Reflexos de um desastre: a vida das crianças que sobreviveram ao furacão Katrina

Benedict Carey

Em Nova Orleans

  • Annie Flanagan/The New York Times

    Craig Jones estava na 5ª série quando o furacão Katrina forçou ele e sua família a deixarem New Orleans

    Craig Jones estava na 5ª série quando o furacão Katrina forçou ele e sua família a deixarem New Orleans

As crianças deslocadas pelo furação Katrina não têm uma cartilha psicológica para oferecer aos jovens atingidos pelo Harvey ou àqueles no caminho do Irma, o furação que passou pelo Caribe e pela Flórida.

Depois do Harvey, mais de 160 escolas públicas do distrito e 30 instituições de ensino independentes haviam fechado na área metropolitana estendida de Houston. As famílias procuraram terrenos mais altos, algumas foram para outras cidades, como Dallas ou San Antonio, outras estão em abrigos. Milhares de crianças terão que se adaptar rapidamente e viajar de ônibus por horas de suas casas improvisadas para as novas escolas.

As autoridades do Texas estão trabalhando para coordenar apoio mental e de saúde, e o conselho psicológico do estado está emitindo licenças temporárias para terapeutas de fora do Estado.

Em uma série de entrevistas em Nova Orleans, 12 anos depois das enchentes devastadoras do Katrina, os jovens sobreviventes, hoje com 20 e poucos anos, concordaram apenas que superar a tensão mental do deslocamento é como escapar da própria água que vai subindo – uma questão de encontrar alguma coisa em que se agarrar, um lugar seguro ou pessoa confiável, cada vez que você se muda.

Fiquei com tanta saudade de casa que mudei de volta assim que pude, logo depois de me formar no colegial. Cheguei aqui, e era o mesmo lugar, mas não foi a mesma coisa."

Craig Jones, 22 anos

Jones é designer gráfico autônomo e músico, e deu a entrevista perto de Pigeon Town, uma vizinhança de moradores de classe média baixa com casas modestas, lanchonetes e varandas sombreadas onde ele cresceu.

Estudante da quinta série na época do Katrina, Jones passou os anos de intervenção morando em quartos de hotel, até finalmente se instalar em Houston com a família. Quando voltou para Nova Orleans, no final da adolescência, as ruas de sua infância tinham uma nova mistura de pessoas e uma sensação ameaçadora que não conseguia entender. Ele se tornou ansioso e depois começou a ter ataques de pânico aparentemente ao acaso. Apesar das saudades, voltar para casa o deixou doente.

"Estava andando por aí com os olhos esbugalhados. Eles queriam me dar Xanax, mas eu não quis", conta Jones. Ele se mudou por um tempo e a ansiedade diminuiu.

Terapeutas e cientistas sociais vêm tentando caracterizar os efeitos de toda uma variedade de traumas há mais de um século, mas não encontraram equações, nenhuma maneira de prever quem ficará abatido, quem vai se ajustar e quem se tornará mais forte.

Entretanto, reconhecem alguns efeitos distintos dos furacões. Ao contrário de terremotos ou incêndios, a enchente de uma tempestade como o Katrina ou o Harvey deixa várias casas e prédios ainda de pé fisicamente, mas inabitáveis, ou seja, ao mesmo tempo familiares e estranhos, como uma pessoa querida que desenvolve demência.

Pesquisas feitas em sete anos depois do Katrina descobriram que a taxa de problemas de saúde mental diagnosticáveis na região de Nova Orleans cresceu 9% – um aumento mais acentuado do que depois de outros desastres naturais –, e os efeitos não discriminaram raça ou renda.

Annie Flanagan/The New York Times
Jordan Bridges senta do lado de fora da casa de sua infância, para onde retornou após a passagem do Katrina

"Nossa interpretação é que os causadores do estresse foram tão severos que saturaram as habilidades de enfrentamento da maioria das crianças", explica Kate McLaughlin, diretora do Laboratório de Estresse e Desenvolvimento da Universidade de Washington, que liderou a equipe de pesquisa.

Lacey Lawrence, que hoje tem 22 anos, escapou das águas do Katrina em um colchão de ar, enquanto os policiais usavam remos para empurrar corpos e alguns proprietários protegiam seus negócios com espingardas. Um de seus tios desapareceu, provavelmente porque morreu afogado. Um primo de 12 anos se perdeu, sozinho, e ninguém soube dele por horas. Ela e os pais chegaram a uma região seca da cidade e ficaram com parentes.

Entrei nessa escola nova, sem meus amigos, e as crianças ficavam dizendo coisas sobre meu bairro e minha família. Eu brigava de verdade, brigas violentas. Nunca tinha feito isso antes, nunca, mas você perde tudo e não sabe como lidar com a situação; ninguém te prepara para isso."

Lacey Lawrence

Ela terminou o colégio e agora ensina crianças pequenas exatamente como adquirir essas habilidades: como se tornarem seguras, como lidar com as emoções, como manter o foco naquilo que podem controlar e como se ajustar àquilo que não podem.

Nos anos seguintes ao Katrina, uma dupla de sociólogas, Alice Fothergill e Lori Peek, fez viagens regulares à Nova Orleans, onde entrevistaram centenas de pessoas que haviam sido muito atingidas e as acompanharam ao longo do tempo. Depois de sete anos, a dupla identificou um padrão geral entre as crianças deslocadas: algumas não haviam recuperado a confiança, perderam anos de educação formal e depois caíram no desemprego; outras se adaptaram e até mesmo prosperaram; e havia um terceiro grupo, de jovens ainda incertos, que se mantinham bem, mas inseguros, gerenciando efeitos persistentes, como depressão ou ansiedade.

Os do primeiro grupo já tendiam a possuir menos recursos antes do desastre e perderam tudo. "É uma vulnerabilidade cumulativa, na qual, por exemplo, a família lutava antes da tempestade, depois não conseguiu sair do lugar, e a criança perdeu o apoio já frágil que tinha", explica Fothergill, professora da Universidade de Vermont.

Arquivo Pessoal/The New York Times
Foto de Jordan Bridges, sobrevivente ao furacão Katrina, com sua família

Peek, professora da Universidade do Colorado, afirma que as crianças que se adaptaram mais rapidamente tinham famílias e redes de apoio com recursos que os mantiveram juntos ou fizeram aliados fortes durante o caminho: professores, religiosos e trabalhadores dos abrigos que lutaram para ajudá-las.

O terceiro grupo – chamado pelos sociólogos de "equilíbrio flutuante" – em geral havia perdido virtualmente tudo, mas tinha uma âncora sólida: a mãe, o pai, um professor ou um irmão mais velho.

Fothergill e Peek publicaram um livro descrevendo sua pesquisa, "Crianças do Katrina", cuja história é contada por meio da vida de várias delas.

Cinco anos depois, à medida que essas crianças entraram na idade adulta, ficou claro que suas trajetórias nem sempre foram suaves: Jordan Bridges, de 29 anos, fugiu com a mãe e os irmãos antes do Katrina para a casa de um amigo perto de Washington; o pai ficou para trabalhar. A vida de Bridges em Washington foi repleta de emoções.

Minha mãe não estava dando conta, então era eu que tinha que levar meu irmão mais novo para a escola. Era como se todos os dias eu acordasse e tivesse que esquecer tudo o que havia acontecido no dia anterior."

É o que conta Jordan, que agora trabalha para uma instituição sem fins lucrativos de justiça social em Nova Orleans e canta em uma banda, a Melomania.

Embora "trauma" possa significar várias coisas e ser considerado normalmente destrutivo, suas demandas tem o poder de forçar as pessoas a aprender quais são suas habilidades e quais utilizar quando tudo parece perdido.

Estudos feitos por Roxane Cohen Silver, professora de Psicologia da Universidade da Califórnia, em Irvine, e outros descobriram que adultos que relataram não ter passado por traumas sérios – como, por exemplo, a morte de um amigo, uma doença séria, um desastre natural – geralmente não pontuam tão bem em medidas de bem-estar quanto as pessoas que sobreviveram a eventos traumáticos. São as pessoas que passaram por pelo menos dois traumas, e menos do que seis, que obtêm os melhores resultados.

Depois de voltar para a Louisiana, Bridges diz que enfrentou outro problema, dessa vez em Baton Rouge, enquanto estudava Biologia na Universidade Estadual da Louisiana: ele e o irmão tentaram apartar uma briga, a polícia chegou, bateu nos dois e lhe quebrou a mandíbula. Passou meses no hospital.

"Sinceramente, acredito que ter sobrevivido ao Katrina me ajudou a superar. Não sei se apagaria qualquer um dos dois eventos, honestamente. É parte de quem sou. Eu me tornei um contador de histórias. Sou otimista. Depois de ter passado por essas coisas, sei que nada pode apagar a minha luz", garante ele.

Os jovens entrevistados para esta reportagem tinham uma coisa em comum: eles voltaram, não para casa, mas para um local parecido, onde a incerteza existencial não é uma abstração.

"Agora sei que a gente nunca deve permanecer no lugar quando há um alerta de tempestade. Ninguém vem ajudar; você fica sozinho", diz Shaysa Shief, de 22 anos, que ficou presa com a família por dias depois do Katrina, sem energia elétrica, comida ou água.

Você deve sempre desconfiar, olha por cima do ombro, literal e mentalmente. E checar a previsão do tempo.

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