Análise: O que as acusações do FBI contra seus ex-assessores significam para Trump

Peter Baker

Em Washington*

  • Sam Hodgson/The New York Times

    21.jul.2016 - Rick Gates, ex-assessor de Donald Trump que foi indiciado pelo FBI, ao lado do então candidato republicano à Presidência americana

    21.jul.2016 - Rick Gates, ex-assessor de Donald Trump que foi indiciado pelo FBI, ao lado do então candidato republicano à Presidência americana

Pouco depois de seu ex-diretor de campanha entrar em um escritório do FBI para se entregar na segunda-feira (30), o presidente Donald Trump usou o Twitter para diminuir a relevância das acusações: "Não há NENHUM CONLUIO!" 

No entanto, enquanto sua mensagem chegava a mais de 41 milhões de seguidores, surgiu a notícia de que as autoridades estavam revelando mais um caso que descrevia como um jovem assessor de política externa passara meses tentando conectar a campanha de Trump com russos que ofereciam "sujeiras" sobre Hillary Clinton. 

As primeiras acusações de Robert Mueller, o procurador especial que comanda o caso, não envolvem Trump, mas somadas configuram um baque político para um presidente que passou meses insistindo que a investigação de Mueller não era nada além de uma "caça às bruxas" com base em um boato inventado pelos democratas e pela mídia. 

O indiciamento de Paul Manafort, ex-diretor de campanha de Trump, sugere que o principal adjunto do presidente durante parte do ano passado era um agente bem pago que atuava em prol de interesses da Rússia.

ERIC THAYER/NYT
Paul Manafort, ex-chefe de campanha de Trump, também indiciado

E a declaração de culpa arrancada de George Papadopoulos, assessor de política externa, confirmou a segunda tentativa conhecida da equipe de Trump de explorar Moscou por informações comprometedoras sobre Hillary Clinton, meses antes de seu filho Donald Trump Jr. se encontrar com uma advogada russa com o mesmo intuito

O processo judicial lançou a investigação do procurador especial para uma nova e mais perigosa fase para Trump, que esperava passar esta semana focado em nomear um novo presidente para o Federal Reserve, introduzir sua nova legislação sobre cortes de impostos e no início de uma viagem de 12 dias para a Ásia. 

"Obviamente é um dia importante. Esses são desdobramentos importantes", diz John Q. Barrett, que atuou como procurador independente associado durante a investigação sobre o caso Irã-Contras. 

Dentro da Casa Branca, o clima mudou drasticamente ao longo da manhã. Embora Manafort seja o primeiro ex-chefe de uma campanha presidencial indiciado desde John N. Mitchell durante o Watergate, assessores de Trump se sentiram momentaneamente aliviados pelo fato de tudo estar dentro de suas expectativas e não ter sido incluída nenhuma acusação surpresa que envolvesse a campanha. 

Mas então, justamente quando Trump tuitava que as acusações envolviam ações que haviam ocorrido "antes de Paul Manafort entrar para a campanha de Trump", as notícias sobre Papadopoulos surpreenderam e alarmaram assessores da Casa Branca. 

Trump não disse mais nada publicamente durante o dia e deixou que seus assessores argumentassem que os casos não o impugnavam porque as ações de Manafort não tinham relação com seu serviço de campanha, ao passo que Papadopoulos era somente um voluntário cujas tentativas para marcar reuniões com funcionários de alto escalão não vingaram e ele se declarou culpado de mentir a agentes do FBI, e não de atividades ilegais de campanha. 

"O anúncio de hoje não tem nada a ver com o presidente e não tem nada a ver com a campanha ou as atividades de campanha do presidente", disse Sarah Huckabee Sanders, porta-voz da Casa Branca. Ela disse ainda: "Desde o começo estamos dizendo que não há indícios de um conluio entre Trump e Rússia, e nada no indiciamento de hoje muda isso". 

Entenda o envolvimento da Rússia na política americana

Jay Sekulow, advogado particular de Trump, disse que o presidente e sua equipe jurídica não estavam preocupados com os indiciamentos. "Não, não estamos preocupados", disse Sekulow à CNN. "Estou completamente convencido, como estive desde o começo, de que não somente não houve conluio com os russos, como também não houve obstrução [da Justiça, por parte de Trump]". E disse ainda: "Não estou nem um pouco preocupado com isso, e ninguém está". 

Mas advogados e ex-procuradores dizem que as confissões de Papadopoulos e a reunião denunciada anteriormente envolvendo Trump Jr. já minavam essas negações. 

"Conluio é o que Papadopoulos fez. Conluio é o que Trump Jr. e outros naquela reunião fizeram", diz Barrett. "É se encontrar, discutir e ver que interesses em comum eles podem facilitar uns para os outros." 

A ação de Mueller também tornou mais difícil para Trump ignorar a investigação e culpar os democratas. "Depois que Trump causou uma tempestade no Twitter com suspeitas sobre Mueller este final de semana, agora ele não tem mesmo para onde ir com esse ataque", afirma Robert F. Bauer, procurador da Casa Branca durante o mandato de Barack Obama.

"A primeira acusação de Mueller está além de qualquer alegação de 'politicagem' ou 'extrapolação' que o presidente possa querer fazer contra ele e sua equipe."

A gravidade da ameaça pode ainda fazer com que Trump se sinta tentado a tomar providências para atrapalhar a investigação, como demitir Mueller ou perdoar Manafort ou outros. Ativistas conservadores disseram na segunda-feira que Mueller deveria ser pressionado a renunciar, porque as acusações contra Manafort não eram diretamente relacionadas com a campanha e, portanto, estariam fora de sua alçada. 

Roger J. Stone Jr., assessor ocasional do presidente, disse ao "The Daily Caller", um site conservador, que o presidente não deveria demitir Mueller, mas poderia obter o mesmo resultado direcionando o Departamento de Justiça a investigar um acordo consumado quando Hillary Clinton era secretária de Estado, que dava aos russos uma parte do mercado de urânio nos Estados Unidos. 

Como Mueller era o diretor do FBI na época, ele passaria a ser examinado e portanto não poderia mais conduzir a investigação sobre a Rússia devido a um conflito de interesses, argumentou Stone. Ele disse que essa era a "única chance de sobrevivência" de Trump. 

Tanto Sanders quanto Sekulow refutaram sugestões de que Trump poderia tentar demitir Mueller. "Não existe nenhuma intenção ou plano de efetuar qualquer mudança em relação ao procurador especial", disse Sanders. 

Os dois também minimizaram a possibilidade de que Trump possa perdoar Manafort ou outros pegos na investigação. "Não tive uma conversa com o presidente sobre perdões ou perdoar indivíduos", disse Sekulow. Sanders também disse que ela não havia falado com o presidente sobre a possibilidade de perdões. 

No passado, o presidente sinalizou que poderia dispensar Mueller caso o procurador especial excedesse o que Trump considera os limites de sua investigação. Trump também observou publicamente que ele tem o "poder completo de perdoar" parentes, assessores e talvez até a ele mesmo, em resposta à investigação do procurador especial. 

Os democratas alertaram Trump na segunda-feira para que não tentasse impedir a investigação de Mueller. 

"O presidente não deve, sob nenhuma circunstância, interferir no trabalho do procurador especial de forma alguma", disse o senador Chuck Schumer (Democrata-Nova York), o líder da minoria. "Se ele fizer isso, o Congresso deve reagir rapidamente, inequivocamente e de uma forma bipartidária para garantir que a investigação continue." 

A senadora Dianne Feinstein (Democrata-Califórnia) disse que o indiciamento mostrava que Mueller estava "fazendo seu trabalho" e que o processo estava funcionando. "Vou continuar apoiando Bob Mueller enquanto ele seguir os fatos—sua independência deve permanecer sagrada", ela afirmou. 

Com os indiciamentos, Mueller deixou claro que ele não deve ser subestimado. Em uma ata consta que sua equipe usou duas palavras para descrever Papadopoulos que poderiam arrepiar algumas pessoas do círculo de Trump: "colaborador proativo". Papadopoulos vem colaborando com os procuradores há três meses, e sua declaração se refere a vários outros assessores de campanha que ele consultou enquanto se aproximava dos russos. 

Além disso, ex-procuradores disseram que as acusações contra Manafort e Rick Gates, antigo parceiro de Manafort e também um assessor de campanha de Trump, eram tão graves que elas poderiam ser uma tentativa de pressionar um deles ou ambos a cooperar.

Um advogado da Casa Branca disse na semana passada que o presidente não teria nada a temer se Manafort de fato falasse com os investigadores, mas Mueller e sua equipe de procuradores parecem determinados a descobrir isso por si. 

"Eles fizeram um trabalho fenomenal, de forma rápida, impiedosa e eficiente", diz Solomon L. Wisenberg, que foi procurador independente adjunto durante a investigação que levou ao impeachment do presidente Bill Clinton por acusações de que ele teria mentido sob juramento sobre seu caso com Monica Lewinsky. "Eles estão enviando uma mensagem: 'Estamos aqui para ficar; não mexa conosco'." 

Tradutor: UOL

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos