NYT: 5 motivos para a ameaça de Trump contra a Coreia do Norte não ser tão assustadora

Max Fisher

  • Evan Vucci/ AP

    O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou a Coreia do Norte com "fogo e fúria como o mundo nunca viu"

    O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou a Coreia do Norte com "fogo e fúria como o mundo nunca viu"

A ansiedade americana com a Coreia do Norte chegou ao pico na terça-feira (8), quando o presidente Donald Trump alertou que, se o país fizer mais uma ameaça contra os Estados Unidos, ela será respondida com "fogo e fúria como o mundo nunca viu".

As redes sociais se encheram de piadas nervosas e às vezes pânico sobre se Trump e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, poderiam bater boca até provocarem uma guerra nuclear não intencional. Algumas pessoas postaram mapas mostrando como poderiam ser as áreas atingidas por um ataque nuclear em Washington ou Nova York. Outras perguntavam se era hora de construir um abrigo nuclear.

O governo Trump pareceu cultivar esse senso de alarme. Sebastian Gorka, um conselheiro da Casa Branca, disse à "Fox News" que o impasse é "equivalente à crise dos mísseis de Cuba", que quase levou os Estados Unidos e a União Soviética à guerra.

O programa nuclear da Coreia do Norte é terrivelmente sério, mas pesquisa sobre a natureza de ameaças estrangeiras e armas nucleares, assim como o próprio retrospecto da Coreia do Norte, sugere que os americanos não precisam construir abrigos nucleares.

Aqui estão cinco motivos para o risco poder não ser tão assustador quanto parece.

1 - Os Estados Unidos estão fazendo ameaças vagas à Coreia do Norte há mais de 15 anos

Tanto o governo George W. Bush quanto o de Barack Obama ameaçaram guerra, estabelecendo linhas vermelhas que Pyongyang quase sempre cruzou. Bush até mesmo declarou que a Coreia do Norte fazia parte do "eixo do mal", juntamente com o Iraque, que as forças armadas americanas invadiram no ano seguinte.

Os líderes norte-coreanos avaliaram corretamente que se tratava de ameaças vazias, nunca deixando os países se arrastarem para uma guerra involuntária. E as ameaças não pareceram afetar a credibilidade americana. Mas em Pyongyang, onde os nuances da política e das personalidades americanas são menos familiares, essas distinções são menos evidentes.

2 - Palavras importam nas relações internacionais, mas ações importam muito mais.

A atual ação americana, ou a falta de uma, envia uma mensagem de calma e cautela, em vez de "fogo e fúria".

Os Estados têm dificuldade em ler a política interna uns dos outros, de modo que tendem a depender da leitura das ações uns dos outros para obtenção de pistas sobre suas intenções. E a ação americana em relação à Coreia do Norte continua inalterada. As tropas americanas em Guam e no Japão ainda permanecem em seus quartéis, Os navios de guerra estão mantendo uma distância respeitosa.

São esses sinais, não os comentários improvisados de um líder, que importam mais nas relações internacionais. Washington está enviando uma mensagem clara e consistente para Pyongyang de que os Estados Unidos ainda querem evitar uma escalada.

Apesar da Coreia do Norte ter respondido à ameaça de Trump com sua própria contra Guam, as ações do país sugerem que é apenas da boca para fora.

3 - Ninguém tem um incentivo para uma escalada e todos os lados entendem isso

Guerras podem acontecer quando os Estados concluem, de forma acertada ou errada, que o outro lado pode considerar o conflito como sendo de seu interesse. Isso pode levá-los a se prepararem para a guerra, aumentando a probabilidade de que um acidente ou erro de cálculo possa dar início a uma. Mas esse não é o caso agora.

Os interesses da Coreia do Norte são de evitar um conflito que provavelmente perderia. Os interesses dos Estados Unidos são evitar um conflito que poderia resultar em um ataque contra uma cidade americana. Essa clareza é estabilizadora.

Apesar da longa especulação a respeito da saúde mental de Kim, estudiosos concordam que ele tem provado repetidas vezes ser racional e focado na sobrevivência de seu governo. Os programas de armas de seu país visam dissuadir uma guerra, não começar uma. E apesar do comentário de Trump indicar um apetite por guerra, as instituições que conduzem a política externa americana, particularmente as forças armadas, têm se comportado de forma conservadora, dando ao mundo amplo motivo para não dar peso a sua declaração.

4 - Os Estados tendem a ignorar sinais isolados, não claros, como o de Trump

Alguns analistas temem que Trump possa injetar mais incerteza em uma situação já tensa. As declarações mais belicosas do presidente parecem contradizer as mais comedidas de seu próprio governo a respeito da Coreia do Norte. Mas estudos sobre mensagens na política externa sugerem que Pyongyang considerará as ameaças de Trump como sendo vazias.

Segundo pesquisa de Robert Jervis, um cientista político da Universidade de Columbia, os Estados têm inclinação de presumir que o comportamento de outros Estados permanecerá consistente. Superar essa inclinação e forçar um Estado como a Coreia do Norte a mudar sua avaliação das intenções americanas exigiria mais do que algumas poucas palavras.

Os Estados também tendem a desprezar qualquer sinal que percebam como sendo não claro ou ambíguo. Se os americanos não conseguem concordar a respeito do que Trump quis dizer, pode apostar que os analistas em Pyongyang não terão mais certeza.

5 -Qualquer risco à credibilidade americana ou de prender Trump em uma posição perigosa é fácil de ser exagerado

Pesquisa extensa sugere que ameaças vazias nem prejudicam a credibilidade mundial de um Estado e nem criam pressões o forçando a cumprir essas ameaças. Apesar de questões de credibilidade ainda serem debatidas por cientistas políticos, a história está repleta de exemplos de ameaças falsas convenientemente ignoradas.

Durante a Guerra Fria, o primeiro-ministro soviético Nikita Kruschev ameaçou repetidas vezes tomar Berlim Ocidental. Mas as ações soviéticas apontavam suas ameaças como sendo vazias, permitindo a Washington e Moscou evitar discretamente o risco de guerra na Alemanha. Ele nunca se sentiu forçado politicamente a invadir. E poucos duvidaram da credibilidade soviética poucos meses depois, quando Moscou tentou instalar armas nucleares em Cuba, uma ação que falou de forma mais alta e clara do que quaisquer palavras de Kruschev.

Essa é a verdadeira lição da crise dos mísseis de Cuba.

Se Trump deslocar milhares de tropas de Guam para a Coreia do Sul, pode começar a se preocupar. Isso enviaria um sinal claro e desestabilizador das intenções americanas contra a Coreia do Norte. Mas uma declaração exagerada não é motivo para perder o sono.

"Se quiser meu conselho, desligue o Twitter e saia para jantar", escreveu Jeffrey Lewis, um especialista em programa nuclear da Coreia do Norte, pelo Twitter enquanto crescia o pânico na rede social. "Não ocorrerá uma guerra nuclear nesta noite."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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