Quem são as eleitoras que ajudaram na vitória de Trump

Sheryl Gay Stolberg*

Em Nazareth, Pensilvânia (EUA)

  • Max Whittaker/The New York Times

    Kristin Winter (centro) e suas filhas Rachel (esq.), 13, e Hannah, 12, comemoram o anúncio da vitória de Donald Trump, em Reno, Nevada

    Kristin Winter (centro) e suas filhas Rachel (esq.), 13, e Hannah, 12, comemoram o anúncio da vitória de Donald Trump, em Reno, Nevada

Debbie Biro se tornou republicana para votar em Donald Trump.

Biro, 57, que foi democrata desde sempre, é uma mãe solteira que frequenta a igreja, pratica ioga e não come carne. Ela trabalha no escritório da fábrica de lápis Crayola, perto daqui, e pode indicar com exatidão seu momento de "virada", quando ela se convenceu de que Trump era "um líder forte, que fará as coisas".

Foi em janeiro, quando ele não compareceu a um debate em Iowa para participar de um evento para ajudar militares veteranos de guerra --que mais tarde provocou perguntas sobre quanto ele doou. O pai de Biro serviu na Guerra da Coreia, e ela disse que admirava as habilidades empresariais de Trump e achou "simpático ele estar cuidando dos veteranos".

Na rica cidade de Naples, na Flórida, Sue Gauta, 47, dona de uma pequena empresa e casada com um médico, também apoiou Trump. Assim como Wanda Lincoln, 67, uma diretora de colégio aposentada que ainda trabalha para pagar as contas em uma cidade operária decadente no Maine. E Kyleigh Ostendorf, 26, que mora em Los Angeles e produz gráficos para a rede de TV ESPN.

Enquanto os EUA dissecam os resultados da eleição da última terça-feira (8), uma tendência se destaca: dezenas de milhares de mulheres --53% de todas as eleitoras brancas, segundo pesquisas de boca de urna-- escolheram Trump, exercendo um papel crucial em sua vitória.

Em entrevistas aqui no Vale de Lehigh --uma região que indica tendências em um Estado indeciso que ajudou a eleger Trump-- e em todo o país, as mulheres disseram ter votado em Trump, e não contra Hillary Clinton. Os EUA estavam no caminho errado, disseram elas, e só Trump poderia consertar isso.

Mark Makela/The New York Times
Debbie Biro era democrata, mas se tornou republicana para votar em Trump, em sua casa em Nazareth

São mulheres que dirigem empresas e querem que suas filhas cresçam e dirijam empresas. Muitas disseram estar torcendo por uma mulher presidente.

Elas ficaram ofendidas pelos comentários grosseiros de Trump sobre as mulheres, gravados em fita? Absolutamente não. Elas acreditaram nas mulheres que se apresentaram dizendo que Trump as havia assediado? Não necessariamente. Alguma dessas coisas as impediu de votar nele? Não.

Onde as mulheres opositoras de Trump foram ao Twitter com #NotOkay ["Não é legal"], chamando-o de misógino e pior, suas apoiadoras viram "um bom homem e um bom pai", como disse Mary Barket, diretora da Federação de Mulheres Republicanas da Pensilvânia, que conhece Biro da igreja e a ajudou a se envolver na campanha de Trump.

Biro, que disse ser uma "pessoa quieta, reservada", nunca havia batido em portas ou trabalhado em política. Mas passou um dia de cada fim de semana desde agosto apregoando Trump.

Enquanto os que votaram contra Trump viam alguém que faliu empresas e evitou pagar impostos, estas mulheres disseram ver um homem que construiu um império imobiliário e simplesmente seguiu a lei. Elas viram um homem que criou e promoveu uma linda e bem sucedida filha, Ivanka, e que deixou uma inteligente e realizada estrategista de Washington, Kellyanne Conway, dirigir sua campanha presidencial.

Em suma, elas acreditaram na autopromoção de Trump.

"Acho que as mulheres veem a imagem maior --as mulheres são inteligentes", disse Gauta. "O fato de que ele disse algo rude", explicou ela, "não vai mudar minha opinião sobre o bem que ele pode fazer a nosso país."

"Eu gostei disso?", continuou. "Não. Mas acho que ele pode fazer um trabalho melhor que Hillary? Totalmente. Acho que ele tem no coração os melhores interesses deste país. Ele tem uma família linda; ele quer deixar para seus filhos um país bonito --o grande país em que ele foi criado. E acho que ele pensou: o único modo de eu conseguir isso é eu mesmo ser presidente."

Mark Makela/The New York Times
Imagem de Donald Trump é mantida na porta da geladeira na casa de Debbie Biro

Gauta levou seus filhos, de 14 e 16 anos, a um comício de Trump e disse que "ficou ainda mais impressionada por ele pessoalmente do que na TV". Mas quanto a seu discurso às vezes grosseiro: "Se meus filhos dissessem algo parecido, eu os colocaria sobre meus joelhos e os surraria".

Em Chicago, Nicole Been, 22, uma católica que frequenta a Universidade DePaul, é profundamente contra o aborto e a "cultura do sexo casual". Ela se queixou de que outros estudantes a rotularam de racista e elitista por apoiar Trump.

Na Filadélfia, Daphne Goggins, 53, uma ativista da comunidade afro-americana e republicana ardorosa, sempre soube que votaria em Trump. Ela disse acreditar que décadas de esforços democráticos pouco fizeram pelas pessoas negras. Quando Trump a convidou para um reunião com minorias, ela lhe disse chorando que "pela primeira vez na vida sinto que meu voto vai valer". (Segundo pesquisas de boca de urna, só 4% das mulheres negras votaram em Trump, ao lado de 26% das latinas.)

Para as mulheres entrevistadas, assim como para os homens que apoiaram Trump, a economia era a maior preocupação. Gauta e seu marido estão cansados de pagar US$ 1.800 por mês em seguros-saúde, com uma dedução anual de US$ 12 mil. Lincoln, a administradora de colégio aposentada, hoje trabalha na oficina de carros de seu marido em Old Town, no Maine, para ajudar a pagar as contas.

Ostendorf, a produtora gráfica de Los Angeles, viu a empresa de US$ 1 milhão de seu pai implodir na crise econômica de 2008. Ele conseguiu trabalho fazendo manutenção para a ACM.

"Eu vi a América cair", disse ela, "e uma grande parte do que me atraiu em Trump foi seu plano econômico".

E elas disseram que também estão preocupadas com uma América que parece ter abraçado o multiculturalismo e a correção política sem questionar. Segundo afirmaram, elas não entendem o movimento Vidas dos Negros Importam, indagavam-se por que os democratas pareciam tão interessados no acesso de transgêneros a banheiros e tendiam e ficar furiosas pelo modo como os veteranos são tratados e pela violência dirigida contra a polícia.

Mark Makela/The New York Times
Mary Barket, diretora da Federação de Mulheres Republicanas da Pensilvânia, em seu escritório

Elas estão preocupadas com a imigração e a ameaça do terrorismo.

Bobbye Horton, 67, que é hispânica e vive em Grand Junction, no Colorado, aprovou o plano de Trump de construir um muro na fronteira do México. Ela passou a quarta-feira (9) com uma camiseta que dizia "Viva Trump". Os imigrantes, segundo disse, precisavam usar canais legais ou ficar fora. "Ele acertou o coração da América."

"Se você estiver no mundo real, com pessoas reais de pé no chão, você vai ouvir isso", disse Horton.

Pesquisas sugerem que os americanos de ambos os partidos há muito tempo estão abertos a ter uma mulher presidente. Em 1999, uma pesquisa Gallup revelou que 92% dos americanos disseram que votariam em uma mulher. Quando a Gallup fez essa pergunta pela primeira vez, em 1937, o número foi 33%.

"As pessoas não escutam mais 'Você quer que uma mulher seja presidente?'", disse Conway em uma entrevista em fevereiro, antes de se tornar diretora de campanha de Trump. "Elas escutam: 'Você quer aquela mulher?'"

Isso se verificou em muitas conversas com apoiadoras de Trump. Várias delas disseram que simplesmente evitavam falar sobre votar nele com amigas democratas, por medo de prejudicar suas relações fraternas. (Biro nunca fala de política na ioga ou no trabalho.)

"Quando eu lhes dizia que apoiava Trump, elas ficavam meio chocadas, tipo 'Oh meu Deus, de modo nenhum eu vou votar nele'", disse Biro sobre suas amigas. "Mas eu dizia: 'Cada uma com suas ideias'."

Celinda Lake, uma pesquisadora democrata, disse que os democratas esperavam "uma onda de mulheres" em apoio a Hillary, mas isso não aconteceu. Enquanto Hillary se saiu melhor entre as mulheres em quase todos os grupos demográficos, disse Lake, "Trump ganhou solidamente o voto das mulheres brancas, e sabemos que isso foi alimentado por mulheres brancas trabalhadoras".

Biro quase se encaixa nesse molde; embora ela se considere da classe média, não fez faculdade. E Nazareth, uma comunidade de classe média em Northampton, é o tipo de comunidade onde Trump se saiu bem.

Mas sentada na cozinha de sua casa muito arrumada, com placas de Trump-Pence enfiadas no gramado da frente e um cartaz que fala da paz como caminho para a iluminação na sala de estar, Biro expressou as mesmas esperanças e medos pelo país que muitas das seguidoras de Hillary têm agora.

"Espero que ele tente unir as pessoas", disse ela sobre o presidente eleito. "Precisamos tentar ajudar as pessoas a se curar, para que elas possam aprender a confiar e tenham fé de que as coisas vão melhorar."

*Jess Bidgood colaborou com reportagem de Old Town, Maine, e Julie Turkewitz, de Denver, Colorado.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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