Quatro anos depois, como estão as estudantes sequestradas pelo Boko Haram na Nigéria

Dionne Searcey

Em Yola (Nigéria)

  • Adam Ferguson/The New York Times

    Estudantes que foram capturadas pelo Boko Haram em 2014 na Nigéria

    Estudantes que foram capturadas pelo Boko Haram em 2014 na Nigéria

A lista tinha mais de 200 nomes. Martha James. Grace Paul. Rebecca Joseph. Mary Ali. Ruth Kolo. E muitos outros.

As autoridades nigerianas levaram longas semanas para divulgar os nomes de todas as estudantes que o Boko Haram sequestrou de um internato na aldeia de Chibok quatro anos atrás, na noite de 14 de abril. Quando os divulgaram, o número era espantoso.

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A lista circulou rapidamente entre os pais chocados que procuravam suas filhas. Alguns partiram em motocicletas para enfrentar os militantes islâmicos que invadiram a escola, carregaram as meninas em caminhões e as levaram sob a mira de armas.

Soldados também usaram a lista enquanto percorriam os campos em busca das estudantes, marchando pela floresta, despachando jatos e pedindo ajuda a militares estrangeiros.

Negociadores verificaram os nomes enquanto barganhavam com os militantes a libertação das garotas. E a lista se tornou uma inspiração para manifestantes a centenas de quilômetros de distância em Abuja, a capital, que marcharam pelo retorno das meninas dia após dia.

"Quando comecei a ler cada nome, minha decisão se fortaleceu", disse Oby Ezekwesili, uma ex-ministra da Educação que liderou os protestos. "Elas não eram apenas estatísticas, eram seres humanos reais."

Muito longe, nos EUA, na França, na Coreia do Sul e em outros lugares figuras públicas e celebridades aderiram à causa. Tragam nossas meninas de volta, exigiam todos.

Durante anos, as adolescentes continuaram desaparecidas, passando de meninas a mulheres, perdidas para um bando de extremistas conhecidos por espancar, violentar e escravizar suas prisioneiras.

E então muitos daqueles nomes foram alegremente cortados da lista.

"Estou 'de volta', como eles dizem", disse Hauwa Ntakai, uma das estudantes de Chibok.

Quase quatro anos depois que foram raptadas e levadas para um esconderijo na floresta, mais de cem das estudantes de Chibok hoje vivem em um novo campus universitário, em Yola, no nordeste da Nigéria, a quatro horas de suas casas. Seus dias são ocupados por aulas de inglês e matemática, karaokê e selfies; à noite, filmes com pipoca.

O governo negociou a libertação de muitas alunas de Chibok, que foram libertadas em grupos durante o último ano e meio. Algumas outras foram encontradas vagando pelo campo, depois de escapar de seus captores.

Mas mais de cem de suas ex-colegas continuam desaparecidas, nas mãos do Boko Haram. Mais de dez delas estariam mortas.

"Estou contente", disse Ntakai, que era a nº 169 da lista. Hoje ela é uma estudante de 20 anos que se levanta de madrugada para a aula de ioga no sábado e discute os benefícios e perigos das redes sociais durante a noite em debates na universidade.

Adam Ferguson/The New York Times
Rahab Ibrahim viveu sob o controle do Boko Haram na Nigéria

"Mas estou pensando em minhas irmãs que ficaram lá", nas garras do Boko Haram, disse ela.

A Nigéria está no nono ano de guerra com o Boko Haram, um grupo que matou e sequestrou milhares de civis em todo o norte do país. Em muitos sentidos, as estudantes de Chibok, embora sua saga tenha sido extraordinária, foram apenas mais um grupo de vítimas. Muitas das jovens hoje se consideram felizardas.

Semanas antes do sequestro em Chibok, um grupo de meninos foi queimado vivo na escola onde estudavam, tragédia que não repercutiu no mundo da mesma maneira que o sequestro em massa das garotas.

A vasta maioria das vítimas do Boko Haram continuarão anônimas e não computadas, seus nomes não serão divulgados ao redor do mundo. Muitas de suas famílias nunca saberão o que aconteceu com as meninas. Os crimes cometidos contra elas ocorrem em áreas remotas, distantes das redes de telefones celulares e com frequência quando a atenção do mundo está voltada para outro assunto.

Mas as meninas de Chibok tinham nomes. Saratu Ayuba. Ruth Amos. Comfort Habila. Esther Usman.

E desde algumas semanas depois que elas foram levadas, quando o Boko Haram divulgou imagens de suas prisioneiras, com ar sombrio, cobertas da cabeça aos pés por longas túnicas escuras, elas tiveram rostos.

Estudantes adolescentes de uma escola de aldeia de repente se tornaram as representantes de todas as vítimas mortas e desaparecidas de uma crise que abalou um recanto pobre e longínquo do mundo.

Elas se tornaram as filhas da Nigéria e, mais amplamente, as filhas do mundo todo, abraçadas e pranteadas como se pertencessem a todos.

"Quando aconteceu o sequestro de Chibok, foi a articulação de toda essa saga", disse Saudatu Mahdi, cofundadora do movimento Tragam de Volta Nossas Meninas. "Elas se tornaram um ponto de união."

Mas as estudantes libertadas de Chibok também carregam o grande peso da celebridade que levou à sua libertação.

Elas são felizes o suficiente por frequentar uma universidade privada que educa os filhos de políticos, empresários e outros membros da elite nigeriana.

Mas as restrições de segurança para as alunas de Chibok são especialmente duras. Elas não podem sair do campus sem um acompanhante. Não podem receber visitantes sem autorização especial. E apesar de algumas delas terem dado à luz durante o cativeiro seus filhos não podem ficar com elas na universidade. Os administradores dizem que isso as distrairia dos estudos.

Na verdade, as jovens pouco viram suas famílias desde que foram libertadas do Boko Haram. O período mais longo que elas passaram com seus pais, irmãos e outros parentes desde seu sequestro em 2014 foi durante as férias de Natal no ano passado, quando foram para casa durante algumas semanas. Além disso, elas ficaram sob rígida supervisão de autoridades e educadores.

Adam Ferguson/The New York Times

Assim que foram libertadas do Boko Haram, as mulheres foram levadas a Abuja, onde passaram semanas sob custódia do governo, interrogadas sobre detalhes que poderiam ajudar a encontrar suas colegas ainda ausentes e para convencer as autoridades de que não haviam se tornado leais ao Boko Haram.

Agentes de segurança advertiram as jovens para não falarem sobre o tempo que passaram com os militantes, afirmando que isso poderia ameaçar a segurança das estudantes que continuam cativas. Esqueçam o passado e sigam em frente, disseram-lhes.

Durante meses, seu acesso aos pais foi severamente restrito. Elas não podiam sair do prédio do governo que era seu dormitório. Ainda hoje, sua única conexão regular com as famílias é por telefone.

No verão passado, autoridades da Universidade Americana da Nigéria, na cidade de Yola, viajaram a Abuja para se reunir com o governo. Em 2014, a universidade havia recebido cerca de 20 estudantes de Chibok que foram sequestradas pelo Boko Haram, mas conseguiram escapar horas depois.

Os administradores apresentaram ao governo um plano para receber as jovens recém-libertadas. A ideia era colocá-las em um programa especial para que se recuperassem nos estudos, reuni-las a suas antigas colegas que já estavam na universidade e prepará-las para a vida acadêmica.

Hoje a vida das estudantes de Chibok é altamente estruturada. Com os militantes ainda presentes no país, elas são consideradas alvos preferenciais. E, como figuras públicas, as autoridades temem que sejam vulneráveis à exploração.

"Elas não serão as pessoas normais que eram antes do sequestro", disse Mahdi, secretária-geral da Alternativa pelos Direitos das Mulheres ao Progresso e Proteção, um grupo de defensoria para mulheres e meninas na Nigéria. "Muitas restrições virão com seu estilo de vida."

Em setembro passado, mais de cem das estudantes chegaram ao campus muito organizado, com cercas-vivas podadas, uma biblioteca de três andares e edifícios com energia solar. Nem todo mundo ficou contente com a chegada de um grupo tão grande de mulheres que passaram anos vivendo com os militantes.

Algumas das outras estudantes ficaram temerosas de que o Boko Haram viesse recapturar as meninas de Chibok, especialmente em uma universidade que representa o tipo de educação ocidental que o grupo militantes condena.

Outros temiam que as mulheres tivessem se tornado ligadas a seus captores e pudessem ser terroristas. Uma estudante disse às autoridades que temia acordar à noite e encontrar uma das mulheres segurando uma faca contra sua garganta.

Depois de chegar ao campus, as jovens foram levadas ao refeitório para sua primeira refeição. O grupo atraiu olhares dos outros alunos.

"Eu percebi que elas não estavam à vontade", disse Reginald Braggs, um ex-instrutor da Marinha americana que é encarregado do programa para as alunas de Chibok.

Adam Ferguson/The New York Times

Autoridades universitárias fizeram as mulheres adotarem uma agenda cheia, com aulas até aos sábados, para manter suas mentes afastadas do passado.

"Elas viram o inferno juntas", disse Somiari Demm, uma psicóloga que aconselha as jovens. Demm também lhes dá aulas de ioga e as acompanha em serviços religiosos. "Elas têm uma longa história que ninguém mais tem."

As jovens disseram a seus pais que sofreram períodos de fome com o Boko Haram. Tinham de cozinhar e limpar para os combatentes. Algumas foram estupradas. Algumas têm estilhaços embaixo da pele. Uma perdeu parte da perna por ferimentos que sofreu com o Boko Haram.

Demm afirmou que algumas das alunas de Chibok que inicialmente escaparam dos militantes viajaram aos EUA, mas foram exploradas por pessoas lá. Segundo ela, tiveram de narrar repetidamente a noite em que o Boko Haram chegou em sua escola, e seus depoimentos foram usados para solicitar doações para igrejas e outras organizações.

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Demm afirmou que queria dar condições às estudantes sob seu cuidado para que contem suas histórias em seu próprio tempo. Por enquanto, disse, a adaptação mais difícil para elas é "ser livres, mas não realmente livres".

Recentemente, uma delas, Glory Dama, soube que seu pai estava doente, internado em um hospital não longe do campus. Ela queria vê-lo, então a universidade organizou para que fosse acompanhada. Antes disso, porém, ele teve alta e parentes o levaram de volta a Chibok, sem esperar pela chegada de Dama. Ele morreu no trajeto.

Dama ficou arrasada, assim como outras mulheres do grupo quando souberam da notícia. As atividades foram canceladas pelo resto do dia.

As jovens, que passam os dias em salas de aula com ar-condicionado e conexão wi-fi, sabem que suas circunstâncias atuais são extremamente melhores que as da maioria das pessoas que fugiram ou foram libertadas do Boko Haram.

Militantes decapitaram algumas das prisioneiras, obrigaram outras a cometer assassinatos e prenderam bombas a mulheres da mesma idade que as estudantes de Chibok. Algumas prisioneiras libertadas do Boko Haram foram colocadas em quartéis militares lotados durante meses. Outras vivem em acampamentos precários do governo, onde foram estupradas por guardas de segurança e lutam para encontrar comida.

Dama quer assistir às aulas na universidade, voltar a Chibok e ser uma enfermeira para ajudar sua comunidade. Outra estudante, Rhoda Peter, quer ser advogada.

"Sei que estou em um lugar onde ninguém vai me perseguir e fazer algo errado conosco", disse Peter, 22. "Eles estão aqui para nos ajudar."

Em fevereiro, o impensável voltou a acontecer a 270 quilômetros de Chibok. O Boko Haram invadiu uma escola secundária em uma aldeia chamada Dapchi e foi embora levando mais de cem adolescentes como prisioneiras.

O país começou a lamentar o sequestro de mais um grupo de estudantes. Mas no fim do mês passado os militantes de repente trouxeram de volta a maioria das meninas em segurança, por motivos que ainda não estão totalmente claros.

O governo nigeriano disse que está negociando a libertação do restante das garotas de Dapchi, assim como dezenas de alunas de Chibok que ainda estão em cativeiro.

Grace Hamman, uma aluna de Chibok que foi libertada do Boko Haram no ano passado, disse que o que a confortou durante o tempo em que esteve prisioneira foi saber que não tinha sido esquecida.

"Eu ouvia no rádio que as pessoas choravam por nós e estavam preocupadas", lembrou ela. "Agradeço a todos pelo que fizeram por nós."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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