ganha entre US$ 16 e US$ 18 (cerca de R$ 52 a R$ 58) por hora como telhador comercial. Ele se considera o tipo de americano trabalhador, cumpridor da lei, que diz ser desprezado e marginalizado pelas elites das duas costas americanas. "Fomos esquecidos", ele disse.

Hill, o comandante da milícia, liderou Potts e duas dúzias de outros membros por um curso de obstáculos aberto na mata. Eles escalaram uma parede de troncos e dispararam contra inimigos imaginários, enquanto liberavam salas feitas de placas de compensado e mantas pretas de plástico.

Um miliciano vestia uma camiseta com uma mensagem que dizia: "Quando a tirania se torna lei, a resistência se torna um dever".

Tudo fazia parte dos esforços da milícia para estar armada, pronta e unida para ameaças potenciais, especialmente caso Hillary seja eleita, disse Hill. Ele mencionou seus dois filhos. "A segurança dos meus filhos motiva o que faço", ele disse.

Hill, que chama seu grupo de "milícia defensiva", previu distúrbios e violência por parte de extremistas de ambos os lados independente de quem vença a eleição presidencial. Se Hillary vencer, ele disse, milhões de donos de armas marcharão em Washington na primeira tentativa de restringir o porte de armas.

"Se as pessoas decidirem que não podem mais sofrer injustiças", ele disse, "eu estarei com elas e levarei minhas armas até Washington, D.C."
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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