Visitar os feridos de guerra fez parte da rotina de Obama na Presidência

Gardiner Harris

Em Bethesda, Maryland (EUA)

  • Cortesia de Timothy Payne via The New York Times

    Barack Obama visita Timothy Payne, ferido a bomba no Afeganistão

    Barack Obama visita Timothy Payne, ferido a bomba no Afeganistão

O presidente Barack Obama parou diante do quarto, esfregou álcool nas mãos, armou um sorriso e bateu na porta.

Ninguém respondeu. Ele olhou para o piso brilhante do hospital e bateu de novo. Sem resposta. Então Obama girou a maçaneta e delicadamente entrou.

"Olá! Jeremy, como vão as coisas?", disse o presidente, segundo lembra o major Jeremy Haynes, quando entrou em seu quarto no Centro Médico Militar Nacional Walter Reed, dois anos atrás.

Foi a primeira de várias visitas que o presidente fez a Haynes, um oficial do Exército que soube que nunca mais poderia andar, sentir algo abaixo da cintura ou ter filhos, depois que sua coluna foi atingida por uma bala do Taleban no Afeganistão. As visitas, disse Haynes, "foram realmente inspiradoras" e lhe deram esperança para seguir sua vida.

Na terça-feira (29), pela 23ª e provavelmente a última como presidente, Obama viajou até o hospital militar para passar a tarde com soldados que se feriram no Afeganistão e no Iraque.

Por causa do clima, ele chegou em um comboio de carros, e não de helicóptero como de hábito. Fora isso, a visita se desenrolou do mesmo modo como Haynes e autoridades do hospital descrevem todas as que fez antes.

Com um mínimo de cerimônia, o comboio do presidente parou junto a uma entrada lateral, onde um assessor militar o encontrou e lhe passou as condições atualizadas dos que ele iria visitar.

Então Obama subiu quatro andares de escadas até o chamado pavilhão dos soldados. Depois de cumprimentar os médicos e enfermeiros em serviço, ele começou as visitas, encontrando-se com 13 soldados e conferindo 12 condecorações do Coração Púrpura.

Para Obama, que serviu como comandante em tempo de guerra por mais tempo que qualquer de seus antecessores, reunir-se com os feridos e seus familiares é um dos deveres mais sagrados da Presidência. Ele raramente fala sobre suas visitas ao Walter Reed, mas seus assessores dizem que elas o afetam profundamente.

David Axelrod, o antigo assessor político de Obama, disse que o presidente muitas vezes voltou em um estado de espírito sombrio do Walter Reed, primeiro quando ele ficava em Washington e depois, quando foi fundido com o Hospital Naval de Bethesda. Em uma viagem, lembrou Axelrod, o presidente descreveu uma jovem que cuidava de seu marido, cujo corpo estava destruído e a cabeça terrivelmente ferida.

Axelrod contou que ele disse: "Você quer ficar animado e ser encorajador, mas são apenas crianças começando a vida. Eu olhei para a mulher dele e vi que ela lutava com o que aquilo significaria pelo resto de suas vidas. É realmente difícil".

Em seus primeiros dois anos no cargo, enquanto as guerras no Iraque e no Afeganistão prosseguiam e havia tantos feridos, as viagens de Obama ao Walter Reed duravam de três a quatro horas, durante as quais ele vestia luvas e aventais hospitalares para ver os pacientes que se agarravam à vida durante dias ou semanas depois de sofrerem explosões. Ele voltava à Casa Branca visivelmente esgotado, disseram assessores.

Mais recentemente, ele fez flexões e outros exercícios com pessoas que voltaram à vida civil e lutam para encontrar meios de viver sem braços, pernas ou equilíbrio meses e anos depois de serem feridas.

"No primeiro mandato, nossas visitas duravam horas porque havia 25, 50, 75 pessoas a visitar, de quarto em quarto, muitas com ferimentos devastadores", disse recentemente Michelle Obama, que também fez visitas pessoais ao Walter Reed. "E hoje, na semana passada, ele foi visitar e passou 30 minutos lá porque há menos homens e mulheres feridos na guerra."

As excursões à tarde partindo da Casa Branca serviram de muitas maneiras como contraponto às 15 viagens de Barack Obama para prestar pêsames depois de tiroteios em massa, quando ele lamentou abertamente com as famílias, com lágrimas no rosto. No Walter Reed, seu objetivo foi agradecer e animar os feridos e seus familiares, cujos sacrifícios ele considera quase sagrado e entre os quais as expressões de tristeza são muitas vezes mal recebidas.

"Se você vai entrar neste quarto com tristeza ou sentindo pena de meus ferimentos, vá a outro lugar", dizia um cartaz escrito a mão na porta de um soldado, hoje emoldurado e instalado no pavilhão dos soldados.

Courtesy of John Terry via The New York Times
Obama pratica exercícios com John Terry no hospital militar

Reggie Love, um ex-assessor de Obama que o acompanhou em quase todas as viagens a hospitais militares nos primeiros três anos de seu governo, disse que o presidente era bom em sentir o clima nos quartos em que entrava. Nem todo mundo queria uma mensagem animadora.

"Às vezes as pessoas que ele visitava não tinham qualquer pergunta para ele, ou na verdade nada a dizer", disse Love. "Às vezes elas apenas precisavam de um abraço."

Alguns dos soldados que Obama visitou estão feridos mais gravemente do que os vistos por qualquer presidente moderno, pois a tecnologia moderna salvou a vida de pessoas que apenas cinco anos atrás teriam morrido no campo de batalha. O choque de ver com frequência esses ferimentos devastadores pode afetar a psique de uma pessoa mais que caixões embrulhados em bandeiras, segundo psicólogos.

"Toda vez que eu visito o Walter Reed ou Bethesda, lembro-me das desgraças da guerra", disse Obama em Fort Campbell, no Kentucky, em 2011.

Robert Gates, que foi secretário da Defesa, escreveu em seu livro de memórias, "Duty" [Dever], que ver os feridos e ir aos funerais tinham um tal peso emocional que ele teve de desistir. Os críticos veem outro efeito. Ao longo de sua Presidência, Obama tornou-se cada vez menos disposto a enviar tropas a lugares como a Líbia, a Síria e o Iraque.

Eliot Cohen, um oficial do governo George W. Bush que hoje é professor de estudos estratégicos na Universidade Johns Hopkins, disse que as viagens de Obama ao Walter Reed podem ter sido o motivo disso, e que os futuros presidentes devem evitar tais visitas.

"Um presidente tem de estar psicologicamente preparado para enviar pessoas de encontro ao perigo e conseguir dormir à noite", disse Cohen. "E qualquer coisa que eles façam que possa prejudicá-los nesse sentido significa que não estão cumprindo seu dever."

Obama recusou essa crítica, dizendo que suas visitas ao hospital salientaram os riscos da guerra, mas não o impediram de enviar tropas à batalha quando foi necessário.

Sua mensagem aos feridos é sempre a mesma.

"Ele entrou e disse: 'Tim, obrigado pelo que você fez. Eu agradeço seu sacrifício, e o país está em dívida com você'", contou Timothy Payne, que pisou em uma bomba no Afeganistão em 2011 e perdeu as duas pernas. "Então ele apertou minha mão e me deu uma daquelas moedas presidenciais."

"Então ele disse: 'O que aconteceu?', e eu disse: 'Bem, eu fui explodido', e nós dois rimos", narrou Payne.

Mulheres, pais e filhos muitas vezes estão presentes, e Obama sempre se dirige a eles pelos primeiros nomes. Às vezes abraça as mulheres, mas quando há uma mãe presente, sempre diz: "As mamães ganham abraços", e as beija.

Depois dos cumprimentos, Obama às vezes chama um assessor militar para entregar um Coração Púrpura ou outra comenda. Ele pergunta se eles têm alguma pergunta ou preocupação e chama outro assessor que toma notas e acompanha o caso. A questão mais comum é sobre a aposentadoria do serviço ativo, um processo trabalhoso e muitas vezes frustrante para os feridos.

As visitas terminam com Obama assinando bandeiras, livros e qualquer coisa que lhe apresentem, e um fotógrafo tirando fotos de grupos ou pares. Às vezes as famílias pedem que tirem fotos com seus próprios celulares, que Obama entrega a seu fotógrafo.

Em junho, Obama visitou a sala de fisioterapia do hospital, onde os amputados reaprendem a caminhar. Um duplo amputado o desafiou num concurso de flexões, e Obama imediatamente tirou o paletó, baixou ao chão e fez mais de 20. Ainda de sapatos formais, ele se uniu a outro e saltou sobre uma caixa de 75 cm.

"Não tenho palavras para dizer como isso me impressionou", disse o tenente-comandante John Terry, conhecido como Jae, um amputado cuja foto fazendo exercícios com Obama é seu bem mais precioso. "Vou me lembrar desse dia até morrer."

Nem todo paciente gravemente ferido no Walter Reed encontra o presidente. Alguns perdem a oportunidade. Outros se recusam por discordar de sua política.

Mas mesmo alguns críticos do presidente dizem que sua presença dignificou seus ferimentos e os fez sentir-se parte de um plano maior.

Enquanto afivelava próteses a suas pernas amputadas no hospital, um dia desses, Edward Klein, conhecido como Flip, um major aposentado do Exército, admitiu: "Eu não era um grande fã dele politicamente. Mas conhecer o presidente deu um sentido de legitimidade e reconhecimento ao que eu fiz", acrescentou.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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